O Menino do pijama listrado

JOHN BOYNE


CIA. DAS LETRAS

Sinopse


Bruno tem nove anos e no sabe nada sobre o Holocausto e a Soluo Final contra os 
judeus.Tambm no faz idia de que seu pas est em guerra com boa parte da Europa, e 
muito menos de que sua famlia est envolvida no conflito. Na verdade, Bruno sabe apenas que 
foi obrigado a abandonar a espaosa casa em que vivia em Berlim e mudar-se para uma regio 
desolada, onde ele no tem ningum para brincar nem nada para fazer. Da janela do quarto, 
Bruno pode ver uma cerca, e, para alm dela, centenas de pessoas de pijama, que sempre o 
deixam com um frio na barriga.
Em uma de suas andanas Bruno conhece Shmuel,um garoto do outro lado da cerca 
que curiosamente nasceu no mesmo dia que ele. Conforme a amizade dos dois se intensifica, 
Bruno vai aos poucos tentando elucidar o mistrio que ronda as atividades de seu pai. "O 
Menino do Pijama Listrado"  uma fbula sobre amizade em tempos de guerra, e sobre o que 
acontece quando a inocncia  colocada diante de um monstro terrvel e inimaginvel.
Contracapa


"Um livro maravilhoso." - The 
Guardian -

"Intenso e perturbador [...], pode se tornar uma introduo to memorvel ao tema como O 
dirio de Anne Frank foi em sua poca."
- USA Today -

"Um livro to simples e to bem escrito que beira a perfeio."
- The Irish Independent -



MAIS DE 350 MIL LIVROS VENDIDOS EM TODO MUNDO
Traduo de Augusto Pacheco Calil

Abas


 muito difcil descrever a histria de O menino do pijama listrado. Normalmente, o 
texto de orelha traz alguma dica sobre o livro, alguma informao, mas nesse caso acreditamos 
que isso poderia prejudicar sua leitura, e talvez seja melhor realiz-la sem que voc saiba nada 
sobre a trama.
Caso voc comece a l-lo, embarcar em uma jornada ao lado de um garoto de nove 
anos chamado Bruno (embora este livro no seja recomendado a garotos de nove anos) E cedo 
ou tarde chegar com Bruno a uma cerca.
Cercas como essa existem no mundo todo. Esperamos que voc nunca se depare com 
uma delas.




John Boyne nasceu na Irlanda, em 1971.  autor dos romances The thief of times, The congress 
of rough riders e Crippen. A verso cinematogrfica de O menino do pijama listrado chega s 
telas em
2008.

Para Jamie Lynch

AGRADECIMENTOS

Por todos os conselhos e comentrios inteligentes e por nunca permitir que eu perdesse 
de vista o foco da histria, agradeo muito a David Flicking, Bella Pearson e Linda Sargent. E, 
por apoiar este trabalho desde o incio, agradeo, como sempre, ao meu agente Simon Trewin.
Obrigado tambm  minha velha amiga Janette Jenkins pelo seu grande estmulo aps 
ler um dos primeiros rascunhos.
BRUNO FAZ UMA DESCOBERTA
Certa tarde, quando Bruno chegou em casa vindo da escola, surpreendeu-se ao ver 
Maria, a governanta da famlia - que sempre mantinha a cabea abaixada e jamais levantava 
os olhos do tapete, - de p no seu quarto, tirando todos os seus pertences do guarda-roupa e 
arrumando-os dentro de quatro caixotes de madeira, at mesmo aquelas coisas que ele 
escondera no fundo e que pertenciam somente a ele e no eram da conta de mais ningum.
"O que voc est fazendo?", ele perguntou to educadamente quanto pde, pois, 
embora no estivesse contente por chegar em casa e descobrir algum remexendo nas suas 
coisas, sua me sempre lhe dissera para tratar Maria com respeito e no simplesmente imitar a 
maneira com que seu pai a tratava. "Tire as mos das minhas coisas."
Maria sacudiu a cabea e apontou para a escada atrs dele, onde a me de Bruno 
acabara de aparecer. Era uma mulher alta, de longos cabelos ruivos, presos numa espcie de 
rede atrs da cabea; ela estava retorcendo as mos em sinal de nervosismo, como se houvesse 
algo que ela no quisesse falar ou alguma coisa em que no quisesse acreditar.
"Me", disse Bruno, marchando em direo a ela, "o que est acontecendo? Por que a 
Maria est mexendo nas minhas coisas?"
"Ela est fazendo suas malas", a me explicou.
"Fazendo minhas malas?", ele perguntou, repassando rapidamente os eventos dos 
ltimos dias para avaliar se fora um mau menino ou se dissera em voz alta as palavras que ele 
sabia no poder dizer e, por isso, estava sendo mandado embora. Mas no conseguiu pensar 
em nada que justificasse tal pensamento. Na verdade, durante os ltimos dias ele se 
comportara de maneira perfeitamente decente com todos e no conseguia se lembrar de ter 
criado nenhuma confuso. "Por qu?", ele perguntou ento. "O que eu fiz?"
A me j havia entrado em seu prprio quarto a essa altura, mas Lars, o mordomo, 
estava l, fazendo as malas dela tambm. Ela suspirou e jogou as mos para o ar em sinal de 
frustrao antes de marchar de volta  escada, seguida por Bruno, que no ia deixar o assunto 
morrer sem uma explicao satisfatria.
"Me", ele insistiu. "O que est havendo? Estamos de mudana?"
"Venha comigo at o andar de baixo", disse ela, levando-o at a ampla sala de jantar 
onde o Fria estivera para comer com eles na semana anterior. "Conversaremos l embaixo."
Bruno desceu as escadas correndo e at a ultrapassou na descida, de maneira que j 
estava esperando pela me na sala de jantar quando ela


chegou. Ele observou-a sem dizer nada por um momento e pensou consigo que ela no devia 
ter aplicado corretamente a maquiagem naquela manh, pois as rbitas dos olhos estavam 
mais avermelhadas do que de costume, como os seus prprios olhos ficavam quando ele criava 
confuso e se metia em encrenca e acabava chorando.
"Veja, Bruno, no h motivo para se preocupar", disse a me, sentando-se na cadeira 
na qual se sentara a bela mulher loira que viera jantar acompanhando o Fria e que acenara 
para ele quando o pai fechou a porta. "Na verdade, acho que ser uma grande aventura."
"Que aventura?", ele perguntou. "Esto me mandando embora?"
"No, no  apenas voc", ela disse, parecendo que ia abrir um sorriso momentneo, 
mas mudando de idia. "Todos ns vamos embora. Seu pai e eu, Gretel e voc. Todos os 
quatro."
Bruno pensou a respeito e franziu o cenho. No o incomodava em especial se Gretel 
fosse mandada embora, porque ela era um Caso Perdido e s o metia em encrencas. Mas 
parecia um pouco injusto que todos tivessem que acompanh-la.
"Mas para onde?", ele perguntou. "Aonde vamos exatamente? Por que no podemos 
ficar aqui?"
"E o trabalho do seu pai", explicou a me. "Sabe como isto  importante, no sabe?"
"Sim,  claro", disse Bruno, acenando com a cabea, pois sempre havia na casa muitos 
visitantes - homens em uniformes fantsticos, mulheres com mquinas de escrever das quais ele 
deveria manter longe as mos sujas -, e eram todos sempre muito educados com o pai e diziam 
que ele era um homem para ser observado e que o Fria tinha grandes planos para ele.
"Bem, s vezes, quando uma pessoa  muito importante", prosseguiu a me, "o 
homem que o emprega lhe pede que v a outro lugar, porque l h um trabalho muito especial 
que precisa ser feito."
"Que tipo de trabalho?", perguntou Bruno, porque, se fosse honesto consigo mesmo - e 
ele sempre tentava ser -, teria de admitir que no sabia ao certo qual era o trabalho do pai.
Na escola todos conversaram um dia sobre seus pais, e Karl dissera que seu pai era 
quitandeiro, o que Bruno sabia ser verdade, porque o homem cuidava da quitanda no centro 
da cidade. E Daniel dissera que seu pai era professor, o que Bruno sabia ser verdade, porque o 
homem ensinava aos meninos maiores, dos quais era sempre melhor manter distncia. E 
Martin dissera que seu pai era chef de cozinha, o que Bruno sabia ser verdade, porque, nas 
vezes em que o homem vinha buscar Martin na escola, sempre vestia bata branca e avental 
xadrez, como se tivesse acabado de deixar a cozinha.
Mas, quando perguntaram a Bruno o que seu pai fazia, ele abriu a boca para dizer-
lhes e ento percebeu que ele prprio no sabia. S era capaz de dizer que seu pai era um 
homem para ser observado e que o Fria tinha grandes planos para ele. Ah, e que ele tambm 
tinha um uniforme fantstico.
"E um trabalho muito importante", disse a me, hesitando por um momento. "Um 
trabalho que precisa ser feito por um homem muito especial. Voc consegue entender isso, no 
?"
"E todos ns temos que ir tambm?", indagou Bruno.
"Claro que sim", disse a me. "Voc no gostaria que seu pai fosse at o novo trabalho 
e se sentisse solitrio l, gostaria?"
"Acho que no", disse Bruno.
"Papai sentiria muito a nossa falta se no fssemos com ele", ela acrescentou.
"De quem ele sentiria mais saudade?", perguntou Bruno. "De mim ou de Gretel?"
"Ele teria saudades de ambos igualmente", disse a me, que era partidria da opinio 
de no escolher favoritos, o que Bruno respeitava, especialmente porque sabia que, na verdade, 
era ele o favorito dela.
"Mas e quanto  nossa casa?", perguntou Bruno. "Quem vai cuidar dela enquanto 
estivermos longe?"
A me suspirou e olhou o quarto ao redor, como se nunca mais fosse v-lo novamente. 
Era uma casa muito bonita e tinha ao todo cinco andares, se incluirmos o poro, onde o 
cozinheiro preparava toda a comida e Maria e Lars sentavam-se  mesa discutindo um com o 
outro e chamando-se de nomes que no se deviam empregar. E se considerssemos o pequeno 
quarto no topo da casa, que tinha as janelas oblquas atravs das quais Bruno conseguia ver at 
o outro lado de Berlim, se ficasse na ponta dos ps e segurasse firme no parapeito.
"Teremos que fechar a casa por enquanto", disse a me. "Mas voltaremos algum dia."
"Mas e quanto ao cozinheiro?", perguntou Bruno. "E Lars? E Maria? Eles no vo ficar 
morando aqui na casa?"
"Eles vm conosco", explicou a me. "Mas agora basta de perguntas. Talvez seja 
melhor voc subir e ajudar Maria a fazer as malas."
Bruno levantou-se da cadeira mas no foi a lugar nenhum. Havia apenas mais 
algumas perguntas que ele precisava fazer, antes que pudesse deixar o assunto de lado.
"E muito longe?", ele perguntou. "O emprego novo, quero dizer. Fica a mais de um 
quilmetro de distncia?"
"Oh, cus", disse a me, rindo, embora fosse uma risada estranha porque ela no 
parecia feliz e se virou como se no quisesse que Bruno visse seu rosto. "Sim, Bruno", disse ela. 
"Fica a mais de um quilmetro de distncia. Bem mais que isso, na verdade."
Os olhos de Bruno se arregalaram e a boca fez o formato de um O. Ele sentiu os braos 
pendendo estendidos ao seu lado, como costumavam ficar quando alguma coisa o surpreendia. 
"Voc no quer dizer que iremos deixar Berlim, no ?", ele perguntou, sem flego, esforando -
se para proferir as palavras.
"Temo que sim", disse a me, acenando tristemente com a cabea. "O trabalho de seu 
pai ..."
"Mas e quanto  escola?", disse Bruno, interrompendo-a, algo que ele sabia que no 
podia fazer, mas que pensou ser perdovel naquela ocasio. "E quanto a Karl, e Daniel e 
Martin? Como eles sabero onde eu estarei quando quisermos fazer alguma coisa juntos?"
"Voc ter que se despedir dos seus amigos, por enquanto", disse a me. "Mas estou 
certa de que voc os ver novamente com o tempo. E no interrompa sua me quando ela 
estiver falando, por favor", acrescentou, pois, apesar das notcias estranhas e desagradveis, 
decerto no havia necessidade de Bruno quebrar as regras de boa educao que lhe foram 
ensinadas.
"Despedir-me deles?", ele perguntou, encarando-a com surpresa. "Despedir-me deles?", 
repetiu, cuspindo as palavras como se a boca estivesse cheia de bolachas que ele mastigara mas 
ainda no engolira. "Despedir-me de Karl e Daniel e Martin?', prosseguiu Bruno, a voz se 
aproximando perigosamente do grito, o que no era permitido dentro de casa. "Mas eles so os 
trs melhores amigos da minha vida toda!"
"Ah, voc far novas amizades", disse a me, acenando com a mo no ar, como se 
dispensasse o assunto, supondo que, para um menino, fazer trs grandes amizades para a vida 
toda fosse coisa fcil.
"Mas ns tnhamos planos", protestou ele.
"Planos?", perguntou a me, erguendo uma sobrancelha. "Que tipo de planos?"
"Bem, eu no posso entregar o jogo", disse Bruno, que no podia revelar a natureza 
exata dos planos - os quais incluam criar muita confuso, especialmente dentro de algumas 
semanas, quando a escola fechasse para as frias de vero e eles no precisassem mais passar 
todo o tempo apenas fazendo os planos, mas pudessem, finalmente, coloc-los em prtica.
"Sinto muito, Bruno", disse a me, "mas os seus planos tero que esperar. No h 
escolha quanto a isso."
"Mas, me!"
"J chega, Bruno", disse ela, agora rspida, se levantando para indicar -lhe que tinha 
falado srio quando disse que j bastava. "Francamente, na semana passada voc estava 
reclamando do quanto as coisas mudaram por aqui nestes ltimos tempos."
"Bem, eu no gosto dessa histria de apagar todas as luzes quando chega a noite", 
admitiu ele.
"Todos tm que fazer isso", disse a me. "E para a nossa segurana. E quem sabe, 
talvez seja menos perigoso se nos mudarmos daqui. Agora eu quero que voc suba as escadas e 
v ajudar a Maria a arrumar suas malas. No temos tanto tempo quanto gostaramos para 
fazer os preparativos, graas a certas pessoas."
Bruno acenou e saiu cabisbaixo, sabendo que "certas pessoas" era uma expresso que 
os adultos usavam para "pai", e que ele prprio no podia usar.
Ele foi vagarosamente at as escadas, segurando o corrimo com uma das mos, e se 
perguntou se a casa nova, onde seria o novo trabalho, tinha um corrimo to bom de 
escorregar quanto aquela. Pois o corrimo daquela casa vinha desde o andar mais alto - 
comeava do lado de fora do pequeno quarto onde, se ele ficasse na ponta dos ps e segurasse 
firme no parapeito da janela, era possvel ver at o outro lado de Berlim - at o piso trreo, bem 
diante das duas enormes portas de carvalho. E o que Bruno mais gostava de fazer era subir a 
bordo do corrimo no andar de cima e escorregar pela casa toda, fazendo barulho de vento ao 
longo do caminho.
Descia do andar de cima at o prximo, onde estavam o quarto do pai e da me e o 
grande banheiro, e onde ele no deveria ficar de maneira nenhuma.
Descia at o prximo andar, onde ficavam o seu prprio quarto e o de Gretel e o 
banheiro menor, que ele deveria utilizar com freqncia maior do que de fato fazia.
Descia at o trreo, onde caa do final do corrimo e tinha de aterrissar equilibrado nos 
dois ps, ou ento perdia cinco pontos e tinha de comear tudo outra vez.
O corrimo era a melhor coisa da casa - alm do fato de vov e vov morarem to 
perto -, e quando pensou nisso ele se perguntou se eles tambm viriam at o emprego novo e 
acreditou que sim, pois seria impossvel deix-los para trs. Ningum precisava muito de 
Gretel, porque ela era um Caso Perdido - seria bem mais fcil se ela ficasse para tomar conta da 
casa -, mas vov e vov? A j era outra histria.
Bruno subir devagar as escadas at seu quarto; porm, antes de entrar, olhou para trs 
e para baixo na direo do piso trreo e viu a me entrando no escritrio do pai, que dava de 
frente para a sala de jantar - e onde era Proibido Entrar em Todos os Momentos Sem Exceo -, 
e escutou-a falando alto com ele, at que o pai falou mais alto do que a me era capaz, e isso 
terminou com a conversa entre eles. Ento a porta do escritrio se fechou, e, como Bruno no 
conseguiu mais ouvir nada, pensou que seria boa idia voltar ao seu quarto e assumir a tarefa 
de fazer as malas, porque seno Maria era capaz de retirar todos os seus pertences do guarda-
roupa sem o devido cuidado e considerao, at mesmo as coisas que ele escondera no fundo e 
que pertenciam somente a ele e no eram da conta de mais ningum.
A CASA NOVA
Quando Bruno viu a casa nova pela primeira vez, seus olhos se arregalaram, a boca fez 
o formato de um O, e os braos penderam estendidos ao lado do corpo novamente. Tudo nela 
parecia ser o oposto da casa antiga, e ele no podia acreditar que eles iriam de fato morar l.
A casa de Berlim ficava numa rua calma ao longo da qual havia mais um punhado de 
casas grandes como a dele, e era sempre agradvel olhar para elas, porque eram quase iguais  
sua prpria, mas no exatamente, e nelas moravam outros meninos com quem ele brincava (se 
fossem amigos) ou de quem mantinha distncia (se fossem encrenca) A casa nova, no entanto, 
ficava isolada num lugar vazio e desolado, e no havia nenhuma outra casa  vista, o que 
significava que no haveria outras famlias por perto nem meninos com quem brincar, fossem 
amigos ou fossem encrenca.
A casa de Berlim era enorme, e, mesmo tendo morado l durante nove anos, ele 
sempre conseguia encontrar novos cantos e passagens que ainda no tinha explorado 
inteiramente. Havia at mesmo cmodos - como o escritrio do pai, onde era Proibido Entrar 
em Todos os Momentos Sem Exceo - nos quais ele estivera apenas uma ou outra vez. A casa 
nova, contudo, tinha s trs andares: o andar de cima, onde ficavam todos os trs quartos e um 
nico banheiro, o andar trreo, com a cozinha, a sala de jantar e um escritrio novo para o pai 
(que ele presumia apresentar as mesmas restries do antigo), e o poro, onde dormiam os 
criados.
 volta toda a casa antiga de Berlim havia outras ruas com casas grandes, e, ao se 
chegar ao centro da cidade, havia sempre gente caminhando e parando para conversar umas 
com as outras, ou correndo e dizendo que no tinham tempo para parar, hoje no, no quando 
havia cento e uma coisas a se fazer. Eram lojas com lustrosas fachadas comerciais, e bancas de 
frutas e legumes repletas de bandejas em que se erguiam pilhas altas de repolhos, cenouras, 
couves-flores e milho. Algumas transbordavam de alho-por e cogumelos, nabos e couves-de-
bruxelas; outras estavam cheias de alface e feijes-verdes, abobrinhas e pastinacas. s vezes ele 
se divertia ficando bem na frente dessas bancas, cerrando os olhos e respirando seus aromas, 
sentindo a cabea rodopiar com os cheiros misturados da doura e da vida. Mas, ao redor da 
casa nova, no havia outras ruas, ningum caminhando por l ou correndo por ali, e 
certamente nada de lojas, nem de bancas de frutas e legumes. Quando fechava os olhos, tudo 
ao seu redor parecia simplesmente vazio e frio, como se ele estivesse no lugar mais solitrio do 
mundo. No meio de lugar nenhum.


Em Berlim havia mesas postas na rua, e, de vez em quando, ao caminhar para casa 
vindo da escola com Karl, Daniel e Martin, via homens e mulheres sentados nessas mesas, 
bebendo refrescos espumantes e rindo alto; as pessoas sentadas naquelas mesas deviam ser 
muito engraadas, ele costumava pensar, porque, no importava o que dissessem, algum 
sempre ria. Porm, havia algo a respeito da casa nova que fazia Bruno pensar que ningum 
jamais ria por l; que no havia motivo para riso e nada com que se alegrar.
"Acho que isso foi uma m idia", disse Bruno algumas horas depois de terem chegado, 
enquanto Maria estava desfazendo suas malas no andar de cima. (Maria no era a nica criada 
na casa, inclusive: havia outras trs, bastante magras e que s se comunicavam por meio de 
sussurros. Havia tambm um velho que, segundo lhe disseram, deveria preparar-lhes os 
legumes todo dia e servi-los  mesa, e cujo semblante era sempre infeliz, mas tambm um 
pouco bravo.)
"No temos o luxo de achar coisa alguma", disse a me, abrindo a caixa que continha 
o jogo de sessenta e quatro taas com o qual o vov e a vov a haviam presenteado por ocasio 
do casamento com o pai. "H pessoas que tomam todas as decises em nosso nome."
Bruno no sabia o que ela queria dizer com isso e fingiu que a me nada dissera. "Acho 
que isso foi uma m idia", ele repetiu. "Acho que o melhor a fazer seria esquecer tudo isto e 
simplesmente voltar para casa. Podemos considerar que valeu como experincia", acrescentou 
ele, frase que aprendera recentemente e que estava determinado a empregar com a maior 
freqncia possvel.
A me sorriu e depositou os copos cuidadosamente sobre a mesa. "Tenho mais uma 
frase para voc aprender", ela disse. "E a seguinte: temos que procurar fazer o melhor de uma 
situao ruim."
"Bem, eu no sei se temos mesmo", disse Bruno. "Acho que voc devia dizer ao papai 
que voc mudou de idia e que, bem, se tivermos de ficar aqui pelo resto do dia e jantar aqui 
esta noite e dormir aqui j que estamos cansados da viagem, ento tudo bem, mas seria melhor 
levantar bem cedo amanh, se quisermos chegar a Berlim antes da hora do ch."
A me suspirou. "Bruno, por que voc no sobe logo e vai ajudar a Maria a desfazer as 
suas malas?", ela perguntou.
"Mas no faz sentido desfazer as malas se ns s vamos... "
"Bruno, v logo, por favor!", disse ela, rspida, pois aparentemente no havia problema 
se ela o interrompesse, embora na situao contrria no funcionasse assim. "Estamos aqui, j 
chegamos, e este ser nosso lar durante o futuro previsvel, e  melhor que tentemos aproveitar 
o que for possvel. Est entendendo?"
Ele no sabia o que queria dizer "futuro previsvel" e disse isto a ela.
"Significa que  aqui que ns moramos agora, Bruno", disse a me. "E chega deste 
assunto."
Bruno sentiu uma dor na barriga e percebeu algo crescendo dentro dele, alguma coisa 
que, quando conseguisse sair das maiores profundezas de dentro dele at o mundo exterior, o 
faria gritar e berrar que tudo aquilo era errado e injusto e um grande engano pelo qual algum 
haveria de pagar algum dia, ou, em vez disso, simplesmente o faria desmanchar-se em 
lgrimas. Ele no conseguia compreender como tudo acontecera. Num dia ele estava 
perfeitamente alegre, brincando em casa, com os trs melhores amigos da vida toda, 
escorregando pelos corrimos, tentando ver toda a cidade de Berlim da ponta dos ps, e agora 
estava encalhado nesta casa fria e desagradvel, com trs criadas sussurrantes e um servente 
que era a um s tempo infeliz e bravo, onde ningum parecia ser capaz de rir novamente.
"Bruno, quero que suba e desfaa as malas e quero que v agora", disse a me numa 
voz pouco amigvel, e ele sabia que ela estava falando srio, ento deu meia-volta e marchou 
para o outro lado, sem dizer mais nenhuma palavra. Ele sentia as lgrimas brotando sob seus 
olhos, mas estava determinado a no deix-las aparecer.
Bruno subiu as escadas e virou-se lentamente numa volta completa, na esperana de 
encontrar uma pequena porta ou cubculo que pudesse afinal ser explorado decentemente, mas 
no havia nada. Naquele piso havia apenas quatro portas, duas de cada lado, de frente umas 
para as outras. A porta de seu quarto, a porta do quarto de Gretel, a porta do quarto da me e 
do pai e a porta do banheiro.
"Aqui no  minha casa e nunca vai ser", ele murmurou, enquanto atravessava a sua 
prpria porta para encontrar todas as suas roupas espalhadas sobre a cama e as caixas de 
brinquedos e livros ainda fechadas. Era bvio que Maria no tinha estabelecido suas 
prioridades direito.
"Mame mandou eu ajudar", ele disse baixinho, e Maria acenou e apontou para uma 
sacola grande, contendo todas as suas meias, e cuecas, e camisetas.
"Se voc separar tudo isto, pode colocar no ba de gavetas bem ali", ela disse, 
apontando para um ba grosseiro que ficava do outro lado do quarto, junto a um espelho 
coberto de p.
Bruno suspirou e abriu a sacola; estava cheia at a boca com as suas cuecas, e ele 
queria apenas rastejar para dentro dela e torcer para que, quando tornasse a rastejar para fora, 
ele acordasse e estivesse em casa novamente.
"O que voc acha de tudo isso, Maria?", ele perguntou aps um longo silncio, pois 
sempre gostara de Maria e a considerava um membro da famlia, embora o pai dissesse que ela 
era apenas uma criada, e muito bem paga por sinal.
"Tudo isso o qu?", perguntou ela.
"Isso", disse ele, como se fosse a coisa mais bvia do mundo. "Vir a um lugar como este. 
No acha que cometemos um grave engano?"
"Isto no cabe a mim dizer, senhor Bruno", disse Maria. "Sua me j lhe explicou sobre 
o trabalho de seu pai e... "
"Ah, eu j cansei de ouvir sobre o trabalho do meu pai", disse Bruno, interrompendo-3 
"E s disso que se fala, se  que voc no sabe. O trabalho do papai isso e aquilo. Bem, se o 
trabalho do meu pai significa que temos de mudar da nossa casa, para longe do corrimo-
escorregador e dos meus trs melhores amigos, ento acho que meu pai devia pensar duas 
vezes a respeito do trabalho dele, no acha?"
Neste exato momento houve um ranger no corredor do lado de fora, e Bruno viu a 
porta do quarto da me e do pai se abrir, deixando uma pequena fresta  vista. Ele congelou, 
incapaz de se mover por um momento. A me ainda estava no andar de baixo, o que 
significava que o pai estava l dentro e era bem capaz que tivesse escutado tudo o que Bruno 
acabara de dizer. Ele observou a porta, mal ousando respirar, imaginando se o pai sairia de l e 
o levaria para baixo para uma conversa sria.
A porta se abriu mais, e Bruno deu um passo atrs conforme apareceu uma figura, 
porm no era o pai. Era um homem bem mais jovem, e tambm mais baixo que o pai, 
embora usasse um tipo de uniforme igual, mas sem o mesmo nmero de condecoraes. Ele 
parecia muito srio, e o quepe estava bem preso  cabea. Ao redor das tmporas, Bruno viu 
que seu cabelo era bem loiro, num tom de amarelo quase sobrenatural. Ele trazia uma caixa 
nas mos e caminhava em direo  escada, no entanto parou por um instante quando viu 
Bruno ali o observando. Ele mediu o garoto de cima a baixo, como se jamais tivesse visto uma 
criana antes e no soubesse ao certo o que fazer com uma: se devia com-la, ignor-la ou 
chut-la escada abaixo. Em vez disso, acenou brevemente com a cabea e seguiu seu caminho.
"Quem era esse?", perguntou Bruno. O jovem parecera to srio e ocupado que ele 
presumiu ser uma pessoa de grande importncia.
"Creio que era um dos soldados de seu pai", disse Maria, que ficara bem ereta quando 
o jovem apareceu e mantivera as mos diante de si como numa prece. Ela voltara os olhos para 
o cho em vez de olhar para o seu rosto, como se temesse ser transformada em pedra se olhasse 
diretamente para ele; e s relaxou quando o jovem se foi. "Ns vamos conhec -los com o 
tempo."
"Acho que no gostei dele", disse Bruno. "Ele era srio demais." "Seu pai tambm  
muito srio", disse Maria.
"Sim, mas ele  o papai", explicou Bruno. "Pais devem ser srios. No importa se so 
quitandeiros ou professores ou chefs de cozinha ou comandantes", disse ele, relacionando todas 
as profisses que sabia serem exercidas por pais decentes e respeitveis e em cujos ttulos 
pensara mil vezes. "E no acho que aquele homem se parecia com um pai. Embora ele fosse 
muito srio, no h dvida disso."
"Bem, eles tm empregos muito srios", disse Maria com um suspiro. "Ou ao menos  o 
que eles pensam. Mas, se eu fosse vo c, ficaria longe dos soldados."
"Parece que no h outra coisa a se fazer por aqui alm disso", disse Bruno, triste. 
"Acho que no haver sequer outras crianas com quem brincar
alm de Gretel, e que graa h nisso afinal de contas? Ela  um Caso
Perdido."
Ele sentiu como se fosse chorar novamente, mas se conteve, pois no queria parecer um 
beb na frente de Maria. Olhou ao redor do quarto sem erguer completamente os olhos do 
cho, tentando ver se havia algo de interessante para ser achado. No havia. Ou no parecia 
haver. Mas, ento, uma coisa lhe chamou a ateno. No canto do quarto que ficava de frente 
para a porta havia uma janela do teto descia pela parede, um pouco como aquela no andar de 
cima da casa de Berlim, ainda que no to alta. Bruno observou-a e pensou que poderia ver o 
lado de fora sem mesmo ter de ficar nas pontas dos ps.
Ele caminhou lentamente na direo da janela, na esperana de que fosse possvel ver 
todo o caminho de volta at Berlim, e a sua casa e as ruas ao redor e as mesas onde as pessoas 
se sentava e bebiam os refrescos espumantes e contavam histrias hilariantes umas s outras. 
Andou devagar porque no queria se decepcionar. Mas era apenas o quarto de um menino 
pequeno e no havia muito espao para caminhar at chegar  janela. Bruno ps o rosto junto 
ao vidro e olhou o que estava do lado de fora, e desta vez, quando seus olhos se arregalaram e a 
boca fez o formato de um O, as mos ficaram bem juntas ao corpo, porque havia algo que o 
fez se sentir muito inseguro e com frio.
O CASO PERDIDO
Bruno estava certo de que teria feito muito mais sentido se eles estivessem deixado 
Gretel para trs, em Berlim, para cuidar da casa, porque ela era s encrenca. Na verdade ele j 
a ouvira sendo descrita como Encrenca Desde o Primeiro Dia.
Gretel era trs anos mais velha do que Bruno e fizera questo de deixar claro, desde 
que ele conseguia se lembrar, que, quanto aos assuntos do mundo, especialmente os eventos do 
mundo que diziam respeito a eles dois, ela estava no comando. Bruno no gostava de admitir 
que tinha um pouco de medo dela, mas se fosse honesto consigo mesmo - e ele sempre tentava 
ser -teria de reconhec-lo.
Gretel tinha hbitos desagradveis, como era de se esperar das irms. Ela passava 
muito tempo no banheiro durante as manhs, por exemplo, e no parecia se importar que 
Bruno ficasse do lado de fora, pulando ora de um p ora de outra, desesperado para usar o 
banheiro.
A irm tinha uma grande coleo de bonecas dispostas em prateleiras ao redor do 
quarto, que observavam Bruno quando ele entrava e o seguiam por l, registrando tudo o que 
ele fazia. O menino tinha certeza de que, se fosse explorar o quarto da irm enquanto ela 
estivesse fora de casa, as bonecas lhe contariam tudo o que ele tivesse feito. Ela tinha tambm 
algumas amigas bastante desagradveis, que pareciam achar muito inteligente fazer gracinhas 
a respeito dele, algo que Bruno jamais faria se fosse trs anos mais velho do que ela. Todas as 
amigas desagradveis de Gretel, acima de qualquer coisa, pareciam se deliciar em atorment-
lo, dizendo-lhe coisas inapropriadas sempre que a me ou Maria no estavam por perto.
"O Bruno no tem nove anos, mas apenas seis", dizia uma monstrenga em especial, 
repetindo de novo e de novo numa voz cantarolante, danando e cutucando-o entre as costelas.
"No tenho seis anos, tenho nove", ele protestava, tentando escapar.
"Ento por que voc  to pequeno?", indagava o mostro. "Todos os outros meninos de 
nove anos so maiores que voc."
Isso era verdade, e tambm um assunto muito delicado para Bruno. O fato de ele no 
ser to alto quanto qualquer outro menino de sua classe era fonte de constantes 
aborrecimentos. Na verdade, ele batia na altura dos ombros dos outros meninos. Quando 
caminhava pelas ruas com Karl, Daniel e Martin, as pessoas s vezes o tomavam pelo irmo 
mais novo de algum deles, mas, na verdade, era o segundo mais velho.


"Ento voc deve ter apenas seis anos", insistia a monstrenga, e Bruno saa correndo 
para fazer seus exerccios de alongamento, torcendo para no dia seguinte acordar uns trinta ou 
quarenta centmetros mais alto.
O lado bom de no estar mais em Berlim era que nenhuma delas estaria por perto para 
atorment-lo. Talvez, se fossem obrigados a ficar na casa nova por algum tempo, quem sabe 
at um ms, quando retornassem  casa antiga, ele j tivesse crescido bastante, e ento elas no 
poderiam mais maltrat-lo. Era algo a se pensar, afinal, se ele pretendia seguir a recomendao 
da me e fazer o melhor de uma situao ruim.
Bruno correu at o quarto de Gretel sem bater na porta e a descobriu dispondo a 
civilizao de bonecas nas muitas prateleiras pelo quarto.
"O que est fazendo aqui?", ela gritou, dando meia-volta. "No sabe que no se deve 
entrar no quarto de uma dama sem antes bater na porta?"
" claro que voc no trouxe todas as suas bonecas para c, no?", perguntou Bruno, 
que desenvolvera o hbito de ignorar a maioria das perguntas da irm e fazer suas prprias 
perguntas em vez de responder s dela.
"Claro que trouxe", ela respondeu. "Pensou que eu as deixaria em casa? Ora, pode 
levar semanas at que voltemos para l."
"Semanas?", disse Bruno, parecendo desapontado, mas secretamente satisfeito, pois j 
se resignara com a idia de passar um ms ali. "Acha mesmo que levar tanto tempo?"
"Bem, eu perguntei ao papai e ele disse que ficaremos aqui pelo futuro previsvel."
"Mas o que  o futuro previsvel exatamente?", perguntou Bruno, sentando na lateral 
da cama dela.
"Quer dizer daqui a semanas", disse Gretel com um aceno inteligente de cabea. 
"Talvez at mesmo trs semanas."
"Ento no  to mal", disse Bruno. "Desde que seja apenas pelo futuro previsvel e no 
chegue a completar um ms. Eu detesto aqui."
Gretel olhou para o irmo mais novo e descobriu-se concordando com ele, para variar. 
"Sei o que quer dizer", disse ela. "Aqui no  muito agradvel, no ?"
" horrvel", disse Bruno.
"De fato ", disse Gretel, reconhecendo a observao do irmo. "Agora est horrvel. 
Mas depois que dermos um jeito na casa, provavelmente no ser mais to ruim. Eu ouvi o 
papai dizer que quem quer que tenha morado aqui em Haja-Vista perdeu o emprego bem 
rpido e no teve tempo de ajeitar o lugar para ns."
"Haja-Vista?", perguntou Bruno. "O que  um Haja-Vista?"
"No  um Haja-Vista, Bruno", disse Gretel num suspiro. "E s Haja-
Vista."
"Bem, e o que  Haja-Vista, afinal?", repetiu ele. "Haja-Vista o qu?"
s
"E o nome da casa", explicou Gretel. "Haja-Vista."
Bruno parou para pensar a respeito disso. Ele no vira nenhuma placa do lado de fora, 
informando qual era o nome do lugar, nem havia nada escrito na porta da frente. Sua prpria 
casa em Berlim no tinha nome; era apenas chamada de nmero 4.
"Mas o que isso quer dizer?", perguntou ele exasperado. "Haja-Vista por qu?"
"Haja-Vista por causa das pessoas que moraram aqui antes de ns, eu acho", disse 
Gretel. "Deve ter algo a ver com o fato de elas terem sumido porque no fizeram um servio 
muito bom e algum botou elas para fora e chamou algum capaz de cumprir as tarefas 
direito."
"Quer dizer o papai."
s
"E claro", disse Gretel, que sempre falava sobre o pai como algum incapaz de causar 
qualquer mal e que jamais ficava bravo e sempre vinha dar-lhe um beijo de boa-noite antes de 
ela ir dormir, o que, se Bruno fosse realmente justo e deixasse de lado a tristeza casada pela 
mudana, teria de admitir que o pai fazia por ele tambm.
"E ento ns estamos em Haja-Vista porque os coitados que moravam aqui antes 
foram embora?"
"Exatamente, Bruno", disse Gretel. "Agora saia de cima da minha cama. Voc est 
amassando tudo."
Bruno saltou da cama e aterrissou num carpete, numa pancada surda. Ele no gostou 
do rudo que ouviu. Era muito oco, e o menino imediatamente decidiu que seria melhor no 
sair pulando pela casa com muita freqncia, ou ela era capaz de desabar sobre suas orelhas.
"No gosto daqui", disse pela centsima vez.
"Eu sei que no gosta", disse Gretel. "Mas no h nada que possamos fazer a respeito, 
no ?"
"Eu sinto falta de Karl e Daniel e Martin", disse Bruno.
"E eu tenho saudades de Hilda e Isobel e Louise", disse Gretel, e Bruno tentou lembrar 
qual das garotas era a monstrenga.
"Acho que as outras crianas no parecem nem um pouco amigveis", disse Bruno, e 
Gretel imediatamente parou de ajeitar uma das bonecas mais horrendas na prateleira e se 
voltou de frente para ele, encarando-o.
"O que voc disse?"
"Disse que acho que as outras crianas no parecem nem um pouco amigveis", 
repetiu ele.
"As outras crianas?", disse Gretel, parecendo confusa. "Que outras crianas? Eu no vi 
nenhuma criana."
Bruno correu os olhos pelo quarto. Havia uma janela, mas o quarto de Gretel ficava do 
outro lado do corredor, de frente para o dele, portanto a janela dava para uma direo 
completamente diferente. Tentando disfarar, ele caminhou casualmente at a janela. Meteu as 
mos nos bolsos das calas curtas e tentou assoviar uma msica que conhecia, enquanto 
evitava olhar para a irm.
"Bruno?", perguntou Gretel. "O que voc pensa que est fazendo? Ficou maluco?"
Ele continuou a caminhada e o assovio e prosseguiu evitando-a at chegar  janela, a 
qual, por um golpe de sorte, era tambm baixa o bastante para que ele pudesse enxergar 
atravs dela. Bruno viu do lado de fora o carro no qual haviam chegado, bem como trs ou 
quatro outros veculos que pertenciam aos soldados que trabalhavam para o pai, alguns dos 
quais estavam por l fumando e rindo de alguma coisa enquanto olhavam nervosos para a 
casa. Mais alm, via-se a sada que vinha da estrada e, ao longe, uma floresta que parecia 
pronta para ser explorada.
"Bruno, voc poderia, por favor, me explicar o que quis dizer com esse ltimo 
comentrio?", pediu Gretel.
"Tem uma floresta ali", disse Bruno, ignorando-a.
"Bruno!", disse Gretel, rspida, marchando na direo dele com tamanha velocidade 
que o garoto saltou da janela e se recostou na parede.
"O que foi?", ele perguntou, fingindo no saber do que ela estava falando.
"As outras crianas", disse Gretel. "Voc disse que no parecem nem um pouco 
amigveis."
"E no parecem mesmo", disse Bruno, sem querer julg-las antes de conhec-las, mas 
se deixando levar pelas aparncias, coisa que a me j lhe dissera diversas vezes para no fazer.
"Mas quais outras crianas?", perguntou Gretel. "Onde elas esto?"
Bruno sorriu e caminhou na direo da porta, indicando a Gretel que o seguisse. Ela 
soltou um suspiro fundo ao faz-lo, parando para depositar a boneca na cama, mas mudou de 
idia e a pegou novamente, apertando o brinquedo contra o peito, enquanto entrava no quarto 
do irmo, onde quase foi derrubada por Maria, que corria para fora segurando algo muito 
parecido com um camundongo morto.
"Elas esto l fora", disse Bruno, que havia chegado  sua janela outra vez e estava 
olhando atravs dela. Ele no se voltou para ver se Gretel estava no quarto; estava ocupado 
demais observando as crianas. Por alguns instantes at se esqueceu de que ela estava ali.
Gretel ainda estava um pouco atrs e queria desesperadamente olhar por si mesma, 
mas havia algo no jeito como ele falara e no jeito com que observava que a fez sentir-se 
nervosa. Bruno jamais fora capaz de engan-la quanto a coisa alguma, e ela tinha certeza de 
que o irmo no a estava enganando agora, mas o jeito como ele olhava para fora lhe dava a 
sensao de que talvez no quisesse ver aquelas crianas, afinal. Ela engoliu em seco e fez uma 
prece silenciosa para que, de fato, voltassem logo a Berlim no futuro previsvel e no tivessem 
que esperar um ms, conforme Bruno sugerira.
"E ento?", ele disse, voltando-se para ela e vendo-a parada na porta, agarrada  
boneca, o cabelo dourado dividido simetricamente em dois rabos-de-cavalo, cados nos ombros, 
convidando a um puxo. "No quer v-las?"
"Claro que quero", respondeu ela, caminhando hesitante na direo dele. "Saia da 
frente, ento", disse, afastando-o com o cotovelo.
Aquela tarde em Haja-Vista era de um dia brilhante e ensolarado, e o sol reapareceu de 
trs de uma nuvem, justo no instante em que Gretel olhava para fora da janela, mas, aps um 
instante, seus olhos se ajustaram  luz; o sol tornou a desaparecer, e ela viu a respeito do que 
Bruno estivera falando.
O QUE ELES VIRAM ATRAVS DA JANELA
Para comear, no eram crianas, afinal. Ao menos, no todos. Havia meninos 
pequenos e grandes, pais e avs. Talvez alguns tios tambm. E algumas daquelas pessoas que 
vivem sozinhas nas ruas da vida e no parecem ter parentes. Era gente de todo o tipo.
"Quem so eles?", perguntou Gretel, to boquiaberta quanto o irmo costumava ficar. 
"Que tipo de lugar  esse?"
"No sei bem ao certo", disse Bruno, mantendo-se o mais fiel possvel a verdade. "S sei 
que no  to gostoso quanto a nossa casa."
"E aonde esto as meninas? E as mes? E as avs?"
"Talvez elas morem em outra parte", sugeriu Bruno.
Gretel concordou. Ela no queria continuar olhando, mas era muito difcil voltar os 
olhos para outra direo. At ento, tudo o que vira fora a floresta diante de sua prpria janela, 
que parecia um pouco escura, mas um bom lugar para piqueniques, se houvesse uma clareira 
mais adiante. Mas, daquele lado da casa, a vista era bem diferente.
Comeava at agradvel. Havia um jardim logo abaixo da janela de Bruno. E era bem 
grande, repleto de flores crescendo em sees bastante ordenadas, que aparentavam ser 
cuidadas com muito zelo por algum que sabia que plantar flores num lugar como aquele era 
uma boa coisa a se fazer, como acender uma pequena vela no canto de um enorme castelo 
numa charneca enevoada durante uma noite escura de inverno.
Para alm das flores havia um ptio bastante aprazvel com um banco de madeira, 
onde Gretel se imaginou sentada  luz do sol lendo um livro. Havia uma placa instalada na 
parte superior do banco, mas ela no conseguiu l-la quela distncia. O banco estava voltado 
para a casa - o que seria habitualmente estranho, mas, naquelas circunstncias, ela 
compreendeu o motivo.
A uns cinco metros mais adiante no jardim e das flores e do banco com a placa, tudo 
ficava diferente. Havia uma enorme cerca de arame que envolvia toda a casa e se voltava para 
dentro no topo, estendendo-se em todas as direes para onde a vista de Gretel no alcanava. 
A cerca era muito alta, ainda maior do que a casa na qual estavam, e havia imensos moures 
de madeira, como postes telegrficos, distribudos ao longo dela, mantendo-a de p. Sobre a 
cerca havia grandes rolos de arame farpado entrelaados em espirais, e Gretel sentiu uma 
pontada inesperada de dor dentro de si ao olhar para as pontas afiadas que sobressaam ao 
longo de toda a extenso.
No havia grama do outro lado da cerca; na verdade no havia verde nenhum. Em 
vez disso, o cho parecia feito de uma substncia arenosa, e at


onde sua vista alcanava tudo o que havia eram cabanas baixas e prdios quadrados e amplos 
espalhados pelos arredores, e uma ou duas colunas de fumaa ao longe. Ela abriu a boca para 
dizer alguma coisa, mas ento percebeu que no encontrava as palavras para expressar sua 
surpresa e fez a nica coisa que podia fazer, fechando-a novamente.
"Est vendo?', disse Bruno do canto do quarto, sentindo -se silenciosamente satisfeito 
consigo mesmo porque o que quer que houvesse l fora - e fossem eles quem fossem - fora ele 
quem primeiro os descobrira e poderia v-los sempre que quisesse, pois estavam do lado de fora 
da janela do seu quarto, e no do dela, e portanto pertenciam a ele, e ele era o rei de tudo o que 
eles viam, e ela era sua sdita inferior.
"No entendo", disse Gretel. "Quem seria capaz de construir um lugar to assustador?"
"E mesmo assustador, no ?", concordou Bruno. "Acho que aquelas cabanas tm 
apenas um andar. Veja como so baixas."
"Devem ser casas de tipo moderno", disse Gretel. "Papai odeia as coisas modernas."
"Ento acho que ele no vai gostar delas", disse Bruno.
"No", respondeu Gretel. Ela ficou parada um bom tempo olhando para elas. Com 
doze anos, era considerada uma das meninas mais inteligentes da classe, ento apertou os 
lbios e estreitou os olhos e forou o crebro a entender o que ela estava vendo. Ao final, s 
conseguiu pensar em uma explicao.
"Aqui deve ser o interior", disse Gretel, voltando-se triunfante para encarar o irmo.
"O interior?"
"Sim,  a nica explicao, no est vendo? Quando estamos em casa, em Berlim, 
estamos na cidade.  por isso que h tanta gente e tantas casas, e as escolas so cheias, e no d 
para chegar ao centro da cidade no sbado  tarde sem ser empurrado de poste em poste."
"Sim...", disse Bruno, acenando com a cabea, tentando acompanhar o raciocnio.
"Mas aprendemos na aula de geografia que no interior, onde ficam os fazendeiros e os 
animais, e onde a comida  produzida, h grandes reas como esta, onde as pessoas moram e 
trabalham e de onde mandam toda a comida para nos alimentar." Ela olhou pela janela 
novamente, para a grande imensido diante dela e para a distncia que havia entre cada uma 
das cabanas. "Deve ser aqui. E o interior. Talvez aqui seja nossa casa de frias", acrescentou, 
esperanosa.
Bruno pensou a respeito e balanou a cabea. "Acho que no", disse ele com grande 
convico.
"Voc tem nove anos" retrucou Gretel. "Como poderia saber? Quando tiver a minha 
idade, voc entender essas coisas muito melhor."
"Pode ser que sim", disse Bruno, que sabia que era mais jovem, mas no concordava 
que isso diminusse suas chances de acertar o palpite, "s que, se aqui  o interior, como voc 
diz, onde esto todos os animais de que voc falou?"
Gretel abriu a boca para responder, mas no conseguiu pensar numa resposta 
adequada e ento optou, em vez disso, por olhar uma vez mais pela janela e procurar pelos 
bichos, porm eles no estavam em parte alguma.
"Deveria haver vacas e porcos e ovelhas e cavalos", disse Bruno. "Quero dizer, se fosse 
uma fazenda. Para no falar nos patos e galinhas."
"E no h bichos aqui", admitiu Gretel em voz baixa.
"E se eles cultivassem alguma comida aqui, como voc sugeriu", prosseguiu Bruno, 
divertindo-se muito, "ento acho que o solo teria de ter um aspecto bem melhor do que esse, 
no acha? Nessa sujeira no deve dar para plantar nada."
Gretel olhou novamente e acenou com a cabea, pois no era tola a ponto de insistir 
que estava certa o tempo todo, quando estava claro que os argumentos se voltavam contra ela.
"Talvez no seja uma fazenda, ento", ela disse.
"No ", concordou Bruno.
"O que quer dizer que aqui talvez no seja o interior", ela prosseguiu. "No, acho que 
no ", ele respondeu.
Ele se sentou na cama e por um instante desejou que Gretel se sentasse ao seu lado e 
pusesse o brao ao seu redor e dissesse que tudo ficaria bem e que mais cedo ou mais tarde os 
dois aprenderiam a gostar de l e jamais quereriam voltar a Berlim. Mas ela ainda estava 
olhando pela janela e desta vez no observava as flores nem o ptio nem o banco com a placa 
ou a cerca alta ou os postes de maneira nem os rolos de arame farpado ou o cho estril para 
alm deles nem as cabanas ou os pequenos prdios ou mesmo as colunas de fumaa; em vez 
disso, ela estava olhando para as pessoas.
"Quem so todas aquelas pessoas?", ela perguntou em voz baixa, como se no estivesse 
conversando com Bruno, mas pedindo uma resposta de outra pessoa. "E o que elas esto 
fazendo l?"
Bruno se levantou, e pela primeira vez eles ficaram juntos,observando, ombro a ombro, 
aquilo que acontecia a menos de cento e cinqenta metros da prpria casa.
Por toda parte que olhavam, viam pessoas altas e baixas, velhas e jovens, todas 
perambulando. Algumas ficavam imveis em grupos, as mos ao lado do corpo, tentando 
manter a cabea erguida, enquanto um soldado marchava diante delas, abrindo e fechando a 
boca com rapidez como se estivesse gritando alguma coisa. Algumas formavam uma espcie de 
corrente, empurrando carrinhos de mo de um lado da instalao at o outro, surgindo de um 
lugar alm do alcance da vista e levando os carrinhos mais adiante at chegarem atrs de uma 
cabana, onde desapareciam novamente. Algumas permaneciam perto das cabanas em grupos 
silenciosos, sempre olhando para o cho, como naquele tipo de brincadeira cujo o objetivo  no 
ser visto. Outras usavam muletas e muitas tinham ataduras em torno da cabea. Algumas 
carregavam ps e eram levadas por grupos de soldados at um lugar onde no podiam mais 
ser vistas.
Bruno e Gretel podiam ver centenas de pessoas, mas havia ali tantas cabanas, e o 
campo ia to mais longe que eles no conseguiam ver, que parecia haver milhares de pessoas 
l.
"E todos morando to perto de ns", disse Gretel, franzindo o cenho. "Em Berlim, na 
nossa rua calma e agradvel havia apenas seis casas. E agora so tantas. Por que o papai 
aceitaria um emprego aqui, num lugar to feio e to cheio de vizinhos? No faz sentido."
"Olhe ali", disse Bruno, e Gretel seguiu com os olhos a direo que ele apontava, e viu 
emergir de uma cabana na distncia um grupo de crianas, todas juntas, acompanhadas por 
soldados que gritavam com elas. Quanto mais eles gritavam, mais juntos os pequenos ficavam, 
mas ento um dos soldados se lanou na direo do grupo e elas se separaram e fizeram o que 
ele parecia exigir desde o incio, que era formar uma fila nica. Quando assim fizeram, os 
soldados comearam a gargalhar e as aplaudiram.
"Deve ser algum tipo de ensaio", sugeriu Gretel, ignorando o fato de que algumas 
crianas, mesmo as mais velhas, mesmo aquelas que pareciam ter a idade dela, davam a 
impresso de estar chorando.
"Eu falei que havia crianas aqui", disse Bruno.
"No so o tipo de criana com quem eu gostaria de brincar", disse Gretel com a voz 
determinada. "Elas parecem imundas. Hilda e Isobel e Louise tomam banho toda a manh e eu 
tambm. Aquelas crianas parecem nunca ter tomado banho em suas vidas."
"L parece mesmo bem sujo", disse Bruno. "Mas e se elas no tiverem banheiro?"
"No seja burro", disse Gretel, apesar de j ter ouvido incontveis vezes que no 
deveria chamar o irmo de burro. "Que tipo de gente no tem banheiro?"
"No sei", disse Bruno. "Gente que no tem gua quente?"
Gretel observou-os mais alguns momentos antes de ter um calafrio e se afastar. "Vou 
para o meu quarto arrumar minhas bonecas", disse ela. "A vista de l  bem mais bonita."
Com esse comentrio, ela se foi, voltando pelo corredor at o quarto e fechando a porta 
atrs de si, mas demorou um pouco antes de retomar a arrumao. Sentou-se na cama e muitas 
coisas passaram pela sua cabea.
E um pensamento final passou pela cabea de seu irmo, enquanto ele observava as 
centenas de pessoas na distncia prosseguindo com seus assuntos, e era o fato de que todos eles 
- os meninos pequenos, os meninos grandes, os pais, os avs, os tios, as pessoas que vivem 
sozinhas nas ruas da vida e no parecem ter parentes - usavam as mesas roupas: um conjunto 
de pijama cinza listrado com um bon cinza listrado na cabea.
"Que coisa incrvel", ele murmurou, antes de se voltar para o outro
lado.
PROIBIDO ENTRAR EM TODOS OS MOMENTOS SEM EXCEO S havia uma 
coisa a fazer, e era falar com o pai.
O pai no viera de Berlim no mesmo carro que eles naquela manh. Ele tinha vindo 
alguns dias antes, na noite daquele mesmo dia em que Bruno havia chegado em casa e 
encontrado Maria remexendo nas suas coisas, at mesmo as coisas que ele escondera no fundo e 
que pertenciam somente a ele e no eram da conta de mais ningum. Durante os dias que se 
seguiram, a me, Gretel, Maria, o cozinheiro, Lars e Bruno passaram todo o tempo 
empacotando seus pertences e carregando-os num grande caminho para que fossem trazidos 
at a nova casa em Haja-Vista.
Foi nessa manh final, na qual a casa parecia vazia e to diferente do lar de antes, que 
as ltimas coisas que lhes pertenciam foram metidas em malas, e um carro oficial com 
bandeiras vermelhas e negras na parte da frente estacionou diante da porta para lev-los 
embora.
A me, Maria e Bruno foram os ltimos a deixar a casa, e Bruno acreditou que a me 
no tinha percebido a governanta ainda de p junto a eles, porque, ao lanarem um ltimo 
olhar para a sala vazia onde haviam passado tantos momentos felizes, para o lugar onde ficava 
a rvore de Natal, onde os guarda-chuvas molhados eram depositados durante os meses de 
inverno, e para o lugar onde Bruno deveria deixar os sapatos enlameados ao chegar em casa, 
coisa que nunca fazia, a me balanou a cabea e disse algo muito estranho. "Nunca 
deveramos ter recebido o Fria para o jantar", ela disse. "Certas pessoas e a sua determinao 
em progredir na carreira."
Assim que disse isso, ela se voltou, e Bruno pde ver que havia lgrimas em seus olhos, 
mas ela deu um salto quando viu Maria ali, observando-a.
"Maria", disse ela, numa voz transtornada. "Pensei que estivesse no
carro."
"Eu j estava de sada, madame", disse Maria.
"Eu no quis dizer...", comeou a me, antes de balanar a cabea e repensar o que ia 
dizer. "Eu no quis sugerir a idia de que... "
Eu j estava de sada, madame", repetiu Maria, que aparentemente no sabia a regra 
de no interromper a me, e logo saiu pela porta e correu na direo do carro.
A me franziu o cenho, mas depois deu de ombros, como se nada daquilo importasse 
mais, fosse como fosse. "Vamos ento, Bruno", ela disse, tomando a mo dele e trancando a 
porta s suas costas. "S nos resta torcer para que um dia voltemos aqui, depois de tudo isto 
acabar."


O carro oficial com as bandeiras sobre o cap os levara at uma estao de trem, na 
qual havia dois trilhos separados por uma plataforma ampla, e em ambos os lados havia um 
trem esperando pelo embarque dos passageiros. Por causa do grande nmero de soldados 
marchando do outro lado, para no falar no fato de que havia uma longa cabana pertencente 
ao sinaleiro separando os trilhos, Bruno no pde ver muito da multido que l estava, antes de 
embarcar junto com a famlia num vago muito confortvel, que trazia poucos outros 
passageiros, cheio de bancos vazios e ar fresco quando as janelas eram abertas.
Se os trens seguissem em direes diferentes, ele pensou, no pareceria estranho, porm 
no era o caso: estavam ambos apontados para o leste. Por um instante ele pensou em correr 
pela plataforma avisando aquelas pessoas dos assentos livres no seu vago, mas mudou de 
idia, pois algo lhe dizia que, se aquilo no deixasse a me brava, provavelmente enfureceria 
Gretel, o que seria ainda pior.
Desde que chegaram a Haja-Vista e  casa nova, Bruno no vira o pai. Pensou que 
talvez ele estivesse em seu quarto quando a porta rangeu e se abriu, mas, afinal, se tratava 
apenas do soldado pouco amigvel que encarara Bruno sem nenhum calor nos olhos. Ele no 
ouvira a potente voz do pai em parte alguma, nem mesmo os pesados passos de suas botas 
contra as tbuas do assoalho no andar de baixo. Mas era certo que havia pessoas indo e vindo, 
e, enquanto pensava no que seria melhor fazer, escutou uma grande agitao subindo do 
trreo, e foi at o corredor para se debruar sobre o corrimo.
L embaixo ele viu a porta do escritrio do pai aberta e um grupo de cinco homens de 
p do lado de fora, gargalhando e apertando-se as mos. O pai estava no meio deles e parecia 
muito importante no uniforme recm-passado. O cabelo escuro e espesso fora obviamente 
penteado com brilhantina havia pouco, e, enquanto os observava de cima, Bruno se sentia ao 
mesmo tempo assustado e maravilhado com a presena do pai. Aos seus olhos, os outros 
homens no pareciam to bonitos quanto o pai. Nem os seus uniformes eram to alinhados 
quanto o dele. Tampouco as suas vozes eram to profundas, nem as botas to reluzentes. Todos 
traziam os quepes sob o brao e pareciam disputar entre si a ateno de seu pai. Bruno s 
conseguiu entender algumas das frases da conversa conforme se aproximavam dele.
"... cometeu erros desde o momento em que ps os ps aqui. A coisa chegou ao ponto 
em que o Fria no teve escolha seno...", disse um deles.
"... disciplina!", disse outro. "E eficincia. A eficincia nos falta desde 42 e sem isso..."
"... fica claro, os nmeros no deixam mentir.  claro, comandante...", disse o terceiro.
"... e se construirmos mais um", disse o ltimo, "imagine o que poderamos conseguir... 
Imagine...!"
O pai ergueu uma mo no ar, o que imediatamente fez com que os outros se calassem. 
Era como se ele fosse o regente de um quarteto de barbearia.
"Senhores", ele disse, e desta vez Bruno pde compreender cada palavra, pois jamais 
houvera um homem to capaz de ser ouvido de um lado ao outro do cmodo quanto o pai. "As 
suas sugestes e o seu apoio so muito bem-vindos. E o passado  o passado. Aqui temos a 
oportunidade de um novo comeo, mas este comeo fica para amanh. Agora,  melhor eu 
ajudar minha famlia a se instalar, ou haver tanta encrenca para mim aqui dentro quanto h 
para eles l fora, compreendem?"
Os homens soltaram uma gargalhada e apertaram a mo do pai. Ao sair, formaram 
juntos uma fila, como soldados de brinquedo, e os braos se projetaram para a frente na 
mesma saudao que o pai havia ensinado a Bruno, a palma estendida, vinda do peito em 
direo ao ar em frente a eles num movimento brusco, enquanto gritavam as duas palavras 
que Bruno fora ensinado a repetir, sempre que algum as dissesse para ele. Ento os homens 
foram embora e o pai voltou ao escritrio, no qual era Proibido Entrar em Todos os Momentos 
Sem Exceo.
Bruno desceu lentamente as escadas e hesitou durante um instante  porta. Ele se 
ressentia de o pai no ter subido para dizer oi desde que chegara, mas h haviam lhe explicado 
em diversas ocasies o quanto o pai era ocupado, que ele no podia ser incomodado com coisas 
como vir falar oi para o filho o tempo todo. Mas os soldados j tinham ido embora e ele achou 
que no haveria problema em bater na porta.
Ainda em Berlim, Bruno s estivera no escritrio do pai em raras ocasies, e em geral 
era porque tinha se comportado mal e precisava de uma conversa sria. Mesmo assim, a regra 
que se aplicava ao escritrio em Berlim era uma das mais importantes que j tinha aprendido, e 
Bruno no era tolo a ponto de pensar que a regra no se aplicaria igualmente aqui em Haja-
Vista. Mas como j havia alguns dias que eles no se encontravam, o menino pensou que 
ningum se importaria se ele batesse na porta agora.
E ento ele bateu cuidadosamente na porta. Duas vezes, bem fraco.
Talvez o pai no tivesse escutado, talvez Bruno no tivesse batido forte o bastante, mas 
o fato  que ningum veio at a porta, e ento Bruno bateu de novo, e desta vez com mais 
fora, e ao faz-lo ouviu a voz retumbante vinda l de dentro: "Entre!".
Bruno girou a maaneta e entrou no cmodo, adotando sua tpica pose de olhos 
arregalados, a boca em formato de um O e os braos estendidos pendendo ao lado do corpo. O 
resto da casa podia ser um pouco escuro e melanclico e bastante limitado nas suas 
possibilidades de explorao, mas aquele cmodo era outra histria. Para comear, o p-direito 
era muito alto e sobre o assoalho havia um carpete no qual Bruno pensou que poderia afundar. 
As paredes mal eram visveis; estavam cobertas de prateleiras de mogno escuro, repletas de 
livros, como aqueles que ficavam na biblioteca da casa de Berlim. Havia janelas enormes na 
parede diante dele, e no centro de tudo isso, sentado atrs de uma grande escrivaninha de 
carvalho, estava o pai, que ergueu os olhos de seus papis quando Bruno entrou e abriu um 
largo sorriso.
"Bruno", ele disse, saindo de trs da mesa e cumprimentando o garoto com um slido 
aperto de mo, pois o pai no era do tipo que abraa as pessoas, ao contrrio da me e da av, 
que pareciam distribuir abraos com uma freqncia grande demais, completando o servio 
com beijos melados. "Meu menino", acrescentou ele aps um instante.
"Ol, papai", disse Bruno em voz baixa, um pouco estupefato pelo esplendor do 
cmodo.
"Bruno, eu estava indo l em cima para v-lo dentro de mais alguns minutos, juro que 
estava", disse o pai. "S precisava terminar a reunio e redigir uma carta. Vejo que vocs 
chegaram bem, no?"
"Sim, papai", disse Bruno.
"Ajudou sua me e sua irm a fechar a casa antiga?" "Sim, 
papai", disse Bruno.
"Ento, eu estou orgulhoso de voc", disse o pai num tom de aprovao. "Sente-se, 
menino."
Ele indicou uma ampla cadeira em frente  escrivaninha e Bruno escalou-a, com os ps 
prximos ao cho, mas sem toc-lo, enquanto o pai retornava  sua cadeira atrs da 
escrivaninha para encar-lo. Eles no disseram nada um ao outro por um instante, at que 
finalmente o pai quebrou o silncio.
"E ento?", perguntou ele. "O que acha?"
"O que eu acho?", perguntou Bruno. "O que eu acho a respeito do
qu?"
"A nossa nova casa. Gosta dela?"
"No", disse Bruno rapidamente, pois sempre tentava ser honesto e sabia que, se 
hesitasse mesmo que por um momento, no teria mais coragem de dizer o que pensava. "Acho 
que ns devamos ir para casa", acrescentou, destemido.
O sorriso do pai diminuiu um pouco e ele lanou o olhar sobre a carta por um instante 
antes de erguer os olhos novamente, como se quisesse pensar com cuidado na resposta. "Bem, 
estamos em casa, Bruno", disse por fim numa voz gentil. "Haja-Vista  a nossa nova casa."
"Mas quando poderemos voltar a Berlim?", pergunta Bruno, com o corao apertado 
aps a resposta do pai. "L  muito mais gostoso."
"Ora, vamos", disse o pai, no querendo entrar naquele jogo. "Deixe disso, est bem?", 
pediu ele. "Nossa casa no  uma construo, ou uma rua, ou uma cidade, ou coisa alguma to 
artificial quanto os tijolos e a argamassa. O lar  onde mora a famlia de algum, no  
mesmo?"
"Sim, mas... "
"E a nossa famlia est aqui, Bruno. Em Haja-Vista. Ergo, este  o nosso
lar."
Bruno no entendeu o que significava ergo, mas no precisava entender, pois tinha 
uma resposta inteligente para o pai. "Mas o vov e a vov esto em Berlim", ele disse. "E os dois 
so parte da nossa famlia. Ento, aqui no pode ser o nosso lar."
O pai ponderou sobre isso e acenou com a cabea. Esperou um longo tempo antes de 
responder. "E verdade, Bruno, eles esto l. Mas voc, e eu, e a mame e Gretel somos as 
pessoas mais importantes da nossa famlia, e  aqui que moramos agora. Em Haja-Vista. Agora 
pare de ficar emburrado por causa disso! (pois Bruno estava fazendo uma cara 
deliberadamente emburrada). Voc nem mesmo deu uma chance a este lugar.  capaz de 
gostar daqui."
"Eu no gosto daqui", insistiu Bruno.
"Bruno...", disse o pai com a voz cansada.
"Karl no est aqui e nem Daniel e nem Marin, e no h outras casas nas redondezas e 
nada de bancas de frutas e legumes nem ruas e cafs com as mesas postas do lado de fora, e 
ningum para nos empurrar de poste em poste nas tardes de sbado."
"Bruno, s vezes h coisas na vida que temos de fazer e no temos escolha a respeito 
delas", disse o pai, e Bruno percebeu que ele estava se cansando daquela conversa. "E eu temo 
que esta seja uma dessas coisas. Este  o meu trabalho, um trabalho importante. Importante 
para o nosso pas. Importante para o Fria. Algum dia voc entender."
"Eu quero ir para casa", disse Bruno. Ele sentia as lgrimas se acumulando nos olhos, e 
o que mais queria era que o pai percebesse quo horrvel era aquele tal de Haja-Vista e 
concordasse que era hora de ir embora.
"Voc precisa entender que j est em casa", disse ele em vez disso, desapontando 
Bruno. "E assim ser pelo futuro previsvel."
Bruno fechou os olhos por um instante. Tinham sido poucas as ocasies em sua vida 
nas quais estivera to determinado a conseguir o que queria, e certamente ele jamais se dirigira 
ao pai com tamanho desejo de que este mudasse de idia a respeito de alguma coisa, mas a 
noo de que teriam de ficar l, morando um lugar to horrvel onde no havia mais ningum 
para brincar, tudo aquilo era demais par a cabea do menino. Quando abriu os olhos, um 
momento depois, o pai havia sado de trs da escrivaninha e se acomodara numa poltrona ao 
seu lado. Bruno o observou abrir uma caixa de prata, retirar um cigarro e bate-lo contra a mesa 
antes de o acender.
"Eu me lembro de quando era criana", disse o pai, "lembro que havia certas coisas 
que eu no queria fazer, mas quando meu pai dizia que seria melhor para todos se eu 
obedecesse, eu simplesmente seguia em frente e fazia o que tinha de ser feito."
"Que tipos de coisas eram essas?", perguntou Bruno.
"Ah, eu no sei", disse o pai, dando de ombros. "No era nada demais. Eu era apenas 
uma criana e no sabia o que era o melhor a fazer. s vezes, por exemplo, eu no queria ficar 
em casa e terminar a lio; queria sair pelas ruas, brincando com meus amigos, assim como 
voc, e hoje eu olho para trs e vejo como eu era tolo."
"Ento voc sabe como eu me sinto", disse Bruno, esperanoso.
"Sim, mas eu tambm sabia que o meu pai, seu av, sabia o que era melhor para mim 
e que eu seria sempre mais feliz se simplesmente aceitasse isso. Acha que eu teria sido to bem-
sucedido na vida se no tivesse aprendido quando  hora de discutir e quando  hora de ficar 
com a boca fechada e seguir ordens? E ento, Bruno? O que voc acha?"
Bruno olhou ao redor. Seu olhar se deteve na janela que ficava no canto do cmodo, e, 
atravs dela, ele podia ver a paisagem desoladora para alm do vidro.
"Voc fez alguma coisa errada?", perguntou ele aps um instante. "Alguma coisa que 
deixou o Fria bravo?"
"Eu?", disse o pai, olhando surpreso para ele. "O que voc quer
dizer?"
"Fez alguma coisa ruim no trabalho? Eu sei que todos dizem que voc  um homem 
importante e que o Fria tem em mente grandes coisas reservadas a voc, mas no acho que ele 
o enviaria para um lugar como este se voc no tivesse feito alguma coisa pela qual ele quisesse 
castig-lo."
O pai riu, o que deixou Bruno ainda mais triste; nada o deixava mais bravo do que 
quando um adulto ria dele por no saber alguma coisa, especialmente quando ele estava 
tentando descobrir a resposta fazendo perguntas.
"Voc no compreende o significado de uma posio como esta", disse
o pai.
"Bem, eu no acho que voc tenha feito um bom trabalho, se isso significa ter de nos 
mudar da nossa bela casa e para longe de nossos amigos e vir morar num lugar to horrvel 
quanto este. Acho que voc deve ter feito alguma coisa errada e talvez seja melhor pedir 
desculpas ao Fria, e, quem sabe, isso encerre a questo. Talvez ele o perdoe, se voc for bem 
sincero nos eu pedido."
As palavras saram antes que ele pudesse pensar se eram razoveis ou no; depois de 
ouvi-las flutuando no ar, elas no pareceram o tipo de coisa que ele deveria dizer ao pai, mas l 
estavam elas, j ditas, e no havia nada que pudesse fazer para retir-las. Bruno engoliu em 
seco e, aps alguns momentos de silncio, olhou para o pai, que o encarava com o olhar ptreo. 
Bruno lambeu os lbios e desviou os olhos. Ele sentiu que seria m idia olhar o pai nos olhos.
Depois de alguns minutos silenciosos e desconfortveis, o pai se ergueu lentamente da 
poltrona ao seu lado e voltou para trs da escrivaninha, deixando o cigarro no cinzeiro.
"Eu me pergunto se voc est sendo muito corajoso", ele disse em voz baixa aps um 
momento, como se estivesse remoendo o problema na cabea, "em vez de simplesmente 
desrespeitoso. Talvez no seja uma coisa to ruim, afinal."
"Eu no quis dizer... "
"Mas agora voc ficar em silncio", disse o pai, elevando a voz e interrompendo-o, 
porque nenhuma das regras que normalmente se aplicavam  vida familiar valia para ele. "Eu 
tive grande considerao pelos seus sentimentos neste caso, Bruno, porque sei que esta 
mudana  difcil para voc. E escutei o que voc tinha a dizer, muito embora a sua juventude e 
a falta de experincia o obriguem a formular as coisas de maneira to insolente. E voc reparou 
que eu no reagi a nada disso. Mas  chegado o momento de voc simplesmente aceitar o fato 
de que... "
"Eu no quero aceitar nada!", gritou Bruno, piscando surpreso, pois no sabia que iria 
pronunciar aquelas palavras em voz alta. (Foi de fato uma enorme surpresa para ele.) Ele ficou 
um pouco nervoso e se preparou para fugir correndo caso fosse necessrio. Mas nada parecia 
irritar o pai naquele dia - e se Bruno fosse honesto, teria de admitir que raramente o pai ficava 
bravo; ele ficava quieto e distante e sempre conseguia o que queria no fim das contas -, e, em 
vez de gritar com ele ou persegui-lo pela casa, ele apenas balanou a cabea e indicou que a 
conversa havia chegado ao fim.
"V para o seu quarto, Bruno", disse ele numa voz to baixa que o menino soube 
imediatamente que ele falava srio agora, e ento se levantou, as lgrimas de frustrao se 
formando nos seus olhos. Ele caminhou na direo da porta, mas, antes de abri-la, voltou-se 
para o pai e fez uma ltima pergunta.
"Pai?", comeou ele.
"Bruno, eu no vou...", comeou o pai, irritado.
"No  isso", disse Bruno rapidamente. "Eu s quero fazer uma outra pergunta."
O pai suspirou, mas indicou que ele deveria faz-la e, ento, seria o fim daquele 
assunto, sem mais discusses.
Bruno pensou sobre a pergunta, procurando formul-la com preciso desta vez, para 
que no soasse mal-educada ou pouco colaborativa. "Quem so todas aquelas pessoas do lado 
de fora?", disse ele finalmente.
O pai inclinou a cabea para a esquerda, parecendo um pouco confuso por causa da 
pergunta. "So soldados, Bruno", disse ele. "E secretrios. Empregados do gabinete. Voc j os 
viu antes,  claro." "No estou falando deles", disse Bruno. "Quero saber daquelas pessoas que 
eu vejo da minha janela. As que moram nas cabanas, l longe. Esto todas com as mesmas 
roupas."
"Ah, aquelas pessoas", disse o pai, acenando com a cabea e sorrindo levemente. 
"Aquelas pessoas... Bem, na verdade elas no so pessoas,
Bruno."
Bruno franziu o cenho. "No so?", perguntou ele, sem saber o que o pai queria dizer 
com aquilo.
"Bem, no so pessoas no sentido em que entendemos o termo", prosseguiu o pai. "Mas 
voc no deve ser preocupar com elas agora. Elas no tm nada a ver com voc. No h nada 
em comum entre voc e elas. Apenas adapte-se  nova casa e comporte-se bem,  tudo o que eu 
peo. Aceite a situao na qual voc se encontra e tudo ficar muito mais fcil."
"Est bem, papai", disse Bruno, insatisfeito com a resposta.
Ele abriu a porta e o pai o chamou de volta por mais um instante, levantando-se e 
erguendo uma sobrancelha como se o menino tivesse esquecido alguma coisa. Bruno lembrou-
se assim que o pai fez o sinal, e disse a frase e o imitou com exatido.
Ele juntou os ps e ergueu o brao direito no ar antes de bater um calcanhar no outro e 
dizer numa voz to profunda e clara quanto possvel -to parecida com a do pai quanto ele 
conseguia fazer - as palavras que dizia sempre que saa da presena de um soldado.
"Heil Hitler", disse, o que Bruno presumia ser outra forma de dizer: "Bem, at logo, 
tenha uma boa tarde".
A CRIADA MUITO BEM PAGA
Alguns dias depois Bruno estava deitado na cama em seu quarto, olhando para o teto 
sobre a cabea. A tinta branca estava rachada e descamando de uma maneira bastante 
desagradvel, ao contrrio da pintura da casa em Berlim, que nunca ficava arranhada e recebia 
uma segunda demo de tinta todo vero, quando a me trazia os decoradores. Naquela tarde 
em especial ele ficou l deitado olhando para as rachaduras em forma de teia de aranha, 
estreitando os olhos para imaginar o que haveria para alm delas. Pensou que poderia haver 
insetos morando no espao entre o teto e a tinta, e o movimento deles seria responsvel por 
forar a pintura, inchando-a por dentro, provocando as rachaduras, tentando abrir uma brecha 
grande o bastante para que eles pudessem atravessar e procurar a sada pela janela, por onde 
escapariam. Nada, pensou Bruno, nem mesmo os insetos jamais optaria por ficam em Haja-
Vista.
"Tudo aqui  horrvel", ele disse em voz alta, embora no houvesse ningum presente 
no quarto para escutar e, de alguma maneira, ele se sentiu melhor por ter ouvido as palavras 
ditas, fosse como fosse. "Eu odeio esta casa, odeio meu quarto e odeio at mesmo a pintura. 
Odeio tudo aqui. Absolutamente tudo."
Assim que ele terminou de falar, Maria entro pela porta carregando uma braada de 
roupas devidamente lavadas, secas e passadas. Ela hesitou por um instante quando o viu ali 
sentado, mas depois fez uma reverncia com a cabea e caminhou em silncio at o guarda-
roupa.
"Ol", disse Bruno, pois, embora conversar com uma criada no fosse a mesma coisa 
do que ter amigos com quem conversar, no havia mais ningum para lhe fazer companhia e 
era bem mais saudvel falar com ela do que ficar falando sozinho. Gretel no estava por perto e 
ele comeou a se preocupar, temendo que pudesse enlouquecer por causa do tdio.
"Senhor Bruno", disse Maria em voz baixa, separando as camisas das calas e das 
roupas de baixo e guardando tudo em gavetas e prateleiras separadas.
"Imagino que voc esteja to incomodada com as novidades quanto eu", disse Bruno, e 
ela se voltou para encar-lo com uma expresso que sugeria no saber do que se tratava. "Tudo 
aqui. E horrvel, no ? Voc no odeia tudo isso, como eu?"
Maria abriu a boca para dizer alguma coisa, mas fechou-a com a mesma rapidez. Ela 
parecia estar pensando cuidadosamente na resposta, escolhendo as palavras certas, 
preparando-se para diz-las, e ento pensou melhor e dispensou-as por completo. Bruno a 
conhecia por quase toda a sua


vida - ela viera trabalhar para sua famlia quando ele tinha apenas trs anos -e eles sempre se 
deram bem juntos, embora ela jamais demonstrasse grandes sinais de vida. Seguia com seu 
trabalho, lustrando os mveis, lavando as roupas, ajudando na cozinha e nas compras, por 
vezes levando-o  escola e buscando-o na sada, apesar de isso ter sido mais comum quando ele 
ainda tinha oito anos; ao completar nove anos, ele decidiu que j tinha idade suficiente para ir e 
voltar sozinho da escola.
"Ento voc no gosta daqui?", disse ela afinal.
"Se eu no gosto daqui?", respondeu Bruno com uma leve risada. "Gostar daqui?", ele 
repetiu, mais alto desta vez. "E claro que eu no gosto daqui!  horrvel. No h nada para se 
fazer, no h ningum com quem conversar, ningum para brincar comigo. No v me dizer 
que voc est contente por termos nos mudado para c."
"Eu sempre gostei do jardim da casa de Berlim", disse Maria, respondendo a uma 
pergunta completamente diferente. "As vezes, quando a tarde era quente, eu me sentava ali ao 
sol e almoava sob a hera junto ao lago. As flores l eram muito bonitas. Seus perfumes. As 
abelhas que flutuavam ao redor delas e nunca nos incomodavam se as deixssemos em paz."
"Ento voc tambm no gosta daqui?", perguntou Bruno. "Acha to horrvel quanto 
eu acho?"
Maria franziu o cenho. "No importa", ela disse.
"O que no importa?"
"O que eu acho."
"Como assim,  claro que importa", disse Bruno, irritado, como se ela estivesse 
deliberadamente dificultando as coisas. "Voc  parte da famlia, no ?"
"No estou certa de que seu pai concordaria com isso", disse Maria, permitindo-se um 
sorriso, pois ficara comovida com o que o menino acabara de dizer.
"Bem, voc foi trazida para c contra sua vontade, assim como eu. Se quer saber, 
estamos todos no mesmo barco. E ele est afundando."
Por um instante Bruno achou que Maria fosse de fato lhe dizer o que estava pensando. 
Ela depositou o resto das roupas sobre a cama e seus punhos se cerravam, como se estivesse 
muito brava por causa de alguma coisa. A boca se abriu, mas congelou por um momento, 
como se Maria tivesse medo de tudo o que poderia dizer se permitisse a si mesma comear.
"Por favor, Maria, diga-me", disse Bruno. "Quem sabe, se todos ns nos sentimos assim 
poderemos convencer o papai a nos levar de volta para casa."
Ela desviou o olhar dele por alguns instantes silenciosos e balanou a cabea, 
entristecida, antes de encar-lo novamente. "Seu pai sabe o que  melhor para ns", ela disse. 
"Voc precisa confiar nele."
"No tenho tanta certeza disso", disse Bruno. "Acho que ele cometeu um terrvel 
engano."
"Ento  um engano com o qual teremos que conviver."
"Quando eu me engano, sou castigado", Bruno insistiu, irritado pelo fato de que as 
regras que se aplicavam s crianas pareciam nunca se aplicar aos adultos (apesar de serem 
eles que aplicavam as regras). "Pai idiota", disse em voz baixa.
Os olhos de Maria se arregalaram e ela deu um passo na direo dele, cobrindo a 
prpria boca com as mos num momento de horror. Ela olhou ao redor para certificar-se de 
que ningum os estava ouvindo nem ouvira o que Bruno acabara de dizer. "Nunca diga isso", 
ela disse. "Jamais fale uma coisa dessas sobre seu pai."
"No vejo por que no", disse Bruno; ele estava um pouco envergonhado de si por ter 
dito tais palavras, mas a ltima coisa que faria era sentar e receber uma bronca quando 
ningum parecia se importar com as suas opinies.
"Porque o seu pai  um bom homem", disse Maria. "Um homem muito bom. Ele cuida 
de todos ns."
"Trazendo-nos at este fim de mundo, no meio do nada, voc quer dizer? E isso que 
voc chama de tomar conta da gente?"
"H muitas coisas que o seu pai fez", disse ela. "Muitas coisas das quais voc deveria se 
orgulhar. Se no fosse pelo seu pai, onde eu estaria, afinal de contas?"
"De volta a Berlim, imagino", disse Bruno. "Trabalhando numa bela casa. Almoando 
sob a hera e deixando as abelhas em paz."
"Voc no se lembra de quando eu vim trabalhar para vocs, no ?", ela perguntou 
em voz baixa, sentando-se por um instante ao lado dele na cama, coisa que jamais havia feito 
antes. "Como poderia se lembrar? Voc tinha apenas trs anos. Seu pai me acolheu e me 
ajudou quando eu precisava dele. Deu-me um emprego, um lar, comida. Voc nunca passou 
fome, no ?"
Bruno franziu o cenho. Ele queria mencionar que estava um pouco faminto naquele 
momento, mas por fim olhou para Maria e percebeu, pela primeira vez, que nunca a havia 
considerado inteiramente como uma pessoa, com uma vida e uma histria prprias. Afinal, ela 
jamais fizera outra coisa (at onde ele sabia) alm de ser a criada da famlia. Ele nem sequer 
conseguira se lembrar se j a havia visto trajando outras roupas que no o uniforme de 
empregada. Mas ao pensar no assunto, como fazia agora, era obrigado a admitir que deveria 
haver mais na vida dela, alm de servir a ele e  sua famlia. Ela devia ter pensamentos na 
cabea, assim como ele. Devia haver coisas das quais ela sentia falta, amigos que gostaria de 
rever, assim como ele. E devia ter chorado toda noite at dormir, como teriam feito meninos 
bem menores e menos corajosos do que ele. Bruno notou que ela era at bonita, o que provocou 
nele uma sensao engraada.
"Minha me conheceu seu pai quando ele era um menino da sua idade", disse Maria 
aps alguns momentos. "Ela trabalhava para sua av. Cuidava das roupas dela, enquanto ela 
viajava pela Alemanha, quando era mais jovem. Preparava todas as roupas para os concertos - 
lavava-as, passava-as, consertava-as. Todos vestidos maravilhosos. E a costura, Bruno! Cada 
modelo parecia uma obra de arte. No se encontram mais costureiras como aquelas hoje em 
dia." Ela balanou a cabea e sorriu, pensando naquelas memrias, enquanto Bruno escutava 
pacientemente. "Ela se certificava de que todos os vestidos estivessem arrumados e prontos para 
serem usados a qualquer momento que sua av entrasse no camarim, antes de um espetculo. 
E, depois que sua av se aposentou,  claro que as duas continuaram amigas e minha me at 
recebia uma penso dela, mas era uma poca difcil e o seu pai me ofereceu um emprego, o 
primeiro que eu tive. Alguns meses mais tarde minha me ficou muito doente e precisou de 
muitos cuidados hospitalares, e o seu pai cuidou de tudo, mesmo no sendo obrigao dele. Ele 
pagou tudo do prprio bolso, porque ela fora amiga da me dele. E me acolheu no seu lar pelo 
mesmo motivo. E, quando ela morreu, ele tambm pagou por todas as despesas do funeral. 
Ento no chame seu pai de idiota, Bruno. No perto de mim. Isso eu no permitirei."
Bruno mordeu os lbios. Ele esperava que Maria ficasse ao seu lado na campanha para 
sair de Haja-Vista, mas agora percebia por quem de fato ela tinha lealdade. E era obrigado a 
admitir que ficara orgulhoso do pai ao escutar aquela histria.
"Bem", ele falou, incapaz de pensar em algo inteligente para dizer, "acho que foi gentil 
da parte dele."
"Sim", concordou Maria, levantando-se e caminhando at a janela, aquela atravs da 
qual Bruno enxergava as cabanas e as pessoas l longe. "Ele foi muito bom para mim naquela 
poca", ela prosseguiu em voz baixa, olhando pela janela e observando as pessoas e os soldados 
ao longe cuidando de suas vidas. "Ele tem muita bondade na alma, tem mesmo, o que me faz 
imaginar..." A voz dela sumiu enquanto os observava, e depois emitiu um soluo repentino 
como se fosse chorar.
"Imaginar o qu?", perguntou Bruno.
"Imaginar o que ele... como ele pode... "
"Como ele pode o qu?", insistiu Bruno.
O barulho de uma porta batendo veio do andar de baixo e reverberou to alto pela 
casa - como o disparo de uma arma - que Bruno deu um salto e Maria soltou um pequeno 
grito. Bruno distinguiu passos golpeando os degraus da escada vindo na direo deles, cada vez 
mais rpido, e rastejou de volta  cama, apertando-se contra a parede, subitamente temendo o 
que poderia acontecer a seguir. Prendeu a respirao, esperando alguma encrenca, mas era 
apenas Gretel, o Caso Perdido. Ela meteu a cabea no vo da porta e pareceu surpresa ao 
encontrar o irmo e a criada da famlia conversado.
"O que est havendo?", perguntou Gretel.
"Nada", disse Bruno na defensiva. "O que voc quer? Saia daqui."
"Saia voc", ela respondeu, embora estivessem no quarto dele, e ento a menina se 
voltou para Maria, estreitando os olhos desconfiados. "Prepare -me um banho, est bem, 
Maria?", pediu ela.
"Por que voc no prepara o prprio banho?", retrucou Bruno, rspido.
"Porque ela  a criada", devolveu Gretel, olhando para ele. "E para isso que ela est 
aqui."
"Ela no est aqui para isso", gritou Bruno, levantando-se e marchando na direo 
dela. "Ela no est aqui simplesmente para fazer coisas para ns o tempo todo, sabia? 
Especialmente coisas que podemos fazer sozinhos."
Gretel encarou-o como se ele tivesse enlouquecido e ento olhou para Maria, que 
rapidamente balanou a cabea.
"Mas  claro, dona Gretel", disse Maria. "Assim que terminar de arrumar as roupas de 
seu irmo, eu irei prontamente atend-la."
"Bem, no demore!", disse Gretel, grossa - pois, ao contrrio de Bruno, ela jamais 
parava para pensar que Maria era uma pessoa com sentimentos exatamente como os seus -, 
antes de marchar de volta ao prprio quarto e fechar a porta atrs de si. Os olhos de Maria no 
a acompanharam, mas suas bochechas haviam adquirido uma colorao rsea.
"Continuo achando que ele cometeu um terrvel engano", disse Bruno em voz baixa 
aps alguns minutos, quando ele teve a sensao de que queria pedir desculpas pelo 
comportamento da irm mas no sabia ao certo se essa era a coisa certa a fazer. Situaes 
como aquela sempre deixavam Bruno num grande desconforto, porque, em seu corao, ele 
sabia que no havia motivo para faltar com a educao a ningum, mesmo que a pessoa 
trabalhasse para voc. Afinal, era para isso que existiam as boas maneiras.
"Mesmo assim,  melhor no dizer isso em voz alta", disse Maria rapidamente, 
caminhando na direo dele com cara de quem queria lhe meter algum juzo na cabea. 
"Prometa-me que no dir."
"Mas por qu?", perguntou ele, franzindo o cenho. "Estou apenas dizendo o que sinto. Eu sou 
livre para fazer isso, no?" "No", disse ela. "No , no."
"No sou livre para dizer o que sinto?", ele repetiu, incrdulo.
"No", ela insistiu, a voz spera enquanto tentava explicar a situao a ele. "Apenas 
no fale neste assunto, Bruno. No percebe quanta encrenca voc poderia causar? Para todos 
ns?"
Bruno a encarou. Havia algo em seus olhos, uma espcie de preocupao histrica, que 
ele jamais vira antes e que o inquietava. "Bem", o menino murmurou, agora de p e 
caminhando na direo da porta, de repente ansioso por deix-la, "estava apenas dizendo que 
no gosto daqui,  s isso. S estava jogando conversa fora, enquanto voc arrumava as roupas. 
No  como se eu estivesse planejando fugir ou coisa assim. Muito embora eu ache que, se 
fugisse, no poderia ser criticado por isso."
"E matar de preocupao seu pai e sua me?", perguntou Maria. "Bruno, se voc tiver 
um pingo de juzo, vai ficar quieto e se concentrar nos estudos e fazer tudo o que o seu pai 
disser. Temos que nos manter a salvo at que tudo isto termine. Pelo menos essa  a minha 
inteno. Alm disso, o que mais podemos fazer? No cabe a ns mudar as coisas."
Subitamente, e sem conseguir pensar num motivo em particular, Bruno sentiu uma 
irresistvel vontade de chorar. At ele ficou surpreso, piscando os olhos rapidamente algumas 
vezes para que Maria no percebesse seus sentimentos. Apesar disso, quando seus olhos 
tornaram a se encontrar, ele pensou que talvez houvesse algo de estranho no ar aquele dia, pois 
os olhos dela tambm pareciam estar se enchendo de lgrimas. Tudo isso o fez sentir-se 
estranho, e ento o menino deu as costas a ela e rumou at a porta.
"Aonde voc vai?", perguntou Maria.
"L fora", disse Bruno, com raiva. "Se  que voc se importa."
Ele andou devagar, mas, depois que deixou o quarto, aumentou o ritmo rumo s 
escadas e desceu em alta velocidade, com a repentina sensao de que, se no sasse logo da 
casa, desmaiaria. Em segundos j estava do lado de fora, e comeou a correr para l e para c 
pelo passeio que levava  estrada, ansioso por alguma atividade, algo que fosse cans-lo um 
pouco.  distncia, viu o porto que levava  estrada que levava  estao de trem que levava  
sua casa, mas a idia de ir at l, a idia de fugir e ficar abandonado  prpria sorte sem 
ningum para ajud-lo, pareceu ainda mais desagradvel do que a idia de ficar em Haja-
Vista.
COMO A ME LEVOU O CRDITO POR ALGO QUE NO FEZ
Vrias semanas depois de Bruno ter chegado a Haja-Vista com sua famlia e sem 
nenhuma perspectiva de uma visita de Karl, Daniel ou Martin no horizonte, ele decidiu que era 
melhor inventar alguma maneira de se divertir, ou ento acabaria enlouquecendo aos poucos.
Bruno conhecera apenas uma pessoa que ele considerava louca, e era herr Roller, um 
homem mais ou menos da idade de seu pai, que morava na esquina do seu quarteiro da casa 
velha em Berlim. Era freqentemente visto na rua andando para l e para c a qualquer hora 
do dia ou da noite, discutindo sozinho, exaltado. s vezes, no meio dessas discusses, a disputa 
sada do controle e o homem tentava atingir a sombra que ele prprio projetava na parede. De 
tempos em tempos herr Roller lutava com tamanha fria que os punhos sangravam de tanto 
bater contra as paredes de tijolo, e ento ele caa de joelhos, chorando alto e batendo as mos 
contra a cabea. Em algumas ocasies Bruno o ouvira proferindo aquelas palavras que ele 
prprio no podia usar e, nessas vezes, tinha que se controlar para no rir.
"No ria do pobre herr Roller", dissera-lhe a me numa tarde em que ele relatara sua 
ltima aventura. "Voc no faz idia do que ele passou nessa
vida."
"Ele  louco", disse Bruno, descrevendo com o dedo crculos ao lado da cabea e 
assoviando para indicar quo louco ele achava ser o homem. "Outro dia ele se aproximou de 
um gato e o convidou para tomar o ch da
tarde."
"E o que disse o gato?", perguntou Gretel, que estava preparando um sanduche na 
cozinha.
"Nada", explicou Bruno. "Era um gato."
"Estou falando srio", insistiu a me. "Franz era um jovem maravilhoso - eu o conheci 
quando ainda era uma garotinha. Era gentil e atencioso e atravessava o salo de dana como se 
fosse Fred Astaire. Mas sofreu um terrvel ferimento durante a Grande Guerra, um ferimento 
na cabea, e  por isso que age assim agora. No  motivo de piada. Vocs no fazem idia do 
que passaram os jovens daquela poca. No imaginam o sofrimento dele."
Bruno tinha, ento, apenas seis anos e no sabia ao certo a que a me estava se 
referindo. "Foi h muitos anos", explicou ela quando ele perguntou a respeito. "Antes de voc 
nascer. Franz era um dos jovens que lutaram por ns nas trincheiras. Seu pai o conhecia muito 
bem naquela poca; acredito que eles serviram juntos."
"E o que aconteceu com ele?", perguntou Bruno.


"No importa", disse a me. "A guerra no  um assunto digno de conversa. Temo que 
em breve passaremos tempo demais conversando sobre a guerra."
Aquilo tudo ocorrera trs anos antes de todos eles chegarem a Haja-Vista, e Bruno no 
havia pensado muito em herr Roller nesse nterim, mas de repente ele se convenceu de que, se 
no tomasse alguma atitude, se no fizesse alguma coisa que lhe ocupasse a mente, ento, 
antes que pudesse perceber, acabaria igualmente vagando pelas ruas e lutando consigo mesmo 
e convidando animais domsticos para ocasies sociais.
Para manter-se distrado, Bruno passou uma longa manh e a tarde de um sbado 
criando para si uma nova diverso. A certa distncia da casa - do lado de Gretel e impossvel de 
se ver da janela de seu prprio quarto - havia um grande carvalho, de tronco bastante alentado. 
Uma rvore alta, de galhos robustos, fortes o suficiente para suportar um menino pequeno. 
Parecia to velha que Bruno estava certo de que fora plantada em algum momento da baixa 
Idade Mdia, um perodo que ele estudara h pouco tempo e descobrira ser muito interessante - 
em especial as partes que falavam de cavaleiros que saam para terras desconhecidas em busca 
de aventuras e desvendavam mistrios curiosos durante o processo.
Bruno precisava apenas de duas coisas para criar seu divertimento: um pedao de 
corda e um pneu. A corda foi bastante fcil de encontrar, pois havia rolos no poro da casa e 
no demorou para que ele fizesse algo extremamente perigoso: encontrando uma faca afiada, 
cortou tantos pedaos de corda julgou serem necessrios. Levou-os at o carvalho e deixou-os 
no cho para utiliz-los futuramente. O pneu j era outra histria.
Naquela manh em particular, nem a me nem o pai estavam em casa. A me sara 
cedo para tomar o trem at uma cidade prxima e passaria o dia respirando outros ares, 
enquanto o pai fora visto pela ltima vez indo na direo das cabanas e das pessoas que 
ficavam  distncia, do outro lado da janela de Bruno. Mas, como de costume, havia muitos 
caminhes e jipes dos soldados estacionados nas proximidades da casa, e, embora ele soubesse 
que seria impossvel roubar um pneu de qualquer um deles, existia sempre a possibilidade de 
encontrar um estepe em algum lugar.
Quando estava saindo, viu Gretel conversando com o tenente Kotler e, sem grande 
entusiasmo, decidiu que seria ele a pessoa certa a quem pedir o favor. O tenente Kotler era o 
jovem oficial que Bruno vira durante seu primeiro dia em Haja-Vista, o soldado que aparecera 
no andar de cima da casa e o encarara por um instante antes de acenar com a cabea e seguir 
caminho. Bruno o havia visto em muitas ocasies desde ento - ele entrava e saa da casa como 
se fosse o dono do lugar, e parecia bvio que o escritrio do pai no era proibido para ele -, 
porm os dois no haviam conversado muito. Bruno no sabia ao certo por qu, mas sabia que 
no gostava do tenente Kotler. Havia uma atmosfera ao redor dele que fazia com que o menino 
sentisse frio e tivesse vontade de vestir um macaco. Ainda assim, no havia mais a quem pedir 
e ento marchou na direo deles para dizer oi, reunindo toda a confiana de que era capaz.
Na maioria dos dias o jovem tenente tinha um aspecto muito vistoso, desfilando por ali 
num uniforme que parecia ter sido passado enquanto ele o vestia. As botas pretas sempre 
reluziam de to polidas e o cabelo loiro era repartido de lado e mantido perfeitamente no lugar 
por alguma coisa que destacava as marcas do pente, parecendo um campo recm-arado. Ele 
tambm usava tanta loo ps-barba que tornava possvel farejar sua aproximao a uma 
distncia considervel. Bruno aprendeu a evitar encontr-lo no sentido contrrio ao vento, ou 
acabaria arriscando-se a desmaiar por causa do cheiro.
Naquela manh em particular, entretanto, por ser sbado e por causa do sol intenso, 
ele no estava to impecavelmente arrumado. Ao invs disso, vestia um palet branco sobre as 
calas e o cabelo pendia sobre a testa, exausto. Os braos eram surpreendentemente 
bronzeados e tinham o tipo de msculos que Bruno desejava para si. Ele parecia to jovem 
naquele dia que Bruno at ficou surpreso; na verdade ele o fazia lembrar dos meninos mais 
velhos da escola, aqueles que sempre evitava. O tenente Kotler estava envolvido numa conversa 
com Gretel, e o quer que estivesse dizendo devia ser irresistivelmente engraado, pois ela ria 
alto e enrolava o cabelo ao redor dos dedos, formando anis.
"Ol", disse Bruno ao se aproximar deles, e Gretei lanou -lhe um olhar irritado.
"O que voc quer?", perguntou ela.
"Eu no quero nada", devolveu Bruno, fuzilando-a com o olhar. "S vim dizer oi."
"Por favor, desculpe o meu irmo mais novo, Kurt", disse Gretel ao tenente Kotler. 
"Sabe como , ele s tem nove anos."
"Bom dia, homenzinho", disse Kotler, estendendo a mo e - para desgosto do menino - 
passando-a pelo cabelo de Bruno, um gesto que o deixou com vontade de empurr-lo no cho e 
saltar sobre sua cabea. "E qual motivo o tira da cama to cedo numa manh de sbado?"
"No tem nada de to cedo'", disse Bruno. "So quase dez horas."
O tenente Kotler deu de ombros. "Quando eu tinha a sua idade, minha me no 
conseguia me tirar da cama antes da hora do almoo. Ela dizia que eu jamais cresceria e ficaria 
forte, se passasse a vida toda dormindo."
"Bem, ela parece ter se enganado completamente, no?", Gretel deu um sorriso 
afetado. Bruno olhou enojado para ela. A menina fazia uma voz de boba que dava a impresso 
de que ela no tinha nada da cabea. No havia nada que Bruno quisesse mais do que deixar 
os dois para trs sem participar da conversa deles, mas no tinha escolha, a no ser priorizar os 
seus interesses e pedir ao tenente Kotler o impensvel. Um favor.
"Eu imaginava se poderia lhe pedir um favor", disse Bruno.
"Pode pedir", disse o tenente Kotler, fazendo Gretel rir de novo, embora isso no fosse 
especialmente engraado.
"Eu queria saber se no h algum pneu estepe sobrando", prosseguiu Bruno. "Quem 
sabe de um dos jipes. Ou de um dos caminhes. Algum que vocs no estejam usando."
"O nico pneu que eu vi sobrando por aqui nos ltimos tempos pertence ao sargento 
Hoffschneider, e ele o traz ao redor da cintura", disse o tenente Kotler, os lbios assumindo uma 
forma parecida com um sorriso. Para Bruno aquilo no fazia o menor sentido, mas parecia 
divertir tanto Gretel que ela estava quase danando.
"Bem, ele est usando o pneu?", perguntou Bruno.
"O sargento Hoffschneider?", perguntou o tenente Kotler. "Temo que sim. Ele  muito 
apegado ao seu estepe sobressalente."
"Chega, Kurt", disse Gretel, secando os olhos. "Ele no entende. S tem nove amos."
"D para voc ficar quieta, por favor?", gritou Bruno irritado, encarando a irm. J era 
ruim o bastante ter que vir ate o tenente Kotler pedir-lhe um favor, mas ficava ainda pior com a 
irm provocando-o durante a histria toda. "Voc tambm s tem doze anos", acrescentou ele. 
"Ento pare de fingir que  mais velha."
"Eu tenho quase treze anos, Kurt", retrucou ela, sem rir, o rosto congelado de pavor. 
"Farei treze em poucas semanas. Serei uma adolescente. Como voc."
O tenente Kotler sorriu e acenou com a cabea, mas no disse nada. Bruno voltou os 
olhos para ele. Se fosse qualquer outro adulto ali na sua frente, ele teria girado os olhos 
sugerindo que ambos sabiam o quanto as meninas eram bobas, e as irms, ainda mais 
ridculas. Porm no se tratava de qualquer outro adulto. Era o tenente Kotler.
"Enfim", disse Bruno, ignorando o olhar de dio que Gretel lhe lanava, "alm desse 
pneu, h mais algum lugar onde eu possa encontrar um estepe sobrando?"
"E claro", disse o tenente Kotler, que havia parado de sorrir e parecia subitamente 
entediado. "Mas o que voc vai fazer com o pneu afinal?"
"Eu pensei em fazer um balano", disse Bruno. "Sabe, com um pneu e um pouco de 
corda amarrada aos galhos de uma rvore."
" claro" disse o tenente Kotler, acenando a cabea com ar de sabedoria, como se tais 
coisas fossem apenas memrias distantes agora, ainda que, conforme Gretel dissera, ele prprio 
no passasse de um adolescente. "Sim, eu mesmo fiz muitos balanos quando era criana. 
Meus amigos e eu passamos muitas tardes felizes brincando assim."
Bruno ficou estupefato ao perceber que havia algo em comum entre eles (e ainda mais 
surpreso em saber que o tenente Kotler j tivera amigos na vida). "O que me diz?", ele 
perguntou. "Ser que tem algum por a?"
O tenente Kotler olhou para ele e pareceu estar pensando na resposta, como se no 
soubesse se iria lhe dar uma resposta direta ou se tentaria irrit-lo como costumava fazer. Mas 
ento ele viu Pavel - o velho que vinha todas as tardes ajudar a descascar os legumes na 
cozinha antes de vestir o palet branco e servi-los  mesa - caminhando na direo da casa, e 
isso pareceu dar-lhe clareza quanto ao que fazer.
"Ei, voc!", gritou ele, acrescentando, ento, uma palavra que Bruno no entende. 
"Venha c, seu... " Ele disse a tal palavra novamente, e alguma coisa no tom rude com que a 
entoava fez Bruno se sentir envergonhado e desviar os olhos, no querendo tomar parte no que 
estava acontecendo.
Pavel veio na direo deles e Kotler falou-lhe com insolncia, apesar de ser jovem o 
bastante para ser seu neto. "Leve este homenzinho at o depsito atrs da casa principal. 
Enfileirados junto  parede, esto alguns pneus velhos. Ele escolher um deles, e voc o 
carregar para onde quer que ele lhe pea, entendido?"
Pavel segurou o bon nas mos diante de si e acenou com a cabea, fazendo-a abaixar 
ainda mais. "Sim, senhor", disse em voz baixa, to baixa que era como se no tivesse dito nada.
"E depois, quando voltar para a cozinha, lave essas mos antes de tocar na comida, seu 
imundo... " O tenente Kotler repetiu a palavra que j tinha usado duas outras vezes e cuspiu 
um pouco enquanto falava. Bruno procurou com o olhar a irm, que estivera maravilhada 
observando os raios do sol refletidos no cabelo do tenente Kotler, mas agora, como ele, parecia 
bastante incomodada com o que acontecera. Nenhum dos dois havia conversado com Pavel 
antes, mas sabiam que ele era um bom servente, e os bons serventes, segundo o pai, no 
nasciam em rvores.
"Pode ir, ento", disse o tenente Kotler, e Pavel voltou-se indicando o caminho at o 
depsito, seguido por Bruno, que de tempos em tempos olhava para trs na direo de sua 
irm e do jovem soldado e sentia um grande mpeto de voltar e tirar Gretel de l, apesar de ela 
ser irritante e egocntrica e desagradvel com ele na maioria das vezes. Esse era o trabalho 
dela, afinal. Era a irm dele. Mas ele detestava a idia de deix-la a ss com um homem como o 
tenente Kotler. No havia outra maneira de diz-lo: aquele sujeito era absolutamente 
desprezvel.
O acidente aconteceu algumas horas mais tarde, depois que Bruno havia encontrado o 
pneu adequado, e Pavel o arrastara at o grande carvalho que ficava do lado do quarto de 
Gretel, e depois que Bruno subiu e desceu e subiu e desceu e subiu e desceu pelo tronco para 
amarar as cordas bem apertadas ao redor dos galhos e do prprio pneu. At ento, a operao 
tinha sido um estrondoso sucesso. Ele j havia construdo um desses antes, mas naquela ocasio 
tivera a ajuda de Karl e Daniel e Martin. Desta vez ele estava fazendo tudo sozinho, o que 
tornava o trabalho certamente mais complicado. E ainda assim ele conseguiu, e em poucas 
horas estava contente, instalado no centro do pneu e balanando para a frente e para trs como 
se no tivesse uma nica preocupao na vida, embora estivesse ignorando o fato de que aquele 
era um dos balanos mais desconfortveis em que j estivera.
Bruno se deitou atravessado no centro do pneu e usou os ps para ganhar impulso a 
partir do cho. Cada vez que o balano recuava, erguia-se no ar e quase atingia o tronco da 
rvore, prximo o suficiente para usar os ps a fim de dar novo impulso, subindo cada vez mais 
alto e mais rpido a cada balanada. Esse procedimento funcionou muito bem, at que ele 
escorregou um pouco do pneu, bem na hora em que com os ps dava impulso na rvore e, 
antes que ele percebesse, seu corpo voltou-se para dentro, e Bruno caiu, com um p ainda 
dentro do pneu, enquanto aterrissava de cara contra o cho, provocando um rudo alto e surdo.
Tudo escureceu por um momento e depois retomou o foco. Ele se sentou no cho, bem 
na hora em que o pneu balanava de volta, atingindo-o na cabea, o que o fez soltar um 
gemido e sair do caminho. Quando se levantou, percebeu que o brao e a perna estavam 
ambos bastante doloridos, pois cara pesadamente sobre eles, mas no a ponto de ele pensar t-
los quebrado. Inspecionou a mo e viu que estava coberta de arranhes e, quando olhou para o 
cotovelo, viu que havia nele um belo corte. A perna era o que mais incomodava e, quando 
olhou para o joelho logo abaixo de onde terminavam as calas curtas, havia ali um enorme 
talho que parecia estar apenas esperando que ele olhasse, pois, assim que toda a ateno de 
Bruno foi focalizada no ferimento, este comeou a sangrar bastante.
"Oh, cus", disse Bruno em voz alta olhando para a ferida sem saber o que fazer a 
seguir. No precisou ficar indeciso durante muito tempo, uma vez que havia construdo o 
balano no mesmo lado da casa em que ficava a cozinha, e Pavel, o servente que o havia 
ajudado a encontrar o pneu, estivera  janela descascando os legumes e viu o acidente 
acontecer. Quando Bruno olhou para cima de novo, viu Pavel vindo rapidamente em sua 
direo e, s quando ele chegou, Bruno ficou seguro o bastante para deixar a sensao de 
embriaguez que o rondava domin-lo por completo. Ele chegou a desabar, mas desta vez no 
caiu no cho, pois Pavel o pegou no colo.
"No sei o que aconteceu", disse o menino. "No parecia ser perigoso."
"Voc estava balanando muito alto", disse Pavel numa voz baixa que imediatamente 
transmitiu a Bruno uma grande segurana. "Eu vi tudo. Achei que a qualquer momento lhe 
aconteceria um imprevisto."
"E aconteceu", disse Bruno.
"Certamente aconteceu."
Pavel carregou-o pela grama de volta a casa. Levou-o at a cozinha e o acomodou 
numa das cadeiras de madeira.
"Onde est minha me?", perguntou Bruno, procurando a primeira pessoa a quem ele 
buscava quando sofria um acidente.
"Sua me ainda no voltou, infelizmente", disse Pavel, ajoelhando-se no cho diante 
dele e examinando seu joelho. "Sou o nico que est aqui."
"O que vai acontecer comigo, ento?", perguntou Bruno, sentindo o pnico crescer 
dentro de si, uma emoo que poderia lev-lo s lgrimas. " capaz de eu sangrar at a morte."
Pavel sorriu gentilmente e balanou a cabea. "Voc no vai sangrar at a morte", disse 
o servente, puxando um banco e acomodando sobre ele a perna de Bruno. "Fique parado um 
instante. H um estojo de primeiros socorros bem ali."
Bruno observou-o se movimentar pela cozinha, procurar um estojo verde de primeiros 
socorros debaixo de uma cmoda, traz-lo e encher uma pequena tigela com gua, testando-a 
antes com a ponta dos dedos para certificar-se de que no estava fria demais.
"Terei de ir ao hospital?", perguntou Bruno.
"No, no", disse Pavel ao retomar a posio anterior, de joelhos, mergulhando um 
pano seco na tigela e passando-o delicadamente sobre o joelho de Bruno, o que o fez encolher-
se de dor, apesar de no doer tanto assim. " apenas um pequeno corte. Nem precisar de 
pontos."
Bruno franziu o cenho e mordeu os lbios nervosamente, enquanto Pavel limpava o 
sangue da ferida; depois ele pressionou contra ela outro pano, com fora, durante alguns 
minutos. Quando o retirou, com todo o cuidado, o sangramento havia estancado, e ele sacou do 
estojo de primeiros socorros um pequeno frasco que continha um lquido verde, o qual borrifou 
sobre a ferida, coisa que doeu consideravelmente e fez Bruno dizer "Ai" sucessivas vezes.
"No di tanto assim", disse Pavel numa voz gentil e delicada. "No torne as coisas 
piores, pensando que di mais do que voc realmente est sentindo."
De alguma maneira isso fez sentido para Bruno e ele resistiu ao mpeto de dizer "Ai" de 
novo. Quando Pavel terminou de aplicar o lquido verde, tirou do estojo de primeiros socorros 
uma bandagem e grudou-a sobre o corte.
"Pronto", disse ele. "Bem melhor agora, no?"
Bruno acenou com a cabea e envergonhou-se um pouco por no ter agido com tanta 
coragem quanto gostaria. "Obrigado", disse ele.
"No foi nada", disse Pavel. "Agora voc precisa ficar a sentado um pouco, antes de 
sair andando novamente, est bem? Deixe a ferida repousar. E no chegue perto daquele 
balano outra vez, pelo menos hoje."
Bruno concordou e manteve a perna estendida sobre o banquinho, enquanto Pavel foi 
at a pia lavar as mos cuidadosamente, limpando at sob as unhas com uma escova de arame, 
antes de sec-las e voltar para os legumes.
"Voc dir  mame o que aconteceu?", perguntou Bruno, que havia passado os 
ltimos minutos imaginando se seria considerado um heri, por sofrer um acidente, ou um 
vilo, por ter construdo uma armadilha mortal.
"Acho que ela perceber tudo sozinha", disse Pavel, que trouxe as cenouras at a mesa 
e sentou-se de frente para Bruno, enquanto as descascava sobre um jornal velho.
"E, acho que sim", disse Bruno. "Talvez ela ache melhor me levar ao mdico."
"Acho que no", disse Pavel em voz baixa.
"Nunca se sabe", disse Bruno, que no queria ver reduzida to facilmente a 
importncia de seu acidente. (Afinal, era a coisa mais emocionante que havia lhe acontecido 
desde que chegara l.) "Pode ser pior do que parece."
"No ", disse Pavel, que mal parecia estar escutando o que Bruno falava, as cenouras 
tomando toda a sua ateno.
"E como voc sabe?", perguntou rapidamente Bruno, irritado agora, apesar de aquele 
ser o mesmo homem que o resgatara do cho, o trouxera para casa e cuidara dele. "Voc no  
mdico."
Pavel parou de descascar as cenouras por um instante e olhou para Bruno do outro 
lado da mesa, a cabea baixa, erguendo os olhos, como se estivesse pensando no que responder. 
Ele suspirou e pareceu ponderar a questo por um longo tempo antes de dizer: "Sou, sim."
Bruno encarou-o, surpreso. Aquilo no fazia sentido para ele. "Mas voc  um 
servente", disse ele lentamente. "E voc descasca os legumes para o jantar. Como pode ser 
tambm um mdico?"
"Jovem rapaz", disse Pavel (e Bruno gostou da cortesia de ele o chamar de 'jovem 
rapaz', e no de 'homenzinho', como fazia o tenente
Kotler), "eu sou, de fato, mdico. S porque um homem olha para o cu  noite, isso no faz 
dele um astrnomo, sabia?"
Bruno no fazia idia do que Pavel queria dizer, mas havia algo no que ele dissera que 
fez o menino observ-lo atentamente pela primeira vez. Era um homem de porte pequeno, 
bastante magro, de dedos longos e traos angulosos. Era mais velho que o pai, porm mais 
novo do que o av, o que ainda lhe conferia bastante idade, e, embora Bruno jamais o tivesse 
visto antes de chegar a Haja-Vista, havia algo no rosto dele que sugeria que, no passado, Pavel 
usara barba.
No mais.
"No entendo", disse Bruno, querendo chegar ao fundo da questo. "Se voc  mdico, 
ento por que est servindo  mesa? Por que no trabalha em algum hospital?"
Pavel hesitou por um longo tempo antes de responder, durante o qual Bruno nada 
disse. Ele no sabia ao certo por qu, mas sentiu que o mais educado seria esperar at que Pavel 
estivesse pronto para responder.
"Antes de vir para c, eu praticava a medicina", disse afinal.
"Praticava?", perguntou Bruno, que no estava familiarizado como termo. "Voc no 
era bom, ento?"
Pavel sorriu. "Eu era muito bom", disse ele. "Sempre quis ser mdico, sabe? Desde 
quando era um menino pequeno. Desde que tinha a sua idade."
"Eu quero ser um explorador", disse Bruno rapidamente.
"Desejo-lhe sorte", disse Pavel.
"Obrigado."
"J descobriu alguma coisa?"
"L na casa de Berlim havia muita explorao para se fazer", relembrou Bruno. "Mas  
porque era uma casa muito grande, maior do que voc poderia imaginar, ento havia muitos 
lugares para serem explorados. Mas aqui  diferente."
"Tudo aqui  diferente", concordou Pavel.
"Quando voc chegou a Haja- Vista?", perguntou Bruno.
Pavel largou as cenouras e o descascador por um momento e pensou a respeito. "Acho 
que sempre estive aqui", disse ele afinal, em voz baixa.
"Voc cresceu aqui?"
"No", disse Pavel, balanando a cabea. "No cresci aqui." "Mas voc 
acabou de dizer que... "
Antes que pudesse prosseguiu, a voz da me fez-se ouvir do lado de fora. Assim que a 
ouviu, Pavel saltou rapidamente da cadeira e voltou para a pia com as cenouras e o 
descascador e o jornal cheio de cascas, dando as costas a Bruno, abaixando a cabea e 
emudecendo.
"Meu Deus, o que aconteceu com voc?", perguntou a me ao aparecer na cozinha, 
inclinando-se para examinar o curativo que cobria o corte de Bruno.
"Eu fiz um balano, mas ca dele", explicou Bruno. "E depois o balano me atingiu na 
cabea, e eu quase desmaiei, mas Pavel veio me ajudar, e me trouxe para casa, e limpou meus 
machucados, e fez um curativo em mim, que doeu muito, mas eu no chorei. No chorei nem 
uma lgrima, no  mesmo, Pavel?"
Pavel voltou o corpo levemente na direo deles, mas no ergueu a cabea. "A ferida 
est limpa", disse em voz baixa, sem responder  pergunta de Bruno. "No h com o que se 
preocupar."
"V para o seu quarto, Bruno", disse a me, que demonstrava claramente seu 
desagrado.
"Mas eu... "
"No discuta comigo - v para o seu quarto!", insistiu ela, e Bruno desceu da cadeira, 
jogando o peso sobre o que decidiu chamar de perna ruim, e sentiu um pouco de dor. Ele se 
voltou e saiu da cozinha, mas ainda pde ouvir a me agradecendo a Pavel, enquanto 
caminhava na direo das escadas, o que deixou Bruno feliz porque era bvio que, se no fosse 
por causa de Pavel, ele teria sangrado at a morte.
Ele ouviu uma ltima coisa antes de subir as escadas: a ltima frase que a me disse ao 
servente que afirmava ser mdico.
"Se o comandante perguntar, diremos que fui eu quem cuidou do
Bruno."
O que pareceu a Bruno uma coisa terrivelmente egosta, e uma maneira de a me levar 
o crdito por algo que no fez.
POR QUE A AV FOI EMBORA ABRUPTAMENTE
As duas pessoas de quem Bruno mais sentia saudades eram o av e a av. Eles 
moravam juntos num pequeno apartamento prximo s bancas de frutas e legumes, e, na 
poca em que Bruno se mudou para Haja-Vista, o av tinha quase setenta e trs anos, o que, 
para os padres do menino, fazia dele praticamente o homem mais velho do mundo. Certa 
tarde, Bruno calculara que, se viesse a prpria vida de novo e de novo por oito vezes, ainda 
assim seria um ano mais novo do que o av.
O av passara a vida toda cuidando de um restaurante no centro da cidade, e um de 
seus empregados era o pai do amigo de Bruno, Martin, que trabalhava como chef de cozinha . 
Embora o av no cozinhasse mais ou atendesse as mesas, ainda passava l a maior parte de 
seus dias, sentado no bar durante as tardes, conversando com os fregueses, fazendo suas 
refeies  noite e l ficando at a hora de fecha, rindo com os amigos.
A av jamais parecia velha em comparao s avs dos outros meninos. Na verdade, 
quando Bruno descobriu a idade que ela tinha -sessenta e dois -, ficou impressionado. Ela 
conhecera o av quando ainda era jovem, aps uma de suas apresentaes, e de alguma 
maneira ele a convenceu a se casarem, apesar de todos os defeitos dele. O cabelo dela era 
comprido e ruivo, surpreendentemente parecido com o da nora, e os olhos, verdes, o que ela 
atribua ao sangue irlands disperso pela famlia. Bruno sempre sabia quando as festas 
familiares atingiam o pice de animao, porque a av ficava rondando o piano at que 
algum se sentasse para tocar e pedisse a ela para cantar.
"Como ?", fazia ela, levando a mo ao peito como se a idia de cantar j lhe tirasse o 
flego. " uma cano o que esto pedindo? Ora, eu no poderia, imagine. Infelizmente, meu 
jovem, meus dias de cantoria j so coisa do passado."
"Cante! Cante!", pediam todos os convivas, e, aps a devida pausa -que podia chegar a 
dez ou doze segundos -, ela afinal cedia e se voltava para o jovem ao piano e dizia rapidamente 
numa voz bem-humorada:
"La vie en rose, mi bemol maior. E tente acompanhar as mudanas.
As festas na casa de Bruno eram sempre dominadas pela cantoria da av, que por 
alguma razo parecia coincidir com o momento em que a me saa da rea principal da festa e 
ia para a cozinha seguida por algumas de suas prprias amigas. O pai sempre ficava para 
escutar o Bruno tambm, pois no havia nada de ele gostasse mais do que escutar a av se 
entregar  msica e libertar todo o poder de sua voz, arrancando os aplausos dos


convidados ao final. Alm disso, La vie en rose lhe dava arrepios e fazia os cabelos da nuca 
ficarem em p.
A av cultivava a idia de que um dia Bruno ou Gretel pudessem seguir seus passos 
sobre o palco, e, em todo Natal e em toda festa de aniversrio, ela inventava uma pequena pea 
para ser apresentada pelos trs  me, ao pai e ao av. Ela prpria escrevia as peas e, conforme 
a opinio de Bruno, sempre guardava para si as melhores falas, embora ele no se importasse 
muito com isso. Em geral havia msica em alguma parte - "E uma cano o que esto 
pedindo?", perguntava ela primeiro - e uma oportunidade para Bruno fazer um truque de 
mgica e para Gretel danar. A pea costumava terminar com Bruno recitando um longo 
poema de um dos Grandes Poetas, palavras que o menino achava muito difceis de 
compreender, mas que de alguma maneira soavam mais e mais bonitas  medida que ele as lia.
No entanto, essa no era a melhor parte dessas pequenas funes. A melhor parte era 
que a av preparava um figurino para Bruno e Gretel. No importava qual fosse o papel, no 
importavam quantas falas ele tivesse, se pouco numerosas em relao s da av e da irm, 
Bruno sempre acabava vestido de prncipe, ou de xeque rabe, ou at mesmo, numa ocasio, 
de gladiador romano. Havia coroas e, quando no havia coroas, havia lanas. E quando no 
havia lanas, havia chicotes e turbantes. Ningum sabia qual seria a prxima inveno dela, 
mas, uma semana antes do Natal, Bruno e Gretel eram convocados at a sua casa diariamente 
para ensaiar.
 claro que a ltima pea que eles encenaram havia terminado desastrosamente e 
Bruno se lembrava com tristeza daquela noite, embora ao soubesse ao certo o que havia 
causado a discusso.
Cerca de uma semana antes, a casa passara por um grande frenesi, que tinha algo a 
ver com o fato de que o pai deveria agora ser chamado de "comandante" por Maria, Lars, o 
cozinheiro e o mordomo, bem como por todos os soldados que entravam e saam de l e 
usavam a casa - ao que parecia a Bruno - como se fossem os donos do lugar, e no ele. A 
animao j durava semanas. Primeiro vieram o Fria e a linda mulher loira para o jantar, o 
que causara uma verdadeira paralisao na casa, e, depois, essa histria de chamar o pai de 
"comandante". A me dissera a Bruno para felicitar o pai, o que ele havia feito, embora, se 
Bruno fosse honesto consigo mesmo (o que ele sempre tentava ser), no estivesse bem certo 
quanto ao motivo da felicitao.
No dia do Natal, o pai vestiu o uniforme novo, todo engomado e passado, o mesmo 
que ele vestia todos os dias agora, e toda a famlia aplaudiu quando ele apareceu assim pela 
primeira vez. Era mesmo algo especial. Comparado aos outros soldados que entravam e saam 
da casa, o pai se destacava, e eles pareciam respeit-lo ainda mais. A me foi at ele, beijou-lhe 
a bochecha e passou a mo pelo seu peito, comentando como era vistoso o tecido. Bruno ficou 
particularmente impressionado com todas as condecoraes no uniforme e lhe foi permitido 
usar o quepe por um curto perodo, desde que suas mos estivessem limpas ao toc-lo.
O av ficou muito orgulhoso ao ver o filho de uniforme, mas a av parecia ser a nica 
que no estava impressionada. Depois de servido o jantar, e depois que ela e Gretel e Bruno 
tinham apresentado o seu mais novo espetculo, ela se sentou, triste, numa das poltronas, e 
olhou para o filho, balanando a cabea como se ele fosse uma grande decepo para ela.
"Eu me pergunto - ser que foi nisso que eu errei com voc, Ralf?", disse ela. "Imagino 
se todas aquelas performances que eu exigi de voc o levaram a isso. Fantasiar-se de fantoche."
"Ora, mame", disse o pai num tom de voz extremamente tole rante. "A senhora sabe 
que agora no  o momento certo."
"Voc fica a no seu uniforme", prosseguiu ela, "como se isso o tornasse algum 
especial. Nem se importa com o seu verdadeiro significado. O que ele representa."
"Nathalie, ns j conversamos sobre isso", disse o av, embora todos soubessem que 
quando a av tinha algo a dizer, ela sempre dava um jeito de diz-lo, no importava quo 
impopulares fossem suas palavras.
"Voc conversou, Mathias", disse a av. "Eu era simplesmente a parede a quem voc 
dirigia suas palavras. Como sempre."
"Estamos numa festa, mame", disse o pai, suspirando. "E  Natal. No vamos 
estragar as coisas."
"Eu me lembro de quando comeou a Grande Guerra", disse o av orgulhoso, olhando 
para o fogo e balanando a cabea. "Eu me lembro de quando voc voltou para casa dizendo 
que havia se alistado e eu tive certeza de que lhes aconteceria algum mal."
"O que aconteceu a ele foi um grande mal, Mathias", insistiu a av. "Olhe para ele e 
comprove."
"E olhe para voc agora", prosseguiu o av, ignorando-a. "Fico to orgulhoso de v-lo 
promovido a uma posio de tamanho destaque. Ajudando seu pas a recuperar o orgulho 
depois de tanto sofrimento que nos foi imposto. Os castigos muito acima e alm... "
"Cus, escute o que est dizendo!", gritou a av. "No sei qual dos dois  mais tolo."
"Mas, Nathalie", disse a me tentando acalmar um pouco os nimos, "no acha que 
Ralf ficou lindo no uniforme novo?"
"Se ficou lindo?", perguntou a av, inclinando-se para a frente e encarando a nora 
como se esta tivesse perdido o juzo. "Lindo, voc disse? Menina tola!  isso que considera de 
importncia neste mundo? Ficar linda?"
"Eu fico lindo na minha fantasia de animador de circo?", perguntou Bruno, que 
naquela noite estava fantasiado assim para a festa - a roupa vermelha e preta de um animador 
de circo - e ficara muito orgulhoso de si mesmo ao ver-se vestido. Assim que falou, arrependeu-
se, pois todos os adultos voltaram os olhares para ele e Gretel, como se tivessem esquecido de 
que os dois estavam l.
"Crianas, l para cima", disse a me rapidamente. "Vo para os seus quartos."
"Mas ns no queremos ir", protestou Gretel. "No podemos ficar brincando aqui 
embaixo?"
"No, crianas", insistiu ela. "Vo para o andar de cima e fechem a porta ao sarem."
"E s isso que interessa a vocs soldados, afinal", disse a av, ignorando completamente 
as crianas. "Ficar bonitos nos uniformes alinhados. Fantasiando-se para fazer as coisas 
terrveis, terrveis que vocs fazem. Eu me envergonho. Mas culpo a mim mesma, Ralf, no a 
voc."
"Crianas, subam j!", disse a me, batendo palma, e desta vez os dois no tiveram 
escolha seno obedecer.
Mas, ao invs de subir direto para os quartos, eles fecharam a porta e sentaram-se na 
escada no andar de cima, tentando escutar o que os adultos diziam. Entretanto, as vozes da 
me e do pai estavam abafadas e difceis de entender, a do av nem se ouvia, e a da av 
arrastava-se, surpreendentemente. Afinal, aps alguns minutos, a porta se abriu de um s 
golpe, e Gretel e Bruno correram escada acima, enquanto a av pegava o casaco que deixara 
pendurado na entrada.
"E uma vergonha!", gritou ela antes de sair. "Envergonha -me que um filho meu seja... 
"
"Um patriota", gritou o pai, que talvez jamais tivesse aprendido aquela regra sobre no 
interromper sua me.
"Que belo patriota!", gritou ela. "As pessoas que voc recebe nesta casa para o jantar. 
Fico com nojo. E v-lo nesse uniforme me d vontade de arrancar os olhos da cara!", 
acrescentou antes de sair abruptamente e bater a porta atrs de si.
Bruno vira a av poucas vezes desde ento e no tivera chance de se despedir dela 
antes de vir para Haja-Vista, mas sentia muito a sua falta e decidiu escrever-lhe uma carta.
Naquele dia ele se sentou, munido de papel e tinta, e contou a ela como estava infeliz l 
e o quanto queria estar de volta a Berlim. Contou a ela sobre a casa, e o jardim, e o banco com 
a placa, e a cerca alta, e os postes telegrficos de madeira, e os rolos de arame farpado, e o cho 
duro que se estendia alm deles, e as cabanas, e os pequenos prdios, e as colunas de fumaa, e 
os soldados, mas contou a ela principalmente sobre as pessoas que moravam l, vestindo seus 
pijamas listrados e seus bons de pano, e ento contou a ela o quanto sentia saudades e 
concluiu a carta com "seu neto querido, Bruno".
BRUNO SE LEMBRA DE COMO GOSTAVA DE EXPLORAR
Durante um bom tempo nada mudou em Haja-Vista.
Bruno ainda tinha que aturar a antipatia de Gretel, que no perdia a oportunidade de 
descontar nele seu mau-humor bastante freqente, j que ela era um Caso Perdido.
E ele ainda queria voltar para casa em Berlim, embora as memrias daquele lugar 
estivessem comeando a se desvanecer e, apesar de suas melhores intenes, j fazia semanas 
que ele nem sequer pensava em mandar uma carta para a av ou para o av, e menos ainda 
em sentar-se para escrever.
Os soldados continuavam indo e vindo todos os dias da semana, fazendo reunies no 
escritrio do pai, no qual era Proibido Entrar em Todos os Momentos Sem Exceo. O tenente 
Kotler continuava andando por ali de botas pretas, como se no houvesse no mundo pessoa 
mais importante do que ele e, quando no estava com o pai, ficava na entrada de carros 
conversando com Gretel, enquanto esta ria histrica e enrolava o cabelo em torno dos dedos, ou 
ento ficava sussurrando com a me nos cmodos da casa.
Os criados continuaram lavando e varrendo e cozinhando e limpando e servindo e 
tirando a mesa, sempre mantendo a boca fechada, a no ser quando algum se dirigia a eles. 
Maria continuava, na maior parte do tempo, arrumando e ajeitando tudo e garantindo que 
cada pea de roupa de Bruno que no estivesse em uso fosse guardada bem dobrada no 
armrio. E Pavel continuava indo  casa todas as tardes para descascar as batatas e cenouras e 
depois punha o palet branco e servia a mesa do jantar. (De tempos em tempos Bruno o 
pegava olhando para seu joelho, onde uma pequena cicatriz do acidente com o balano se 
destacava, mas fora isso nunca conversavam.)
Mas ento as coisas mudaram. O pai decidiu que era hora de as crianas retomarem os 
estudos, e, embora Bruno achasse ridculo uma escola onde havia apenas dois alunos para 
ensinar, tanto a me como o pai concordaram em chamar um professor particular para vir a 
casa todos os dias e preencher suas manhs e tardes com aulas. Algumas manhs mais tarde, 
um homem chamado herr Liszt chegou pelo acesso  estrada no seu calhambeque, e era hora 
de voltar s aulas. Herr Liszt era um mistrio para Bruno. Ainda que fosse bastante amigvel a 
maior parte do tempo, jamais erguendo a mo para ele como fazia o antigo professor em 
Berlim, alguma coisa em seus olhos fazia o menino pensar que havia dentro dele uma raiva 
pronta para escapar.


Herr Liszt gostava especialmente de histria e geografia, enquanto Bruno preferia 
literatura e arte.
"Essas coisas so inteis", insistia o professor. "O bom entendimento das cincias sociais 
 muito mais importante na nossa poca."
"A vov sempre nos deixa participar da encenao de peas teatrais em Berlim", Bruno 
apontou.
"Sua av, no entanto, no era sua professora, certo?", perguntou herr Liszt. "Ela era 
sua av. E aqui eu sou o seu professor, portanto voc estudar as coisas que eu considero 
importantes e no apenas os assuntos que so do seu interesse."
"Mas os livros no so importantes?", perguntou Bruno.
"Livros que tratam dos assuntos importantes do mundo,  claro", explicou herr Liszt. 
"Mas no os livros de histrias. No os livros que falam de coisas que jamais aconteceram. 
Quanto voc sabe de sua prpria histria, jovem rapaz?" (Para seu crdito, herr Liszt referia-se 
a Bruno como "jovem rapaz", assim como Pavel e ao contrrio do tenente Kotler.)
"Bem, eu sei que nasci no dia 15 de abril de 1934...", disse Bruno.
"No a sua histria", interrompeu Herr Liszt. "No estou falando de sua histria 
pessoal. Quero dizer a histria de quem voc , de onde vem. A herana de sua famlia. Sua 
terra natal."
Bruno franziu o cenho e parou para pensar. Ele no sabia ao certo se o pai possua 
alguma terra, pois, embora a casa de Berlim fosse grande e confortvel, no havia muito espao 
no quintal ao redor dela. E ele j tinha idade o bastante para saber que Haja-Vista no 
pertencia a eles, apesar de toda a rea do lugar. "No sei muito a respeito", ele admitiu afinal. 
"Mas sei bastante sobre a Idade Mdia. Gosto de histrias sobre cavaleiros e aventuras de 
explorao."
Herr Liszt emitiu um silvo por entre os dentes e balanou a cabea, irritado. "Ento  
exatamente isso que eu vim corrigir", disse ele numa voz sinistra. "Vim tirar da sua cabea esses 
livros infantis e ensinar-lhe mais a respeito do lugar de onde voc vem. Sobre os terrveis crimes 
cometidos contra voc."
Bruno concordou e sentiu-se bastante satisfeito, porque presumiu que finalmente lhe 
seria dada alguma explicao quanto ao porqu de haverem sido todos forados a deixar sua 
casa confortvel e ir para aquele lugar terrvel, o que provavelmente fora o maior crime jamais 
cometido contra ele durante sua curta vida.
Alguns dias mais tarde, sentado sozinho em seu quarto, Bruno comeou a pensar em 
todas as coisas que ele gostava de fazer em casa e que ainda no tivera ocasio de fazer desde 
que chegara a Haja-Vista. A maioria delas no era sequer possvel de ser feita, j que no havia 
amigos com quem brincar, e no se podia pensar que Gretel se dignaria a brincar com ele. Mas 
havia algo que ele podia fazer sozinho e que fazia o tempo todo l em Berlim: explorao.
"Quando eu era criana", disse Bruno para si mesmo, "costumava gostar de explorar. E 
isso ainda em Berlim, onde eu conhecia todos os lugares e sabia encontrar o que quisesse, 
mesmo vendado. Nunca explorei este lugar. Talvez seja hora de comear."
E ento, antes que pudesse mudar de idia, Bruno saltou da cama e investigou o 
guarda-roupa procurando pelo casaco e por um par de botas - o tipo de roupa que ele 
imaginava usar um verdadeiro explorador - e preparou-se para sair de casa.
No havia o menor sentido em explorar dentro de casa. Afinal, aquela casa no era 
como a de Berlim, que, como ele podia se lembrar, tinha centenas de esconderijos e cantos 
secretos e estranhos quartinhos, para no falar nos cinco andares, contando o poro e o 
pequeno quarto no topo onde ficava a janela atravs da qual ele s conseguia olhar se ficasse na 
ponta dos ps. No, aquela casa era pssima para explorao. Se fosse explorar, tinha de ser do 
lado de fora.
J fazia meses que Bruno olhava pela janela do quarto para o jardim e para o banco 
com a placa, para a cerca alta e os postes telegrficos de madeira e todas as outras coisas sobre 
as quais ele havia contado para a av em sua mais recente carta. E apesar de ter observado 
tantas vezes as pessoas, todas aquelas pessoas diferentes nos seus pijamas listrados, jamais lhe 
ocorrera perguntar-se do que se tratava, afinal.
Era como se fosse completamente outra cidade, todas aquelas pessoas morando e 
trabalhando bem ao lado da casa em que ele vivia. E ser que eram mesmo to diferentes? 
Todos no campo usavam as mesmas roupas, aqueles pijamas com os bons de pano tambm 
listrados; e todos que passavam pela sua casa (exceo feita  me, Gretel e a ele prprio) 
vestiam uniformes de variadas qualidades e graus de condecorao e quepes e capacetes com 
grandes braadeiras vermelhas e negras e traziam armas e estavam sempre com o semblante 
terrivelmente severo, como se tudo aquilo fosse muito importante e ningum pudesse pensar 
diferente.
Qual era a diferena, exatamente?, ele se perguntou. E quem decidia quem usava os 
pijamas e quem usava os uniformes?
 claro que, s vezes, os dois grupos se misturavam. Ele j vira muitas vezes as pessoas 
do seu lado da cerca do outro lado da cerca e, ao observ-las, ficava claro que os uniformizados 
estavam no comando. As pessoas de pijamas ficavam de prontido sempre que os soldados se 
aproximava e s vezes caam no cho e s vezes nem sequer se levantavam, sendo necessrio 
carreg-las para longe.
 curioso que eu jamais tenha me perguntado a respeito daquelas pessoas, pensou 
Bruno. E  curioso pensar que os soldados vo para o outro lado tantas vezes - e ele vira at 
mesmo o pai ir ao outro lado em diversas ocasies -, mas as pessoas de pijama jamais eram 
convidadas para vir at a casa.
s vezes - no era freqente, mas s vezes - alguns dos soldados ficavam para o jantar, 
e nessas ocasies muitas bebidas espumantes eram servidas, e no instante em que Gretel e 
Bruno punham o ltimo bocado de comida na boca, eram mandados para seus quartos, e 
ento havia um grande barulho no andar de baixo e uma cantoria horrvel tambm. A me e o 
pai obviamente apreciavam a companhia dos soldados - Bruno era capaz de perceber. Mas eles 
jamais, nem por uma vez, haviam convidado alguma das pessoas de pijamas para o jantar.
Ao sair de casa, Bruno deu a volta e olhou para a janela de seu quarto, que, de l de 
baixo, no parecia to alta assim. Seria possvel saltar dela sem se machucar muito, ele 
concluiu, embora no conseguisse imaginar em que circunstncias seria capaz de tentar algo 
to idiota. Talvez se a casa estivesse em chamas e ele estivesse preso do lado de dentro, mas 
mesmo assim parecia arriscado.
Ele olhou para a direita o mais longe que pde, e a cerca alta parecia seguir at o 
horizonte na luz do sol, perdendo-se na distncia, o que o deixou feliz, pois isto significava que 
ele no sabia o que havia alm dela e teria de andar bastante para descobrir e era esse o esprito 
da explorao, afinal de contas. (Havia algo de bom nos ensinamentos de herr Liszt durante as 
aulas de histria: ele falava sobre homens como Cristvo Colombo e Amrico Vespcio; 
homens com histrias to cheias de aventuras e vidas to interessantes que apenas 
confirmavam o desejo de Bruno de se tornar como eles quando crescesse.)
Antes de sair naquela direo, entretanto, havia uma ltima coisa para investigar: o 
banco. Durante todos aqueles meses ele o observara na distncia, reparando na placa e 
chamando-o de "o banco com a placa", mas ainda no fazia idia do que estava escrito nela. 
Olhando para a esquerda e para a direita para certificar-se de que no vinha ningum, correu 
at o banco e estreitou os olhos, enquanto lia as palavras. Era apenas uma pequena placa de 
bronze, e Bruno leu em voz baixa o que estava escrito:
"Entregue por ocasio da inaugurao do...", Ele hesitou. "Campo de Haja-Vista", 
prosseguiu, tropeando no nome como de costume. "Junho de 1940."
O menino estendeu o brao e tocou a placa por um instante, e o bronze era muito frio; 
ento ele recolheu os dedos antes de respirar fundo e comear sua jornada. A nica coisa em 
que Bruno procurava no pensar era que tanto a me como o pai j haviam lhe dito em 
incontveis ocasies que ele estava proibido de caminhar naquela direo, proibido de chegar 
perto da cerca ou do campo, e principalmente que a explorao estava proibida em Haja-Vista. 
Sem Excees.
O PONTO QUE VIROU UMA MANCHA QUE BIROU UM VULTO
QUE VIROU UMA PESSOA QUE VIROU UM MENINO
A caminhada ao longo da cerca demorou muito mais do que Bruno havia imaginado 
inicialmente; parecia se estender por quilmetros e quilmetros. Ele andou e andou, e, quando 
olhou para trs, a casa em que estava morando parecia cada vez menor at sumir de vista 
completamente. Durante todo aquele tempo ele no viu ningum perto da cerca; nem viu 
portas atravs das quais pudesse entrar, e comeou a ficar aflito, pensando que sua explorao 
acabaria sendo infrutfera. Na verdade, embora a cerca continuasse a perder de vista, as 
cabanas e os prdios e as colunas de fumaa estavam desaparecendo na distncia atrs dele, e a 
cerca parecia separ-lo de nada alm de um grande espao vazio.
Depois de andar durante quase uma hora e j sentido alguma fome, ele pensou que 
talvez bastasse de explorao para um dia e que seria boa idia dar meia-volta. Entretanto, bem 
nesse instante, um pequeno ponto apareceu na distncia, e ele estreitou os olhos para tentar 
descobrir o que era. Bruno lembrou-se de um livro que lera certa vez, contando a histria de 
um homem que se perdia no deserto e, porque ficava sem comer e sem beber durante muitos 
dias, comeava a imaginar maravilhosos restaurantes e nascentes de gua magnficas, mas 
quando tentava comer ou beber delas, as miragens desapareciam no ar, apenas punhados de 
areia. Bruno se perguntou se era isso que estava acontecendo com ele agora.
Porm, enquanto pensava, seus ps o levaram, passo a passo, cada vez mais perto do 
ponto na distncia, que nesse meio-tempo havia se tornado uma mancha, dando, dentro em 
pouco, todos os sinais de se transformar numa forma. E logo depois disso a forma se tornou um 
vulto. E ento, conforme Bruno chegava ainda mais perto, ele viu que no era nem ponto nem 
mancha nem forma nem vulto, e sim uma pessoa.
Na verdade era um menino.
Bruno j havia lido muitos livros sobre exploradores, o suficiente para saber que nunca 
se sabia o que se poderia encontrar. Na maioria das vezes eles encontravam alguma coisa 
interessantes que estava l, cuidando da prpria vida, esperando para ser descoberta (como a 
Amrica). Outras vezes descobriam algo que deveriam deixar em paz (como um rato morto no 
fundo do armrio).
O menino pertencia  primeira categoria. Ele estava l, cuidando da prpria vida, 
esperando para ser descoberto.
Bruno diminuiu o ritmo quando viu o ponto que virou uma mancha que virou um 
vulto que virou uma pessoa que virou um menino. Embora


houvesse uma cerca separando-os, ele sabia que a precauo em relao aos desconhecidos 
nunca era demais e era melhor abord-los com cuidado. Ento ele continuou a andar, e logo 
estavam um de frente para o outro.
"Ol", disse Bruno.
"Ol", disse o menino.
O garoto era menor do que Bruno e estava sentado no cho com uma expresso de 
desamparo. Ele vestia o mesmo pijama listrado que todas as outras pessoas daquele lado da 
cerca, e um bon listrado de pano. No tinha sapatos ou meias, e os ps estavam um pouco 
sujos. No brao ele trazia uma braadeira com uma estrela desenhada.
Quando Bruno se aproximou do menino pela primeira vez, ele estava sentado no cho 
de pernas cruzadas, olhando para a poeira debaixo de si. Entretanto, aps um momento, ele 
olhou para cima e Bruno pde ver o seu rosto. Era um rosto bastante estranho. A pele era quase 
cinza, mas diferente de outras tonalidades de cinza que Bruno j havia visto. Os olhos eram 
bem grandes, da cor de balas de caramelo; os brancos eram muito brancos, e, quando o 
menino olhou para Bruno, tudo o que este viu foi um par de enormes olhos tristes a encar-lo.
Bruno teve certeza de jamais ter visto um menino to triste e to magro em toda a sua 
vida, mas decidiu que seria melhor conversar com ele.
"Estou explorando", disse ele.
"Ah, ?", disse o pequeno menino.
"Sim. J faz quase duas horas."
No era exatamente verdade. Bruno estivera explorando fazia pouco mais de uma 
hora, no entanto achou que exagerar um pouquinho no seria algo to terrvel de se fazer. No 
era o mesmo que mentir e fazia-o parecer mais aventureiro do que era de fato.
"Descobriu alguma coisa?", perguntou o menino.
"Quase nada."
"Nada mesmo?"
"Bem, descobri voc", disse Bruno aps um instante.
Ele olhou para o menino e pensou em perguntar por que ele estava to triste, porm 
hesitou, achando que poderia ser falta de educao. Bruno sabia que s vezes, quando a pessoa 
est triste, no gosta de falar a respeito; s vezes acaba contando do que se trata por conta 
prpria e s vezes no pra de falar nisso durante meses, mas naquela ocasio ele pensou que 
seria melhor esperar antes de dizer qualquer coisa. Havia descoberto algo durante sua 
explorao, e agora que estava finalmente conversando com uma das pessoas do outro lado da 
cerca pareceu ser uma boa idia aproveitar ao mximo a oportunidade.
Sentou-se no cho do seu lado da cerca e cruzou as pernas como o menino menor e 
desejou ter trazido consigo um pedao de chocolate, ou quem sabe um bolo, pra que pudessem 
dividir.
"Eu moro na casa que fica deste lado da cerca", disse Bruno.
"Ah, ? Eu vi a casa uma vez, a certa distncia, mas no vi voc."
"Meu quarto fica no primeiro andar", disse Bruno. "De l eu enxergo por cima da 
cerca. Meu nome  Bruno, alis."
"Eu sou Shmuel", disse o menino menor.
Bruno contraiu o rosto, achando que havia escutado mal o que o garoto dissera. "Como 
 mesmo o seu nome?", perguntou ele.
"Shmuel", disse o garoto, como se fosse a coisa mais natural do mundo. "Como  
mesmo o seu nome?"
"Bruno", disse Bruno.
"Nunca havia escutado esse nome antes", disse Shmuel.
"E eu nunca havia escutado o seu", disse Bruno. "Shmuel." Ele ficou pensativo. 
"Shmuel", repetiu. "Gosto de como soa o seu nome quando eu o digo. Parece o som do vento 
soprando."
"Bruno", disse Shmuel, acenando com a cabea alegremente. "E, acho que gosto do seu 
nome tambm. Parece algum esfregando os braos para se aquecer."
"Nunca conhecei algum chamado Shmuel antes", disse Bruno.
"H dzias de meninos chamados Shmuel deste lado da cerca", disse o garoto. 
"Provavelmente centenas. Queria ter um nome s meu."
"Nunca conheci ningum chamado Bruno", disse Bruno. "Alm de mim mesmo,  
claro. Acho que devo ser o nico no mundo."
"Sorte sua", disse Shmuel.
"Deve ser. Quantos anos voc tem?", perguntou Bruno.
Shmuel pensou a respeito e olhou para os dedos, que se agitavam no ar, como se ele 
estivesse tentando calcular. "Tenho nove anos", disse o menino. "Eu nasci no dia 15 de abril de 
1934."
Bruno encarou-o, surpreso. "O que voc disse?", perguntou ele.
"Disse que nasci no dia 15 de abril de 1934."
Os olhos de Bruno se arregalaram e a boca fez o formato de um O. "No posso 
acreditar", disse ele.
"Por que no?", perguntou Shmuel.
"No", disse Bruno, sacudindo a cabea rapidamente. "No quis dizer que no acredito 
em voc. Eu fiquei surpreso, s isso. Porque o meu aniversrio tambm  no dia 15 de abril. E eu 
tambm nasci em 1934. Nascemos no mesmo dia."
Shmuel pensou mais um pouco. "Ento voc tambm tem nove anos", disse ele.
"Sim. No  estranho?"
"Muito estranho", disse Shmuel. "Pois pode haver dzias de menino s chamados 
Shmuel deste lado da cerca, mas acho que nunca conheci ningum que fizesse aniversrio no 
mesmo dia que eu."
"Somos como gmeos", disse Bruno.
"E, um pouco", concordou Shmuel.
Bruno sentiu-se muito feliz de repente. Na sua cabea apareceu uma imagem de Karl e 
Daniel e Martin, seus trs melhores amigos, e ele se lembrou de como costumavam se divertir 
juntos em Berlim e percebeu como estivera solitrio em Haja-Vista.
"Voc tem muitos amigos?", perguntou Bruno, inclinando a cabea um pouco para o 
lado, enquanto esperava pela resposta.
"Ah, sim", disse Shmuel. "Bem, mais ou menos."
Bruno franziu o cenho. Ele esperava que Shmuel dissesse que no, o que apontaria 
outro trao em comum entre eles. "Amigos prximos?", ele perguntou.
"Bem, no so muito prximos", disse Shmuel. "Mas deste lado da cerca h muitos de 
ns - meninos da nossa idade, quer dizer. No entanto, brigamos a maior parte do tempo.  por 
isso que venho aqui. Para ficar sozinho."
s
"E to injusto", disse Bruno. "No entendo por que tenho que ficar encalhado do lado 
de c da cerca, onde no h ningum para conversar nem para brincar, e voc fica com suas 
dzias de amigos e provavelmente brinca durante horas e horas todo o dia Terei que conversar 
com eu pai a respeito disso."
"De onde voc veio?", perguntou Shmuel, estreitando os olhos e olhando para Bruno 
com curiosidade.
"Berlim." "Onde fica?"
Bruno abriu a boca para responder, mas percebeu que no sabia ao certo a resposta. 
"Na Alemanha,  claro", disse ele. "Voc no  da Alemanha?"
"No, sou da Polnia", disse Shmuel.
Bruno franziu o cenho. "Ento por que voc fala alemo?", perguntou
ele.
"Porque voc disse ol em alemo. Ento eu respondi em alemo. Sabe falar polons?"
"No", disse Bruno, rindo nervosamente. "No conheo ningum que saiba falar duas 
lnguas. Que dir algum da nossa idade."
"Minha me  professora na escola e me ensinou alemo", explicou Shmuel. "Ela 
tambm fala francs. E italiano. E ingls. Ela  muito inteligente.
Eu ainda no falo francs nem italiano, mas ela disse que um dia me ensinar a falar ingls, 
porque posso precisar."
"Polnia", disse Bruno, pensativo, medindo a palavra na lngua. "No  to boa quanto 
a Alemanha, ?"
Shmuel franziu o cenho. "Por que no?", perguntou ele.
"Bem, porque a Alemanha  o maior de todos os pases", respondeu Bruno, lembrando-
se de algo que ouvira o pai comentar com o av em certo nmero de ocasies. "Somos 
superiores."
Shmuel encarou-o sem dizer nada, e Bruno sentiu um forte desejo de mudar de 
assunto, pois, enquanto dizia aquelas palavras, havia algo a respeito delas que no soava 
correto, e a ltima coisa que queria era que Shmuel pensasse que ele estava sendo mal-educado.
"Afinal onde fica a Polnia?", ele perguntou depois de alguns instantes em silncio.
"Bem, fica na Europa", disse Shmuel.
Bruno tentou se lembrar dos pases a respeito dos quais herr Liszt havia falado durante 
a ltima aula de geografia. "J ouviu falar na Dinamarca?", ele perguntou.
"No", disse Shmuel.
"Acho que a Polnia fica na Dinamarca", disse Bruno, cada vez mais confuso, embora 
estivesse tentando parecer esperto. "Porque a Dinamarca fica a muitos quilmetros de 
distncia", repetiu ele, para confirmar o que dizia.
Shmuel encarou-o por um momento e abriu e fechou a boca duas vezes, como se 
estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras. "Mas aqui  a Polnia", ele disse afinal.
"Ah, ?", perguntou Bruno.
"E sim. E a Dinamarca fica bem longe, tanto da Polnia como da Alemanha."
Bruno franziu o cenho. Ele j ouvira falar de todos aqueles lugares, mas sempre achava 
difcil organiz-los dentro da cabea. "Bem, est certo", disse. "Mas  tudo relativo, no? A 
distncia, quero dizer." Ele queria mudar logo de assunto, porque comeava a achar que estava 
completamente enganado e fez uma promessa interior de prestar mais ateno nas futuras 
aulas de geografia.
"Nunca estive em Berlim", disse Shmuel.
"E eu acho que nunca tinha estado na Polnia antes de vir para c", disse Bruno, o que 
era verdade. "Quer dizer, se aqui for mesmo a Polnia."
"Tenho certeza que ", disse Shmuel em voz baixa. "Embora no seja a melhor parte do pas." 
"No mesmo."
"O lugar de onde eu venho  bem mais agradvel."
"Certamente no  to agradvel quanto Berlim", disse Bruno. "Em Berlim ns 
tnhamos uma casa enorme, com cinco andares contando o poro e o quartinho de cima com a 
janela. E havia lindas ruas e lojas e bancas de frutas e legumes e um grande nmero de cafs. 
Mas, se algum dia voc for para l, eu no recomendaria andar pelo centro da cidade durante 
as tardes de sbado, porque h muita gente e voc ser empurrado de poste em poste. E era 
muito melhor antes de as coisas mudarem."
"O que voc quer dizer?", perguntou Shmuel.
"Bem, l costumava ser um lugar bastante calmo", explicou Bruno, que no gostava de 
falar sobre o quanto as coisas tinham mudado. "E eu podia ler na cama  noite. Mas agora h 
muito barulho,  assustador, e temos de apagar todas as luzes quando comea a escurecer."
"O lugar de onde eu venho  muito mais gostoso que Berlim", disse Shmuel, que nunca 
estivera em Berlim. "Todos so amigveis e tem muita gente na nossa famlia e a comida  
muito mais gostosa."
"Bem, temos que concordar em discordar", disse Bruno, que no queria brigar com seu 
novo amigo.
"E verdade", disse Shmuel.
"Gosta de explorar?", perguntou Bruno um instante depois. "Nunca 
explorei, na verdade", admitiu Shmuel.
"Quando crescer, serei um explorador", disse Bruno, acenando rapidamente com a 
cabea. "Por enquanto no posso fazer muito mais do que ler a respeito dos exploradores, mas 
ao menos isso significa que, quando eu for um deles, no cometerei os mesmo erros que eles 
cometeram."
Shumel franziu o cenho. "Que tipos de erros?", ele perguntou.
"Ah, erros incontveis", explicou Bruno. "O problema da explorao  que voc precisa 
saber se aquilo que encontrou valeu a pena se encontrado. Algumas coisas esto l, cuidando 
da prpria vida, esperando para serem descobertas. Como a Amrica. Outras coisas  melhor 
que deixemos em paz. Como um rato morto no fundo do armrio."
"Acho que perteno  primeira categoria", disse Shmuel.
"Sim", respondeu Bruno. "Eu tambm acho. Posso perguntar uma coisa?", acrescentou 
ele aps um momento.
"Sim", disse Shmuel.
Bruno pensou no que ia dizer. Queria formular bem a questo. "Por que h tantas pessoas do 
seu lado da cerca?", perguntou ele. "E o que vocs esto fazendo a?
O FRIA
Alguns meses antes, logo depois de ter recebido o novo uniforme, que significava que 
todos deveriam cham-lo de "comandante", e pouco antes de Bruno ter chegado em casa e 
encontrado Maria arrumando suas coisas, o pai entrou em casa certa noite mostrando grande 
animao, o que era muito incomum no caso dele, e marchou at a sala de estar onde a me, 
Bruno e Gretel estavam sentados lendo seus livros.
"Quinta  noite", ele anunciou. "Se tivermos algum plano para quinta  noite,  
necessrio que o cancelemos."
"Voc pode mudar seus planos se quiser", disse a me, "mas eu j combinei de ir ao 
teatro com... "
"O Fria tem um assunto que quer discutir comigo", disse o pai, a quem era permitido 
interromper a me, embora mais ningum tivesse esse privilgio. "Acabo de receber um 
telefonema esta tarde. O nico horrio possvel para ele  na quinta  noite, e ele se convidou 
para o jantar."
Os olhos da me se arregalaram e sua boca fez o formato de um O. Bruno olhou para 
ela e se perguntou se era assim que ele ficava quando era surpreendido por alguma coisa.
"Voc no pode estar falando srio", disse a me, empalidecendo um pouco. "Ele vem 
para c? Para a nossa casa?"
O pai confirmou com a cabea. "As sete horas", ele disse. "Ento  melhor pensarmos 
em algo muito especial para o jantar."
"Oh, cus", disse a me, seus olhos indo de l para c com rapidez, enquanto ela 
pensava em todas as coisas que precisavam ser feitas.
"Quem  o Fria?", perguntou Bruno.
"Voc est pronunciando errado", disse o pai, pronunciando corretamente o nome para 
ele.
"O Fria", disse Bruno novamente, tentando acertar, mas errando outra vez.
"No", disse o pai, "o... Ora, esquea!"
"Bem, quem  ele afinal?", perguntou Bruno de novo.
O pai olhou para ele estupefato. "Voc sabe muito bem quem  o Fria", disse ele.
"No sei", disse Bruno.
"Ele manda no pas, idiota", disse Gretel, exibindo-se, conforme a tendncia das irms. 
(Eram coisas como essa que a tornavam um tamanho Caso Perdido!) "Voc no l os jornais?"
"No chama seu irmo de idiota, por favor", disse a me.
"Posso cham-lo de estpido?"


"Prefiro que no."
Gretel sentou-se desapontada, mas mostrou a lngua para Bruno mesmo assim.
"Ele vem sozinho?", perguntou a me.
"Esqueci de perguntar", disse o pai. "Mas presumo que ele v traz-la consigo."
"Oh, cus", disse a me outra vez, levantando-se e contando na cabea a quantidade de 
coisas que precisava organizar antes de quinta-feira, que era dali a apenas dois dias. A casa 
precisava ser limpa de alto a baixo, as janelas lavadas, a mesa de jantar encerada e lustrada, a 
comida providenciada, os uniformes da governanta e do mordomo lavados e passados e a loua 
de cermica e os copos lustrados at brilharem.
De alguma maneira, apesar de a lista parecer aumentar o tempo todo, a me 
conseguiu terminar tudo a tempo, embora comentasse muitas vezes que a noite seria um 
grande sucesso se certas pessoas ajudassem um pouco mais no servio de casa.
Uma hora antes da que o Fria havia anunciado que iria chegar, Gretel e Bruno foram 
chamados ao andar de baixo, onde receberam um raro convite para ir ao escritrio do pai. 
Gretel trajava um vestido branco e meias at os joelhos, e o cabelo estava arrumado em cachos 
tranados. Bruno vestia shorts marrons, uma camisa branca lisa e uma gravata marrom-
escura. Usava um par de sapatos novos comprados especialmente para a ocasio, e tinha muito 
orgulho deles, embora fossem pequenos demais e estivessem apertando seus ps, dificultando-
lhe a caminhada. Todas aquelas preparaes e todo aquele vesturio pareciam um pouco 
exagerados, ainda mais porque Bruno e Gretel nem sequer foram convidados para o jantar; j 
haviam comido uma hora antes.
"Bem, crianas", disse o pai, sentando-se atrs da escrivaninha e olhando para o filho e 
para a filha e de volta para o filho enquanto ambos permaneciam diante dele. "Sabem que 
temos pela frente uma noite muito especial, no ?"
Eles fizeram que sim com a cabea.
"E que  muito importante para a minha carreira que tudo corra bem esta noite."
Eles balanaram a cabea novamente.
"Ento h algumas regras bsicas que precisam ser esclarecidas antes de comearmos." 
O pai acreditava muito em regras bsicas. Sempre que havia uma ocasio especial ou 
importante na casa, mais delas eram criadas.
"Regra nmero 1", disse o pai. "Quando o Fria chegar, vocs ficaro no corredor, em 
silncio, prontos para cumpriment-lo. No falem com ele at que ele fale com vocs, ento 
respondam numa voz clara, enunciando precisamente cada palavra. Entendido?" "Sim, pai", 
resmungou Bruno.
"E exatamente esse tipo de coisa que no queremos", disse o pai, referindo-se ao 
resmungo. "Trate de abrir a boca e falar como um adulto. A ltima coisa de que precisamos  
que algum de vocs comece a se comportar feito criana. Se o Fria ignor-los, no digam 
nada, mas olhem diretamente para a frente e demonstrem a ele o respeito e a cortesia que um 
lder deste porte merece."
s
"E claro, papai", disse Gretel numa voz bastante clara.
"E quando sua me e eu estivermos jantando com o Fria, vocs tratem de ficar quietos 
em seus quartos, em silncio. Nada de correr, nada de escorregar pelo corrimo" - e ele olhou 
deliberadamente para Bruno - "e nada de interromper. Entendido? No quero nenhum de 
vocs criando confuso."
Bruno e Gretel concordaram com a cabea, e o pai se levantou para indicar que a 
conversa tinha acabado.
"Ento as regras bsicas esto estabelecidas", ele disse.
Quarenta e cinco minutos depois a campainha tocou, e a casa entrou em erupo de 
tanta ansiedade. Bruno e Gretel assumiram suas posies na lateral da escada e a me esperou 
ao lado deles, apertando as mos uma contra a outra em sinal de nervosismo. O pai lanou-lhes 
um breve olhar e acenou, satisfeito com o que estava vendo, e ento abriu a porta.
Havia duas pessoas do lado de fora: um homem pequeno e uma mulher mais alta.
O pai cumprimentou-os e os fez entrar, enquanto Maria, a cabea inclinada ainda 
mais baixo do que de costume, tomava-lhes os casacos, e as apresentaes eram feitas. Primeiro 
falaram com a me, dando a Bruno a oportunidade de observar os convidados e decidir 
sozinho se eram dignos ou no dignos de tanto alarde.
O Fria era bem mais baixo que o pai, e no to forte quanto ele, sups o menino. Seu 
cabelo era escuro, cortado bastante curto, e ele tinha um pequeno bigode - to minsculo que 
Bruno se perguntou por que ele no o cortava, ou se no teria se esquecido de uma parte 
quando fazia a barba. A mulher ao seu lado, entretanto, era simplesmente a mais bela moa 
que vira em toda a sua vida. Seu cabelo era loiro e os lbios muito vermelhos, e enquanto a me 
conversava com o Fria ela se voltou para Bruno e sorriu, fazendo-o corar.
"E estes so meus filhos, Fria", disse o pai, enquanto Gretel e Bruno davam um passo 
adiante. "Gretel e Bruno."
"E qual  qual?", disse o Fria, coisa que fez rir a todos, exceto Bruno, que achava 
bastante bvio qual era qual e que isso no era motivo para piadas. O Fria estendeu a mo e 
cumprimentou o menino e Gretel, que fez uma cortesia cuidadosa e ensaiada. Bruno deleitou-se 
quando o gesto deu errado e ela quase caiu.
"Que crianas encantadoras", disse a mulher loira. "E quantos anos eles tm, se me 
permite a pergunta?"
"Eu tenho doze, mas ele s tem nove", disse Gretel, olhando desdenhosamente para o 
irmo. "E tambm sei falar francs", acrescentou ela, o que no era exatamente verdade, 
embora tivesse aprendido algumas frases na escola.
"Sim, mas por que voc faria uma coisa dessas?", perguntou o Fria, e desta vez 
ningum riu; na verdade, todos se remexeram no lugar, em sinal de desconforto, e Gretel 
encarou-o, sem saber se deveria responder ou no.
O problema foi rapidamente resolvido, no entanto, pois o Fria, que era o convidado 
mais mal-educado que Bruno j vira, deu meia-volta e foi direto at a sala de jantar, sentando-
se prontamente na cabeceira da mesa -na cadeira do pai! - sem dizer outra palavra. Um pouco 
atrapalhados, a me e o pai o seguiram, e a me disse a Lars que podia comear a esquentar a 
sopa.
"Eu tambm sei falar francs", disse a linda mulher loira, inclinando-se e sorrindo para 
as duas crianas. Ela no parecia ter medo do Fria, ao contrrio da me e do pai. "O francs  
um belo idioma e voc faz bem em aprend-lo."
"Eva", gritou o Fria do outro aposento, estalando os dedos como se ela fosse alguma 
espcie de filhote de estimao. A mulher girou os olhos nas rbitas e levantou-se lentamente, 
voltando-se para ele.
"Gostei dos seus sapatos, mas eles parecem um pouco apertados em voc", ela 
acrescentou, sorrindo. "Se no pequenos,  melhor avisar sua me, antes que eles o 
machuquem."
"Esto um pouco apertados", admitiu Bruno.
"Eu no costumo pentear os cabelos em cachos", disse Gretel, com cime da ateno 
que o irmo estava recebendo.
"Mas por que no?", perguntou a mulher. "Fica to bonita desse jeito."
"Eva!", rosnou o Fria uma segunda vez, e ela ento se afastou deles.
"Foi um prazer conhec-los", ela disse, antes de entrar na sala de jantar e sentar-se ao 
lado esquerdo do Fria. Gretel foi at a escada, mas Bruno ficou parado no mesmo lugar, 
observando a mulher loira at que o olhar dela encontrou o seu e ela acenou para o menino, 
bem quando o pai apareceu e fechou a porta, fazendo um gesto com a cabea - que Bruno 
interpretou corretamente como hora de ir para o quarto, ficar bem quieto, no fazer barulho e, 
principalmente, no escorregar no corrimo.
O Fria e Eva ficaram l por quase duas horas, e nem Bruno nem Gretel foram 
chamados escada abaixo para se despedir deles. Bruno observou-os indo embora da janela do 
quarto e reparou que, quando chegaram perto do carro, que o impressionou porque tinha um 
motorista, o Fria no abriu a porta para sua acompanhante; em vez disso, entrou e comeou a 
ler um jornal, enquanto ela se despedia uma ltima vez da me, agradecendo-lhe o delicioso 
jantar.
Que homem horrvel, pensou Bruno.
Mais tarde naquela noite, Bruno escutou alguns trechos da conversa entre o pai e a 
me. Certas frases escaparam pela fechadura ou por sob a porta do escritrio do pai e subiram 
pela escada e deram a volta pelo andar de cima e deslizaram por sob a porta do quarto de 
Bruno. Suas vozes estavam estranhamente altas e Bruno s conseguia entender fragmentos do 
que eles estavam conversando:
"... que deixar Berlim. E ainda troc-la por um lugar to horrvel...", dizia a me.
"... no temos escolha, ao menos no se quisermos prosseguir com...", dizia o pai.
"... como se fosse a coisa mais natural do mundo, e no , simplesmente no ...", dizia 
a me.
"... o que aconteceria  que eu seria levado embora e tratado como um...", dizia o pai.
"... esperar que eles cresam num lugar como...", dizia a me.
"... e o assunto est encerrado. No quero ouvir nem mais uma palavra sobre...", dizia 
o pai.
Aquilo deve ter sido o fim da conversa porque a me saiu do escritrio do pai e Bruno 
adormeceu.
Alguns dias mais tarde ele chegou em casa vindo da escola e encontrou Maria em seu 
quarto, tirando todos os pertences dele do guarda-roupa e arrumando-os dentro de quatro 
caixotes de madeira, at mesmo aquelas coisas que ele escondera no fundo e que pertenciam 
somente a ele e no eram da conta de mais ningum, e foi ento que a histria comeou.
SHMUEL PENSA NUMA RESPOSTA PARA A PERGUNTA DE
BRUNO
"Tudo o que eu sei  o seguinte", comeou Shmuel. "Antes de virmos para c eu 
morava com minha me e meu pai e meu irmo Josef num pequeno apartamento sobre a loja 
onde papai fazia seus relgios. Todo dia tomvamos o caf da manh juntos s sete horas, e, 
enquanto amos  escola, papai consertava os relgios que as pessoas lhe traziam e fazia alguns 
novos tambm. Eu tinha um lindo relgio que ele me deu, mas no est mais comigo. Era 
dourado, e toda noite eu dava corda nele antes de dormir, e ele sempre marcava a hora certa."
"O que aconteceu com ele?", perguntou Bruno.
"Eles o tomaram de mim", disse Shmuel.
"Quem?"
"Os soldados,  claro", disse Shmuel, como se fosse a coisa mais bvia do mundo.
"E ento um dia as coisas comearam a mudar", ele prosseguiu. "Eu voltei da escola, e 
minha me estava costurando braadeiras para ns, feitas de um tecido especial, e desenhando 
uma estrela sobre cada uma delas. Como esta." Usando a ponta do dedo, ele reproduziu o 
desenho no cho poeirento.
"E sempre que saamos de casa, ela dizia, tnhamos de usar uma daquelas 
braadeiras."
"Meu pai tambm usa uma", disse Bruno. "Em seu uniforme. E bem
s
bonita.  de um vermelho brilhante, com um desenho branco e preto feito por cima." Usando a 
ponta do dedo ele reproduziu o outro desenho na poeira do cho do seu lado da cerca.
s
"E, mas elas so diferentes, no?", disse Shmuel.
"Ningum jamais me deu uma braadeira", disse Bruno.
"Mas eu nunca pedi para usar uma delas", disse Shmuel.
"Mesmo assim", disse Bruno, "acho que bem que eu gostaria de usar uma. No sei qual 
delas eu preferiria, se a sua ou a do meu pai."
Shmuel balanou a cabea e continuou sua histria. Ele no costumava mais pensar 
naquelas coisas, uma vez que relembrar a antiga vida sobre a loja de relgios o entristecia 
muito.
"Usamos as braadeiras durante alguns meses", ele disse. "E ento as coisas mudaram 
novamente. Cheguei em casa um dia, e a mame disse que no poderamos mais morar na 
nossa casa... "


"Isso tambm aconteceu comigo!", gritou Bruno, deleitando -se com o fato de no ser o 
nico menino que fora obrigado a se mudar. "O Fria veio para o jantar, sabe, e pouco depois 
ns tivemos que nos mudar para c. E eu odeio este lugar", ele acrescentou numa voz exaltada. 
"Por acaso ele foi at sua casa e fez o mesmo?"
"No, mas quando nos disseram que no podamos mais morar na nossa casa, tivemos 
que nos mudar para outra parte de Cracvia, onde os soldados haviam construdo um grande 
muro, e minha me e meu pai e meu irmo e eu, todos tnhamos que morar no mesmo quarto."
"Vocs quatro", perguntou Bruno. "Vivendo num nico quarto?"
"E no ramos apenas ns", disse Shmuel. "Havia l outra famlia morando conosco, e 
a me e o pai estavam sempre brigando, e um de seus filhos era maior do que eu e batia em 
mim, mesmo quando eu no havia feito nada de errado."
"No  possvel que tenham morado todos no mesmo quarto!", disse Bruno, 
balanando a cabea. "No faz o menor sentido."
"Todos ns nos mesmo quarto", disse Shmuel, acenando afirmativamente. "Eramos 
onze ao todo."
Bruno abriu a boca para contradiz-lo novamente - ele no podia acreditar que onze 
pessoas pudessem viver juntas num mesmo quarto -, mas mudou de idia.
"Moramos l por mais alguns meses", continuou Shmuel, "todos ns naquele nico 
quarto. Havia apenas uma pequena janela, s que eu no gostava de olhar atravs dela porque, 
ento, via o muro, e eu odiava o muro, porque nossa verdadeira casa ficava do outro lado. E 
aquela parte da cidade era a parte ruim, porque havia sempre muito barulho e era impossvel 
dormir. E eu odiava o Luka, que era o menino que continuava me batendo, mesmo quando eu 
no tinha feito nada de errado."
s
"Gretel me bate s vezes", disse Bruno. "E a minha irm", acrescentou ele. "E tambm 
um Caso Perdido. Mas logo eu serei maior e mais forte e, ento, ela no vai nem mesmo saber 
de onde veio o tapa."
"Ento, um dia vieram os soldados e seus gigantescos caminhes", continuou Shmuel, 
que no parecia muito interessado em Gretel. "E todos tiveram que deixar suas casas. Muitas 
pessoas no queriam ir e se esconderam em qualquer lugar que puderam encontrar, mas, 
afinal, acho que pegaram todos. E os caminhes nos levaram a um trem, e o trem... " Ele 
hesitou por um instante e mordeu o lbio. Bruno pensou que ele ia comear a chorar e no 
entendeu por qu.
"O trem era horrvel", disse Shmuel. "Havia muitos de ns nos vages, para comear. E 
no havia ar para respirar. E o cheiro era terrvel."
"Mas isso  porque vocs estavam amontoados num nico trem", disse Bruno, 
lembrando-se dos dois trens que vira na estao no dia em que deixou Berlim. "Quando viemos 
para c, havia outro trem no lado oposto da plataforma, s que ningum parecia v-lo. Foi 
neste que ns entramos. Voc devia ter subido neste trem tambm."
"Acho que no seramos admitidos", disse Shmuel, balanando a cabea. "No 
podamos sair do vago."
"As portas ficam no final", explicou Bruno.
"No havia portas", disse Shmuel.
"E claro que havia portas", disse Bruno num suspiro. "Ficam no final", repetiu ele. 
"Logo depois do restaurante."
"No havia portas", insistiu Shmuel. "Se houvesse, teramos todos descido."
Bruno murmurou alguma coisa em voz baixa como "E claro que havia", mas no 
muito alto e Shmuel no pde ouvi-lo.
"Quando finalmente o trem parou", prosseguiu Shmuel, "estvamos num lugar muito 
frio e tivemos que caminhar at aqui."
"Ns tnhamos um carro nos esperando", disse Bruno, agora em voz
alta.
"E levaram minha me embora, e papai, Josef e eu fomos colocados nas cabanas logo 
ali e  onde ficamos desde ento."
Shmuel parecia muito triste ao contar sua histria e Bruno no sabia ao certo por qu; 
para ele no parecia algo to terrvel e, afinal, muito do que acontecera a um acontecera ao 
outro.
"H muitos outros meninos do seu lado da cerca?", perguntou Bruno.
"Centenas", disse Shmuel.
Os olhos de Bruno se arregalaram. "Centenas?", ele disse estupefato. "No  justo. 
Deste lado da cerca no h ningum com quem brincar. Nem uma nica pessoa."
"Ns no brincamos", disse Shmuel.
"No brincam? Mas por que vocs no brincam?"
"De que brincaramos?", perguntou ele, seu rosto parecendo confuso s de pensar na 
idia.
"Bem, eu no sei", disse Bruno. "De qualquer coisa. Futebol, por exemplo. Ou 
explorao. Como  a explorao a do seu lado da cerca? 
legal?"
Shmuel balanou a cabea e no respondeu. Ele olhou de volta para as cabanas e se 
voltou para Bruno. No queria fazer a prxima pergunta, mas a dor em seu estmago o 
obrigou a faz-la.
"Trouxe alguma comida com voc?", ele perguntou.
"Infelizmente no", disse Bruno. "Eu pensei em trazer um pedao de chocolate, mas 
esqueci."
"Chocolate", disse Shmuel bem devagar, sua lngua saindo de trs dos dentes. "S comi 
chocolate uma vez na vida."
"Uma vez? Eu adoro chocolate. No consigo enjoar, se bem que minha me diga que 
isso faz os dentes apodrecerem."
"Trouxe algum po?"
Bruno balanou a cabea. "Nada mesmo", disse ele. "O jantar s  servido s seis e 
meia. A que horas servem o seu jantar?"
Shmuel deu de ombros e se levantou. "Acho melhor voltar", ele disse.
"Quem sabe voc possa vir jantar conosco uma noite qualquer", disse Bruno, embora 
no estivesse certo de que seria uma boa idia.
"Quem sabe", disse Shmuel, apesar de no ter soado muito convincente.
"Ou eu poderia ir at a", disse Bruno. "Quem sabe voc me apresenta aos seus 
amigos", acrescentou ele, esperanoso. Ele torceu para que Shmuel abraasse sua idia, mas 
aparentemente ele no o faria.
" que voc est do lado errado da cerca", disse o outro menino.
"Eu poderia rastejar por baixo dela", disse Bruno, abaixando-se e agarrando o arame e 
o erguendo do cho. No meio, entre os postes telegrficos de madeira, o arame levantava 
facilmente e um menino no tamanho de Bruno conseguiria passar sem dificuldade.
Shmuel observou-o fazendo isso e afastou-se, nervoso. "Tenho que voltar", disse ele.
"Quem sabe numa outra tarde", disse Bruno.
"Eu no deveria estar aqui. Se me pegarem, estarei encrencado."
Ele se voltou e caminhou na direo oposta e Bruno constatou como seu novo amigo 
era pequeno e magro. Ele nada comentou sobre isso porque sabia muito bem como  
desagradvel ser criticado por uma coisa to boba quanto a prpria altura, e a ltima coisa que 
ele queria era ofender Shmuel.
"Voltarei amanh", gritou Bruno para o menino que o deixava, e Shmuel no 
respondeu; na verdade ele comeou a correr na direo do campo, deixando Bruno sozinho.
Bruno decidiu que j explorara mais do que o suficiente para um dia e foi para casa 
animado pelo que acontecera e desejoso de contar  me a ao pai e  Gretel - que teria tanta 
inveja que era capaz de explodir - e  Maria e ao cozinheiro e a Lars tudo sobre sua aventura 
naquela tarde com seu novo amigo de nome engraado e que fazia aniversrio no mesmo dia 
que ele; contudo, quanto mais se aproximava da casa, mais ele pensava que talvez essa no 
fosse uma boa idia.
Afinal, Bruno raciocinou, era possvel que eles no quisessem mais que ele e Shmuel 
fossem amigos, e, se isso acontecesse, eles o impediriam de sair de l para o que quer que fosse. 
Quando passou pela porta da frente e sentiu o cheiro do fil que estava assando no forno para o 
jantar, j tinha decidido que o melhor era ficar quieto sobre o que havia acontecido e no dizer 
uma palavra a respeito. Seria o seu segredo. Bem, o segredo dele e de Shmuel.
Bruno era da opinio de que, em se tratando de pais, e especialmente em se tratando 
de irms, tudo o que eles no sabiam no podia feri-los.
A GARRAFA DE VINHO
Com o passar das semanas, Bruno comeou a entender que no voltaria a Berlim no 
futuro previsvel e que era melhor desistir da idia de escorregar pelos corrimos da sua casa 
confortvel ou de ver Karl ou Daniel ou Martin to cedo.
Todavia, a cada dia ele se acostumava mais e mais com a vida em Haja-Vista e parou 
de se sentir to infeliz a respeito de sua nova realidade. Afinal, no era mais como se ele no 
tivesse com quem conversar. Todas as tardes, terminadas as aulas, Bruno caminhava o longo 
percurso acompanhando a cerca e se sentava para conversar com o novo amigo Shmuel at a 
hora de voltar para casa, e aquilo comeou a valer por todo o tempo que ele passara sentindo 
saudades de Berlim.
Certa tarde, enquanto enchia os bolsos com uma poro de po e queijo retirados da 
geladeira, Maria entrou e parou ao ver o que ele estava fazendo.
"Ol", disse Bruno, tentando parecer to casual quanto possvel. "Voc me deu um 
susto. No a escutei chegando."
"No est comendo outra vez, est?", perguntou Maria, sorrindo. "J almoou, no? E 
ainda tem fome?"
"Um pouco", disse Bruno. "Vou sair para caminhar e pensei que poderia ter fome antes 
de voltar."
Maria deu de ombros e foi at o fogo, onde ps uma panela de gua para ferver. 
Dispostas na mesa ao lado, havia uma pilha de batatas e cenouras, prontas para serem 
descascadas quando Pavel chegasse mais tarde. Bruno estava prestes a sair quando a comida 
atraiu sua ateno e lhe veio  mente uma pergunta que havia algum tempo o incomodava. Ele 
no pensara a quem perguntar antes, mas aquele parecia ser o momento perfeito e Maria, a 
pessoa perfeita a quem faz-la.
"Maria", disse ele, "posso lhe fazer uma pergunta?"
A governanta deu meia-volta e o olhou, surpresa. " claro, senhor Bruno", disse ela.
"E se eu lhe fizer a pergunta, promete no contar a ningum o que vou perguntar?"
Ela estreitou os olhos, desconfiada, mas acenou afirmativamente. "Est bem", disse ela. 
"O que voc quer saber?"
" sobre o Pavel", disse Bruno. "Voc o conhece, no ? O homem que vem descascar 
os legumes e depois nos serve  mesa."


"Ah, sim", disse Maria, sorrindo. Ela parecia aliviada pelo fato de a pergunta no ser 
sobre nada mais srio. "Eu conheo Pavel. J conversamos em inmeras ocasies. Por que 
pergunta sobre ele?"
"Bem", disse Bruno, escolhendo cuidadosamente as palavras para no dizer algo que 
no deveria, "lembra-se de que pouco tempo depois de virmos para c eu fiz um balano no 
carvalho e ca e machuquei o joelho?"
"Sim", disse Maria. "No est doendo de novo, est?"
"No, no  isso", disse Bruno. "Mas, quando eu me machuquei, Pavel era o nico 
adulto por perto e ele me trouxe para casa e limpou o corte e o lavou e passou nele o ungento 
verde, que doeu, mas acho que ajudou a sarar, e depois fez um curativo sobre o ferimento."
"E o que qualquer pessoa faria por algum que se machucou", disse
Maria.
"Eu sei", prosseguiu ele. "S que naquela ocasio ele me disse que na verdade no era 
um servente."
O rosto de Maria congelou-se e por um instante ela no disse nada. Em vez disso, 
olhou em outra direo e lambeu levemente os lbios antes de acenar com a cabea. "Sei", disse 
ela. "E o que ele disse que era?"
"Disse que era mdico", respondeu Bruno. "O que me pareceu muito estranho. Ele no 
 mdico, ?"
"No", disse Maria, balanando a cabea. "No, ele no  mdico. Ele  um servente."
"Eu sabia", disse Bruno, bastante satisfeito consigo mesmo. "Ento por que ele mentiu 
para mim? No faz sentido."
"Pavel no  mais um mdico, Bruno", disse Maria, em voz baixa. "Mas ele foi. Em 
outra vida. Antes de vir para c."
Bruno franziu o cenho e se ps a pensar a respeito daquilo. "No entendo", disse ele.
"Poucos de ns entendem", disse Maria.
"Mas se ele era mdico, por que no  mais?"
Maria suspirou e olhou para fora da janela para certificar-se de que no vinha 
ningum e ento acenou com a cabea na direo das cadeiras, e ela e Bruno se sentaram.
"Se eu lhe contar o que Pavel me disse sobre a vida dele", disse ela, "voc no poder 
contar a mais ningum - entendido? Estaramos todos muito encrencados."
"Eu no contarei a ningum", disse Bruno, que adorava ouvir segredos e quase nunca 
os traa, a no ser quando era absolutamente necessrio,  claro, e no houvesse nada que ele 
pudesse fazer para preserv -los.
"Est bem", disse Maria. "Isto  tudo o que eu sei."
Bruno chegou atrasado ao ponto da cerca onde ele encontrava com Shmuel todo dia, 
mas, como sempre, o novo amigo o estava esperando sentado no cho de pernas cruzadas.
"Desculpe o atraso", disse ele, entregando ao menino um pouco de po e queijo atravs 
da cerca - os pedaos que ele ainda no havia comido durante o caminho, quando de fato ficara 
com fome. "Estava conversando com a Maria."
"Quem  Maria?", perguntou Shmuel, sem erguer os olhos, enquanto metia a comida 
goela abaixo, faminto.
" a nossa criada", explicou Bruno. "Ela  muito legal, embora meu pai diga que ela  
muito bem paga para tanto. Maria estava me contando sobre um sujeito chamado Pavel, que 
vem cortar os legumes para ns e nos serve  mesa. Acho que ele mora do seu lado da cerca."
Shmuel ergueu os olhos por um momento e parou de comer. "Do meu lado?", ele 
perguntou.
"Sim. Voc o conhece? Ele  muito velho e usa um palet branco quando est servindo 
o jantar. Provavelmente voc j o viu."
"No", disse Shmuel, balanando a cabea. "Nunca o vi."
"Tenho certeza que sim", disse Bruno, irritado, como se Shmuel estivesse sendo 
deliberadamente difcil. "Ele no  to alto quanto a maioria dos adultos, tem a postura pouco 
inclinada e seu cabelo  grisalho."
"Acho que voc ainda no entendeu quantas pessoas h aqui deste lado da cerca", disse 
Shmuel. "H milhares de ns."
"Mas este de quem estou falando se chama Pavel", insistiu Bruno. "Quando eu ca do 
balano, ele limpou o ferimento para que no infeccionasse e fez um curativo na minha perna. 
Enfim, o motivo pelo qual estou lhe contando tudo isso  porque ele tambm  da Polnia. 
Como voc."
"A maioria de ns  da Polnia", disse Shmuel. "Embora tambm haja gente de outros 
lugares, como a Checoslovquia e... "
"Sim, mas foi por isso que eu pensei que voc pudesse conhec-lo. Enfim, Pavel era um 
mdico em sua cidade natal antes de vir para c, mas agora ele no tem mais permisso para 
ser mdico, e se meu pai soubesse que foi ele quem limpou meu joelho quando me machuquei, 
ento haveria uma grande encrenca."
"Em geral os soldados no gostam de ver as pessoas melhorando de sade", disse 
Shmuel, engolindo o ltimo pedao de po. "Costuma ser o contrrio."
Bruno acenou com a cabea, ainda que no soubesse exatamente o que Shmuel queria 
dizer, e dirigiu o olhar para o cu. Aps alguns momentos ele olhou atravs da cerca e fez outra 
pergunta que estivera rondando sua mente.
"Voc sabe o que quer ser quando crescer?", perguntou ele.
"Sim", disse Shmuel. "Quero trabalhar num zoolgico."
"Num zoolgico?", perguntou Bruno.
"Gosto de animais", disse Shmuel em voz baixa.
"Eu serei um soldado", disse Bruno numa voz determinada. "Como meu pai."
"Eu no gostaria de ser soldado", disse Shmuel.
"No quero dizer um soldado como o tenente Kotler", disse Bruno rapidamente. "No 
como ele, que anda por a, como se fosse o dono do lugar e ri com a sua irm e fala baixinho 
com a sua me. No acho que ele seja um bom soldado. Quero dizer um soldado como meu 
pai. Um dos soldados bons."
"No existem soldados bons", disse Shmuel. "E claro 
que existem", disse Bruno.
"Quem?"
s
"Bem, meu pai, por exemplo", disse Bruno. "E por isso que ele usa um uniforme to 
imponente e  por isso que todos o chamam de comandante e fazem qualquer coisa que ele diz. 
O Fria tem grandes planos para o meu pai justamente porque ele  um soldado to bom."
"No existem soldados bons", repetiu Shmuel.
"Exceto o meu pai", repetiu Bruno, que esperava que Shmuel no dissesse aquilo outra 
vez, pois no queria ter que discutir com ele. Afinal, ele era seu nico amigo em Haja-Vista. 
Mas o pai era o pai, e Bruno no achava certo uma pessoa falar algo ruim a respeito dele.
Os dois meninos ficaram bem quietos por alguns minutos, j que no queriam dizer 
algo de que pudessem se arrepender depois.
"Voc no sabe como so as coisas aqui", disse Shmuel afinal, em voz baixa, suas 
palavras mal chegando ao ouvidos de Bruno.
"Voc no tem irms, tem?", perguntou Bruno rapidamente, fingindo que no tinha 
escutado o que o outro dissera, pois assim no teria que responder.
"No", disse Shmuel, balanando a cabea.
"Voc tem sorte", disse Bruno. "Gretel tem apenas doze anos e acha que sabe de tudo, 
mas na verdade ela  um Caso Perdido. Fica sentada olhando pela janela e, quando v o 
tenente Kotler se aproximar, corre escada abaixo, direto at a entrada, e finge que esteve l o 
tempo todo. Outro dia eu a flagrei fazendo isso e, quando ele chegou, ela deu um salto e disse: 
Ora, tenente Kotler, no sabia que voc estava a'. E eu sei muito bem que ela estava 
esperando por ele."
Bruno no olhou para Shmuel enquanto dizia aquilo, mas quando o fez percebeu que 
o amigo estava ainda mais plido do que o habitual.
"Qual o problema?", perguntou ele. "Voc parece estar passando
mal."
"No gosto de falar sobre ele", disse Shmuel. "Sobre 
quem?", perguntou Bruno. "O tenente Kotler. Ele me 
assusta."
"Ele tambm me assusta um pouco", admitiu Bruno. " um valento. E tem um cheiro 
engraado.  por causa de toda aquela loo ps-barba que ele usa." E ento Shmuel comeou 
a tremer e Bruno olhou ao redor, como se pudesse ver em vez de sentir se estava frio ou no. 
"Qual o problema?", ele perguntou. "No est to frio assim, est? Voc devia ter trazido um 
casaco, sabe. As noites esto mesmo ficando mais frias."
Mais tarde naquela noite, Bruno ficou desapontado ao descobrir que o tenente Kotler ia 
se juntar a ele,  me, ao pai e  Gretel para o jantar. Pavel usava o palet branco de sempre e 
os serviu enquanto comiam.
Bruno observou Pavel caminhar ao redor da mesa e descobriu que se sentia triste cada 
vez que olhava para ele. Perguntava-se se o palet branco que ele usava como servente era o 
mesmo que usava antes, quando era mdico. Ele trazia os pratos e os depositava na frente de 
cada um deles e, enquanto comiam a comida e conversavam, ele ficava um passo atrs contra a 
parede e mantinham o corpo absolutamente imvel, sem olhar para frente nem para outro 
lugar. Era como se o corpo tivesse adormecido de p e com os olhos abertos.
Sempre que algum precisava de alguma coisa, Pavel trazia o que quer que fosse 
imediatamente, mas quanto mais Bruno o observava, mais certo ficava de que uma catstrofe 
estava prestes a acontecer. Ele parecia menor a cada semana que passava, se  que isso era 
possvel, e a cor que deveria estar corando suas faces havia se esgotado quase por completo. Os 
olhos pareciam pesados de lgrimas, e Bruno pensou que uma piscadela mais demorada 
poderia desencadear uma verdadeira torrente delas.
Quando Pavel trouxe os pratos, Bruno no pde deixar de reparar que as suas mos 
estavam ligeiramente trmulas sob o peso deles. E, quando o servente se afastou para reassumir 
sua posio habitual, pareceu oscilar sobre os dois ps e teve que apertar uma mo contra a 
parede para se endireitar. A me teve que pedir duas vezes por mais uma colherada de sopa 
antes que ele a ouvisse, e ele deixou a garrafa de vinho ficar vazia antes de abrir outra a tempo 
de encher o copo do pai.
"Herr Liszt no nos deixa ler poesias durante a aula, nem peas de teatro", queixou-se 
Bruno durante o prato principal. Como havia convidados para o jantar, a famlia estava vestida 
formalmente - o pai de uniforme, a me num vestido verde que lhe destacava os olhos, e Gretel 
e Bruno com as roupas que costumavam vestir para ir  igreja quando moravam em Berlim.
"Eu perguntei se poderamos l-las s um dia por semana, mas ele disse que no, no enquanto 
ele for o encarregado da nossa educao."
"Tenho certeza de que ele tem seus motivos", disse o pai, atacando uma perna do 
cordeiro.
"Tudo o que ele quer  que estudemos histria e geografia", disse Bruno. "E eu estou 
comeando a odiar histria e geografia."
"Por favor, Bruno, no diga que odeia", disse a me.
"Por que voc odeia histria?", perguntou o pai, deixando o garfo de lado e olhando 
atravs da mesa para o filho, que deu de ombros, um dos seus maus hbitos.
"Porque  chata", disse ele.
"Chata?", disse o pai. "Um filho meu chamando de chato o estudo da histria? Vou lhe 
contar uma coisa, Bruno", continuou ele, inclinado-se pra a frente e apontando a faca para o 
menino, "foi a histria que nos trouxe at aqui hoje. Se no fosse pela histria nenhum de ns 
estaria sentados  nossa mesa da nossa casa em Berlim. Estamos corrigindo a histria aqui."
"Mesmo assim  chata", repetiu Bruno, que no estava prestando ateno realmente.
"Ter de desculpar meu irmo, tenente Kotler", disse Gretel, depositando uma mo 
sobre o brao dele por um instante, o que fez a me encar-la e estreitar os olhos. "Ele  um 
menininho muito ignorante."
"Eu no sou ignorante", retrucou Bruno, que j estava farto dos insultos dela. "Ter de 
desculpar minha irm, tenente Kotler", acrescentou ele educadamente, "mas ela  um Caso 
Perdido. H muito pouco que possamos fazer por ela. Os mdicos dizem que ela est alm de 
qualquer ajuda."
"Cale a boca", disse Gretel, corando inteira.
"Cale a boca voc", disse Bruno, sorrindo de orelha a orelha.
"Crianas, por favor", pediu a me.
O pai bateu a faca levemente contra a mesa repetidas vezes e todos ficaram em 
silncio. Bruno olhou na direo dele. No parecia exatamente bravo, mas sua expresso 
indicava que ele no ia tolerar mais discusses.
"Eu gostava muito de histria quando era menino", disse o tenente Kotler aps alguns 
instantes silenciosos. "E, embora meu pai fosse professor de literatura na universidade, eu 
sempre preferi as cincias sociais s artes."
"No sabia disso, Kurt", disse a me, voltando-se para olh-lo por um momento. "Ele 
ainda  professor?"
"Acho que sim", disse o tenente Kotler. "Na verdade, no sei."
"Mas como pode no saber?", perguntou ela, contraindo o rosto. "Voc no mantm 
contato com ele?"
O jovem tenente meteu na boca um grande bocado de cordeiro, o que lhe deu uma 
oportunidade para pensar em uma resposta. Ele olhou para Bruno como se desejasse que o 
menino jamais tivesse tocado no assunto.
"Kurt", repetiu a me, "voc no mantm contato com seu pai?"
"Na verdade, no", ele respondeu, dando de ombros, como se dispensasse o assunto, e 
nem sequer voltou a cabea para encar-la. "Ele deixou a Alemanha h alguns anos. Acho que 
foi em 1938. Desde ento no o vi mais."
O pai parou de comer por um instante e olhou para o tenente Kotler do outro lado da 
mesa, franzindo levemente o cenho. "E para onde ele foi?", perguntou.
"Perdo, herr comandante, pode repetir, por favor?", perguntou o tenente Kotler, 
apesar de o pai ter falado numa voz perfeitamente clara.
"Perguntei aonde ele foi", repetiu ele. "Seu pai. O professor de literatura. Para onde ele 
foi quando deixou a Alemanha?"
O rosto do tenente Kotler enrubesceu levemente e ele gaguejou um pouco ao 
responder. "Creio que... Acho que est na Sua agora", disse afinal. "A ltima notcia que tive  
de que ele estava lecionando numa universidade em Berna."
"Ah, mas a Sua  um lindo pas", disse rapidamente a me. "Nunca estive l, admito, 
mas pelo que ouo contar... "
"Ele no deve ser muito velho, o seu pai", disse o pai, silenciando a todos com sua voz 
grave. "Quero dizer, voc tem apenas... quanto? Dezessete? Dezoito anos de idade?"
"Acabei de completar dezenove, herr comandante."
"Ento seu pai teria... pouco mais de quarenta anos, imagino?"
O tenente Kotler no disse nada e continuou comendo, embora no parecesse estar 
saboreando a comida.
"Estranho que ele tenha decidido deixar a ptria", disse o pai.
"No somos prximos, meu pai e eu", disse o tenente Kotler rapidamente, olhando ao 
redor para todos na mesa, como se devesse a eles alguma explicao. " verdade, no nos 
falamos h anos."
"Se me permite perguntar, qual motivo ele teria alegado", prosseguiu o pai, "para 
abandonar a Alemanha no seu momento de maior glria e de necessidade mais vital, quando  
dever de todos ns cumprir nosso papel na renovao do pas? Ele sofria de tuberculose, por 
acaso?"
O tenente Kotler encarou o pai, confuso. "Perdo, comandante?", perguntou ele.
"Ele foi para a Sua por causa do clima?", insistiu o pai. "Ou ser que havia outro 
motivo particular para que ele abandonasse a Alemanha? Em 1938", acrescentou ele, aps um 
instante.
"Infelizmente eu no sei, herr comandante", disse o tenente Kotler. "Teria de perguntar 
a ele."
"Bem, seria algo bem difcil de fazer, no ? Quero dizer, com ele estando to longe. 
Mas talvez fosse isso. Talvez ele estivesse doente." O pai hesitou um pouco antes de pegar a faca 
e o garfo novamente e continuar a comer. "Ou quem sabe ele tivesse... divergncias."
"Divergncias, herr comandante?"
"Quanto  poltica do governo. Ouvimos histrias de gente assim de tempos em 
tempos. Sujeitos curiosos, imagino eu. Alguns, perturbados da cabea. Outros, traidores. 
Covardes tambm. Certamente voc informou os seus superiores a respeito das opinies de seu 
pai, no, tenente Kotler?"
O jovem tenente abriu a boca e ento engoliu, apesar de no estar comendo nada.
"Esquea", disse o pai, animado. "Talvez este no seja um tema apropriado para a 
mesa do jantar. Podemos discuti-lo com maior profundidade no futuro."
"Herr comandante", disse o tenente Kotler, inclinando-se ansiosamente para a frente, 
"posso garantir que... "
"No  um assunto apropriado para a mesa do jantar", repetiu o pai, rspido, calando-o 
imediatamente, e Bruno correu os olhos de um para o outro, ao mesmo tempo impressionado e 
assustado com a atmosfera criada.
"Eu adoraria ir  Sua", disse Gretel aps um longo silncio.
"Coma seu jantar, Gretel", disse a me.
"Mas eu s estava dizendo que...!"
"Coma seu jantar", repetiu a me, que estava prestes a falar mais quando foi 
interrompida pelo pai chamando Pavel outra vez.
"Qual  o seu problema hoje  noite?", perguntou ele, enquanto Pavel abria outra 
garrafa. "E a quarta vez que preciso pedir por mais vinho."
Bruno observou-o, torcendo para que ele estivesse se sentindo bem, embora tivesse 
conseguido sacar a rolha sem nenhum acidente. Mas, depois de encher o copo do pai, ele 
voltou-se para encher o do tenente Kotler, e ento acabou deixando a garrafa escapar das mos 
e cair no cho, espatifando-se e derramando todo o contedo diretamente sobre o colo do 
jovem.
O que aconteceu ento foi ao mesmo tempo inesperado e extremamente desagradvel. 
O tenente Kotler ficou muito bravo com Pavel e ningum - nem Bruno, nem Gretel, nem a 
me, nem mesmo o pai - interveio para impedi-lo de fazer o que fez a seguir, muito embora 
nenhum deles tivesse sido capaz de olhar. Muito embora aquilo tenha feito Bruno chorar e 
Gretel empalidecer.
Mais tarde naquela noite, quando foi para a cama, Bruno pensou a respeito de tudo o 
que tinha acontecido durante o jantar. Lembrou-se de como Pavel fora gentil com ele na tarde 
em que fizera o balano, e como havia estancado o sangramento no joelho e tinha sido muito 
cuidadoso ao aplicar o ungento verde. E apesar de Bruno entender que o pai era em geral um 
homem gentil e cheio de considerao, parecia injusto e errado que ningum tivesse impedido o 
tenente Kotler de ficar to bravo com Pavel, e se esse era o tipo de coisa que acontecia em Haja-
Vista, ento era melhor ele no discordar de ningum acerca de coisa alguma; na verdade seria 
bom ficar de boca fechada e no criar encrenca nenhuma. Era capaz de algum no gostar.
A antiga vida em Berlim parecia agora uma lembrana distante, e ele nem mesmo 
conseguia se lembrar de como eram Karl, Daniel e Martin, a no ser pelo fato de que um deles 
era ruivo.
BRUNO CONTA UMA MENTIRA PERFEITAMENTE RAZOVEL Durante muitas semanas 
aps o ocorrido, Bruno continuou a sair de casa sempre que herr Liszt dava o dia por encerrado 
e a me tirava uma de suas sonecas da tarde, e empreendia a longa jornada acompanhando a 
cerca para se encontrar com Shmuel, que quase toda tarde ficava esperando por ele, sentado de 
pernas cruzadas sobre o cho, olhando para a poeira embaixo de si.
Certa tarde, Shmuel apareceu com um olho roxo, e quando Bruno perguntou por que 
seu olho estava daquele jeito, ele simplesmente balanou a cabea e disse que no queria falar 
sobre aquilo. Bruno imaginou que houvesse valentes por todo o mundo, e no apenas nas 
escolas de Berlim, e que um deles devia ter feito aquilo a Shmuel. Ele sentiu um anseio de 
ajudar o amigo, mas no conseguia pensar em nada que pudesse faz-lo sentir-se melhor, e era 
fcil adivinhar que Shmuel preferia fingir que nada acontecera.
Todo dia Bruno perguntava a Shmuel se podia rastejar por sob o arame para que 
pudessem brincar juntos do outro lado da cerca, e todo dia Shmuel respondia que no, que no 
era uma boa idia.
"No sei por que voc quer tanto vir deste lado", disse Shmuel. "No  muito bom."
"Voc no sabe o que  viver na minha casa", disse Bruno. "Para comear, ela no tem 
cinco andares, tem apenas trs. Como pode uma pessoa morar num lugar to pequeno?" Ele 
havia se esquecido da histria de Shmuel, na qual onze pessoas tinham que dividir um quarto 
antes de serem mandados para Haja-Vista, inclusive o garoto Luka, que insistia em bater nele, 
mesmo quando Shmuel no havia feito nada de errado.
Um dia Bruno perguntou por que Shmuel e todas as outras pessoas daquele lado da 
cerca usavam os mesmos pijamas listrados e bons de pano.
"Foi o que nos deram para vestir, quando chegamos aqui", explicou Shmuel. "Levaram 
embora todas as nossas roupas."
"Mas no chega uma hora em que voc acorda pela manh com vontade de vestir 
outra coisa? Deve haver alguma outra roupa no seu armrio."
Shmuel piscou os olhos e abriu a boca para dizer algo, mas ento mudou de idia.
"Eu nem mesmo gosto de listras", disse Bruno, embora aquilo no fosse verdade. De 
fato ele gostava de listras e estava cada vez mais farto de ter que usar calas e camisas e 
gravatas e sapatos que eram pequenos demais para ele, enquanto Shmuel e seus amigos 
podiam ficar de pijama listrado o dia inteiro.


Alguns dias mais tarde, quando Bruno acordou, estava chovendo forte pela primeira 
vez em semanas. A chuva comeara a cair durante a noite e Bruno at pensou que ela  que o 
havia acordado, mas era difcil de dizer, porque, uma vez acordado, era impossvel determinar 
qual fora a causa do despertar. Enquanto tomava o caf-da-manh, a chuva prosseguiu. 
Durante todas as aulas matinais de herr Liszt, a chuva prosseguiu. Enquanto almoava, a 
chuva prosseguiu. E quando tece fim mais uma sesso de histria e geografia  tarde, a chuva 
prosseguiu. Essa era uma m notcia, pois significava que ele no poderia sair de casa para se 
encontrar com Shmuel.
Naquela tarde Bruno deitou-se na cama com um livro, mas achou difcil se concentrar, 
e foi ento que o Caso Perdido entrou para v-lo. Ela no costumava vir ao quarto do irmo, 
preferindo arrumar constantemente de novo e de novo sua coleo de bonecas durante o tempo 
livre. Entretanto, algo naquele clima mido a havia enfastiado da brincadeira de sempre e ela 
ainda no tinha vontade arrum-las outra vez.
"O que voc quer?", perguntou Bruno.
"Belo jeito de me dar as boas-vindas", disse Gretel.
"Estou lendo", disse Bruno.
"Est lendo o qu?", ela perguntou, e, em vez de responder, o menino simplesmente 
mostrou-lhe a capa, para que pudesse ver com os prprios olhos.
Ela emitiu um som spero por entre os lbios, e um pouco de sua saliva aterrissou no 
rosto de Bruno. "Chaaaatooo", cantarolou ela.
"No  nada chato", disse Bruno. "E uma aventura. Bem mais divertido do que 
arrumar bonecas, disso no h dvida."
Gretel no mordeu a isca desta vez. "O que est fazendo?", ela repetiu, o que irritou 
Bruno ainda mais.
"J disse, estou tentando ler", disse ele numa voz emburrada. "Se algumas pessoas 
permitirem."
"Eu no tenho nada para fazer", ela respondeu. "Odeio chuva."
Bruno achou difcil de entender o que Gretel dizia. No era como se ela tivesse o que 
fazer, ao contrrio dele, que embarcava em aventuras e saa explorando os lugares e at 
fizeram um amigo. Ela raramente deixava a casa. Era como se tivesse decidido ficar entediada 
simplesmente porque no tinha escolha quanto a sair ou no. Mesmo assim, h momentos em 
que um irmo e uma irm podem deixar de lado seus instrumentos de tortura por um instante 
e conversar como seres humanos civilizados, e Bruno decidiu fazer daquele um desses 
momentos.
"Eu tambm odeio chuva", disse ele. "J deveria estar com Shmuel a esta altura. Ele vai 
pensar que eu esqueci dele."
As palavras saram de sua boca mais rpido do que ele pde cont-las. Bruno sentiu 
uma dor no estmago e ficou furioso consigo mesmo por ter dito aquilo.
"Deveria estar com quem?", perguntou Gretel. "O qu?", 
perguntou Bruno, piscando para ela.
"Com quem voc disse que deveria estar?", ela perguntou novamente. "Desculpe", disse Bruno, 
tentando pensar rpido. "No escutei direito. Pode repetir?"
"Com quem voc disse que deveria estar?", gritou ela, inclinando-se para a frente para 
que no houvesse confuso desta vez.
"Nunca disse que deveria estar com ningum", disse ele.
"Disse sim. Disse que algum vai pensar que voc esqueceu dele."
"Perdo?"
"Bruno!", exclamou a irm numa voz ameaadora.
"Est louca?", ele perguntou, tentando faz-la pensar que tinha inventado tudo 
sozinha, mas sem conseguir convenc-la, pois no era um ator natural como a av, e Gretel 
balanou a cabea e apontou o dedo para
ele.
"O que voc disse, Bruno?", insistiu ela. "Voc falou que deveria estar com uma pessoa. 
Quem era? Diga! No h ningum por aqui com quem brincar, h?"
Bruno pensou no problema em que se metera. Apesar de tudo, ele e a irm tinham 
algo de crucial em comum: no eram adultos. E embora ele nunca tivesse pensado em 
perguntar-lhe, havia uma grande chance de que Gretel estivesse to solitria quanto ele l em 
Haja-Vista. Afinal, em Berlim ela tinha Hilda e Isobel e Louise para brincar; podiam ser garotas 
irritantes, mas ao menos eram suas amigas. Aqui no havia com quem conversar alm da 
coleo de bonecas sem vida. Quem poderia dizer quo louca Gretel podia estar? Talvez, em 
seu pensamento, as bonecas falavam com ela.
Mas ao mesmo tempo havia o fato indiscutvel de que Shmuel era amigo dele e no 
dela, e Bruno no queria dividi-lo. S havia uma coisa a fazer: mentir.
"Eu tenho um novo amigo", comeou ele. "Um novo amigo que vou visitar todos os 
dias. E ele est esperando por mim agora. Mas voc no pode contar a ningum."
"Por que no?"
"Porque  um amigo imaginrio", disse Bruno, esforando-se ao mximo para parecer 
constrangido, assim como ficou o tenente Kotler ao se enredar na histria a respeito de seu pai 
na Sua. "Ns brincamos juntos todos os dias."
Gretel abriu a boca e o encarou antes de cair na gargalhada. "Um amigo imaginrio!", 
gritou ela. "Voc no est meio grandinho para ter amigos imaginrios?"
Bruno tentou parece envergonhado e encabulado de modo a fazer sua histria soar 
mais convincente. Ele se remexeu na cama e no a olhou nos olhos, o que funcionou 
perfeitamente e o fez pensar que talvez no fosse mau ator, afinal. Ele queria poder ficar 
vermelho, mas era difcil, e ento comeou a pensar em coisas embaraosas que j haviam lhe 
acontecido ao longo dos anos e se perguntou se isso bastaria para obter o efeito desejado.
Ele se lembrou da vez em que se esqueceu de trancar a porta do banheiro e a av 
acabou entrando e vendo tudo. Pensou na vez em que levantou a mo na sala de aula e, num 
ato falho, chamara a professora de "me", fazendo todos rirem. Pensou na vez em que caiu da 
bicicleta na frente de um grupo de meninas e acabou cortando o joelho e chorando.
Uma das lembranas funcionou e ele sentiu o rosto enrubescendo.
"Olhe s para voc", disse Gretel, confirmando o que ele havia sentido. "Ficou todo 
vermelho."
"E porque eu no queria te contar", disse Bruno.
"Um amigo imaginrio. Francamente, Bruno, voc  um caso perdido."
Bruno sorriu, pois sabia de duas coisas. A primeira era que a mentira havia 
funcionado, e a segunda era que, se algum era um Caso Perdido por l, certamente no era 
ele.
"Deixe-me em paz", disse ele. "Quero ler meu livro."
"Ento por que voc no fecha os olhos, se deita na cama e deixa seu amigo imaginrio 
ler o livro para voc?, disse Gretel, deleitando-se sozinha agora que tinha algo que o 
comprometia, sem pressa de esquecer a recm-descoberta fraqueza do irmo. "Assim voc 
descansa."
"Talvez eu devesse mand-lo at o seu quarto, para jogar todas as suas bonecas pela 
janela", disse ele.
"Se fizer isso, vai ter encrenca", disse Gretel, e ele sabia que ela falava srio. "Ento me 
diga, Bruno. O que fazem voc e seu amigo imaginrio para torn-lo to especial?"
Bruno pensou no que responder. Percebeu que na verdade queria falar um pouco a 
respeito de Shmuel e que aquela era uma boa oportunidade para faz-lo, sem ter de contar a 
ela a verdade sobre sua existncia.
"Conversamos sobre muitas coisas", ele contou. "Eu falo de nossa casa em Berlim e 
sobre todas as outras casas e ruas e sobre as bancas de frutas e legumes e os cafs, e sobre como 
no se deve ir ao centro na tarde de sbado para no ser empurrado de poste em poste, e sobre 
Karl e Daniel e Martin e sobre a nossa amizade."
"Que interessante", disse Gretel sarcasticamente, pois acabara de completar treze anos 
e achava que o sarcasmo era o cmulo da sofisticao. "E o que ele lhe conta?"
"Ele me fala de sua famlia e da relojoaria sobre a qual morava e das aventuras pelas 
quais passou a caminho daqui e dos amigos que tinha e das pessoas que conhece por aqui e 
sobre os meninos que costumavam brincar com ele mas no brincam mais porque sumiram 
sem nem mesmo se despedir."
"Ele parece ser muito divertido", disse Gretel. "Queria que ele fosse o meu amigo 
imaginrio."
"E ontem ele me contou que o seu av no  visto h dias e ningum sabe onde est o 
av, o pai comea a chorar e o abraa com tanta fora que ele tem medo de ser apertado at a 
morte."
Quando Bruno chegou ao final da frase, percebeu que sua voz havia quase emudecido. 
Estas eram coisas que Shmuel havia de fato lhe contado, mas por alguma razo ele no havia 
entendido at aquele momento o quanto o amigo devia estar triste por causa delas. Quando 
Bruno as enunciou com a prpria voz, sentiu-se mal por no ter dito nada de encorajador para 
animar Shmuel; na verdade ele mudara de assunto para algo mais ftil, como as exploraes. 
Amanh direi que sinto muito, disse a si mesmo.
"Se o papai souber que voc fala com amigos imaginrios, voc estar encrencado", 
disse Gretel. Acho melhor parar com isso."
"Por qu?", perguntou Bruno.
"Porque no  saudvel", disse ela. "E o primeiro indcio de loucura."
Bruno concordou com a cabea. "No acho que consiga parar", disse ele aps uma 
longa pausa. "Acho que no quero parar."
"Bem, seja como for", disse Gretel, que ficava cada vez mais afvel, "se eu fosse voc, 
no contaria a ningum."
"Bem", disse Bruno, tentando fingir tristeza, "acho que voc est certa. Promete que 
no vai contar a ningum?"
"A ningum. S para a minha amiga imaginria."
Bruno engasgou. "Voc tambm tem uma?", ele perguntou, imaginando-a em outra 
parte da cerca, conversando com uma menina de sua idade, as duas passando horas juntas 
trocando sarcasmos.
"No", disse ela, rindo. "Pelo amor de Deus, eu j tenho treze anos! No posso agir feito 
uma criana, ainda que voc o faa."
E assim ela saiu do quarto, e Bruno pde ouvi-la falando com as bonecas no quarto do 
outro lado do corredor dando-lhes uma bronca por fazerem tamanha baguna enquanto ela 
no estava por perto e dizendo que no tinha escolha seno arrum-las novamente, como se 
no tivesse mais o que fazer.
"Certas pessoas!", disse ela em voz alta, antes de pr as mos  obra.
Bruno tentou voltar para o livro, mas havia perdido o interesse. Em vez disso, ficou 
olhando para chuva, perguntando-se se Shmuel, onde quer que estivesse, estaria pensando nele 
tambm e sentindo tanta falta de suas conversas quanto ele sentia.
ALGO QUE ELE NO DEVIA TER FEITO
Durante muitas semanas a chuva comeou e parou e comeou e parou, e Bruno e 
Shmuel no puderam se encontrar tanto quanto desejavam. Quando se encontraram, Bruno 
percebeu que estava preocupado com o amigo, pois ele parecia mais magro a casa dia, e o seu 
rosto, mais cinza. s vezes ele trazia consigo um pouco de po e queijo para levar a Shmuel, e 
conseguiu at mesmo esconder um pedao do bolo de chocolate no bolso, mas a caminhada da 
casa at o ponto na cerca onde os dois costumavam se encontrar era longa, e s vezes Bruno 
sentia fome no meio do caminho. Ele acabou descobrindo que uma mordida de bolo levava a 
outra, que por sua vez levava a outra e, quando restava apenas um bocado, sabia que no seria 
certo oferecer to pouco a Shmuel, porque apenas serviria para abrir-lhe o apetite sem 
satisfaz-lo.
O aniversrio do pai estava chegando, e, embora ele tivesse dito que no queria 
estardalhao nenhum, a me preparou uma festa para todos os oficiais que estavam servindo 
em Haja-Vista, e houve grande estardalhao nos preparativos. Toda vez que ela se sentava para 
fazer mais planos para a festa, o tenente Kotler estava ao seu lado para auxili-la, e os dois 
pareciam fazer listas e mais listas, muito mais do que seriam necessrias.
Bruno decidiu fazer sua prpria lista. Uma lista de todos os motivos pelos quais ele no 
gostava do tenente Kotler.
Antes de tudo, havia o fato de que ele nunca sorria e sempre parecia procurar algum 
para esfaquear de acordo com sua vontade.
Nas raras ocasies em que se dirigia a Bruno, tratava-o de "homenzinho", o que era 
simplesmente um desaforo, pois, como a me j afirmara, o menino ainda no tivera o seu 
estiro de crescimento.
Sem falar no fato de que ele estava sempre com a me na sala de estar fazendo piadas, 
das quais ela ria mais do que das piadas do pai.
Certa vez, quando estava observando o campo da janela de seu quarto, Bruno viu um 
cachorro se aproximar da cerca e comear a latir bem alto. Quando o tenente Kotler o ouviu, 
marchou direto para o co e atirou nele. E ainda havia todas as besteiras que vinham de Gretel 
sempre que ele estava por perto.
E Bruno ainda no se esquecera do que ocorrera naquela noite com Pavel, o servente 
que na verdade era mdico, e de como o jovem tenente havia ficado bravo.
Alm disso, sempre que o pai era chamado a Berlim para uma viagem e passava a 
noite fora, o tenente ficava na casa como se estivesse no comando:


estava l quando Bruno ia para a cama e estava de volta pela manh, antes mesmo de o 
menino acordar.
Havia muito mais razes pelas quais Bruno no gostava do tenente Kotler, mas estas 
foram as primeiras que lhe vieram  mente.
Na tarde anterior  festa de aniversrio, Bruno estava no seu quarto, com a porta 
aberta, quando ouviu o tenente Kotler chegando na casa e falando com algum, embora no 
ouvisse ningum responder. Alguns minutos mais tarde, quando estava descendo as escadas, 
ele escutou a voz da me passando instrues quanto ao que deveria ser feito e o tenente Kotler 
dizendo: "No se preocupe, este aqui sabe quais botas lamber". E depois deu uma horrvel 
gargalhada.
Bruno foi at a sala de estar com o novo livro que o pai havia lhe dado, chamado A ilha 
do tesouro, com a inteno de sentar-se por l durante uma ou duas horas para l-lo, mas, ao 
passar pelo corredor, deu de cara com o tenente Kotler, que estava saindo da cozinha.
"Ol, homenzinho", disse o soldado, caoando dele como de costume.
"Ol", disse Bruno, franzindo o cenho.
"O que est aprontando?"
Bruno olhou para ele e comeou a pensar em mais sete motivos para detest-lo. "Vou 
at ali para ler meu livro", disse ele, apontando para a sala de estar.
Sem dizer uma palavra, Kotler tomou o livro das mos de Bruno e se ps a folhe-lo. 
"A ilha do tesouro", disse ele. "E sobre o qu?"
"Bem, h uma ilha", disse Bruno lentamente, para certificar-se que o soldado estava 
acompanhando. "E h um tesouro nela."
"Isso eu poderia ter adivinhado", disse Kotler, olhando para Bruno como se houvesse 
coisas que faria ao menino se fosse filho dele e no o filho do comandante. "Diga algo a respeito 
dele que eu ainda no saiba."
"H um pirata", disse Bruno. "Chamado Long John Silver. E um menino chamado Jim 
Hawkins."
"Um menino ingls?", perguntou Kotler.
"Sim", disse Bruno.
"Hmpf", grunhiu Kotler.
Bruno encarou-o e pensou quanto tempo demoraria at que recebesse o livro de volta. 
O soldado no parecia interessado na histria, mas quando Bruno estendeu a mo para peg-
lo, ele afastou o livro do menino.
"Desculpe", ele disse, deixando o livro ao alcance de Bruno; contudo, quando este 
estendeu a mo para peg-lo, ele afastou o livro novamente. "Oh, eu sinto muitssimo", disse 
Kotler, repetindo o gesto, mas desta feita Bruno tomou-o da mo do soldado mais rpido do 
que este poderia afast-lo.
"Rapidinho, hein?", murmurou entre os dentes o tenente Kotler.
Bruno tentou passar por ele, porm por algum motivo o tenente Kotler parecia querer 
conversar com o menino naquele dia.
"Estamos todos preparados para a festa amanh?", ele perguntou.
"Bem, eu estou", disse Bruno, que estivera passando mais tempo na companhia de 
Gretel ultimamente e desenvolvera o gosto pelo sarcasmo. "No posso falar por voc."
"Haver muita gente aqui", disse o tenente Kotler, respirando pesado e olhando ao 
redor como se aquela fosse a sua casa, e no a de Bruno. "Ficaremos bem comportadinhos, no 
?"
"Bem, eu ficarei", disse Bruno. "No posso falar por voc."
"Voc tem muito a dizer para um homenzinho to pequeno", disse o tenente Kotler.
Bruno estreitou os olhos e desejou ser mais alto, mais forte e oito anos mais velho. Uma 
bola de raiva explodiu dentro dele e o fez desejar que tivesse a coragem de dizer exatamente o 
que queria dizer. Ele decidiu que uma coisa era ser mandado pela me e pelo pai - o que era 
perfeitamente razovel e de se esperar -, mas outra coisa completamente diferente era ser 
mandado por outra pessoa. Mesmo que fosse algum com um ttulo importante como 
"tenente".
"Oh, Kurt, querido, voc ainda est aqui", disse a me, saindo da cozinha e vindo na 
direo deles. "Tenho um pouco de tempo livre agora se... Oh!", disse ela ao notar Bruno ali de 
p. "Bruno! O que est fazendo aqui?"
"Estava indo at a sala de estar para ler meu livro", disse Bruno. "Ao menos era o que 
eu estava tentando fazer."
"Bem, entre na cozinha por um instante", disse ela. "Eu preciso ter uma conversa a ss 
com o tenente Kotler."
Fumegando de raiva, Bruno entrou na cozinha e teve a maior surpresa de toda a sua 
vida. Ali, sentado  mesa, muito longe do outro lado da cerca, estava Shmuel. Bruno mal podia 
acreditar nos prprios olhos.
"Shmuel!", disse ele. "O que voc est fazendo aqui?"
Shmuel ergueu os olhos e o seu rosto aterrorizado deu lugar a um grande sorriso 
quando viu o amigo ali com ele. "Bruno!", ele disse.
"O que voc est fazendo aqui?", repetiu Bruno, pois, embora ainda no entendesse 
exatamente o que acontecia do outro lado da cerca, havia algo a respeito das pessoas que 
ficavam l que fazia Bruno pensar que elas no deveriam estar ali na casa dele.
"Ele me trouxe aqui", disse Shmuel.
"Ele?", perguntou Bruno. "Est falando do tenente Kotler?" "Sim. Ele disse que havia um 
servio para mim aqui." E, quando Bruno olhou para baixo, viu sessenta e quatro pequenas 
taas, do tipo que a me usava para tomar seus tragos de xerez medicinal,
dispostas sobre a mesa da cozinha, e ao lado delas uma tigela de gua quente e ensaboada e 
muitos guardanapos de papel. "Mas o que voc est fazendo?"
"Eles me pediram para lustrar as taas", disse Shmuel. "Disseram que precisavam de 
algum com dedos pequenos."
Como se quisesse provar algo que Bruno j sabia, ele estendeu a mo, e Bruno no 
pde deixar de reparar que era como a mo do esqueleto de mentira que herr Liszt trouxera 
certo dia quando estavam estudando a anatomia humana.
"Eu nunca tinha reparado antes", disse ele numa voz incrdula, quase para si mesmo.
"Nunca tinha reparado no qu?", perguntou Shmuel.
Em resposta, Bruno estendeu a prpria mo de maneira que as pontas de seus dedos 
mdios quase se tocaram. "Nossas mos", disse ele. "So to diferentes. Veja!"
Os dois meninos olharam para baixo ao mesmo tempo e a diferena era evidente. 
Embora Bruno fosse pequeno para idade, e certamente no era gordo, sua mo parecia 
saudvel e cheia de vida. As veias no eram visveis atravs da pele, os dedos no eram pouco 
mais do que galhos retorcidos e moribundos. A mo de Shmuel, entretanto, contava uma 
histria muito diferente.
"Como ficou assim?", perguntou Bruno.
"No sei", disse Shmuel. "Antigamente ela era mais parecida com a sua, mas eu no 
percebi a mudana. Todos do meu lado da cerca so assim agora."
Bruno franziu o cenho. Pensou a respeito de todas aquelas pessoas de pijama listrado e 
imaginou o que estaria acontecendo em Haja-Vista e, o que quer que fosse, devia ser uma m 
idia, uma vez que fazia as pessoas ficarem com um aspecto to debilitado.
Nada daquilo fazia sentido para ele. No querendo mais olhar para a mo de Shmuel, 
Bruno deu meia-volta e abriu a geladeira, procurando descobrir alguma coisa para comer. 
Havia meia galinha recheada que sobrara do almoo, e seus olhos faiscaram deleitados pela 
viso, pois havia pouqussimas coisas na vida de que ele gostasse mais do que galinha fria com 
recheio de slvia e cebola. Pegou uma faca na gaveta e cortou para si alguns pedaos 
respeitveis, cobrindo-os com o recheio, antes de voltar a ateno novamente para o amigo.
"Fico muito contente por v-lo aqui", disse ele, falando de boca cheia. "Pena que voc 
tem que lustrar estas taas, seno eu poderia mostrar -lhe o meu quarto."
"Ele me disse para no sair desta cadeira ou haveria encrenca."
"Eu no daria muita bola se fosse voc", disse Bruno, tentando parecer mais corajoso 
do que realmente era. "Esta no  a casa dele,  a minha, e quando meu pai est fora sou eu 
quem manda aqui. Acredita que ele nunca leu A ilha do tesouro?"
Shmuel parecia no estar ouvindo o que o outro dizia; seus olhos estavam focados nos 
pedaos de galinha recheada que Bruno lanava casualmente  boca. Aps um instante, Bruno 
se deu conta de que o amigo estava olhando para a sua comida e imediatamente sentiu-se 
culpado.
"Desculpe-me, Shmuel", disse ele rapidamente. "Eu deveria ter lhe oferecido um pouco 
de galinha tambm. Est com fome?"
"Esta  uma pergunta que voc nunca precisa me fazer", disse Shmuel, que, apesar de 
no ter conhecido Gretel, tambm sabia alguma coisa de sarcasmo.
"Espere um pouco, vou servir umas fatias para voc", disse Bruno, abrindo a geladeira 
e cortando mais trs pedaos generosos.
"No, se ele volta...", disse Shmuel, virando a cabea rapidame nte, olhando ora para 
Bruno, ora para a porta.
"Se quem voltar? Est falando do tenente Kotler?"
"Eu s vim lustrar as taas", ele disse, olhando desesperado para a bacia de gua diante 
de si e para as fatias de galinha que Bruno estava oferecendo.
"Ele no vai se importar", disse Bruno, que estava confuso por causa da evidente 
ansiedade de Shmuel. "E apenas comida."
"No posso", disse Shmuel, balanando a cabea e dando a impresso de que ia chorar. 
"Ele vai voltar, eu sei que vai", prosseguiu o menino, as frases rpidas e embaralhadas. "Eu 
devia ter comido quando voc ofereceu pela primeira vez, agora  tarde demais, se eu aceitar 
ele vai voltar e... "
"Shmuel! Tome!", disse Bruno, dando um passo adiante e pondo as fatias na mo do 
amigo. "Apenas coma. Tem muito mais para a hora do ch -no precisa se preocupar com 
isso."
O menino olhou primeiro para a comida em sua mo e depois para Bruno com olhos 
arregalados e agradecidos, porm aterrorizados. Ele deu uma ltima olhada na direo da 
porta e ento pareceu ter tomado uma deciso, porque meteu os trs pedaos de uma s vez na 
boca e os engoliu em exatos vinte segundos.
"Bom, tambm no precisa comer to depressa", disse Bruno. "Assim vai passar mal."
"No me importo", disse Shmuel, sorrindo levemente. "Obrigado,
Bruno."
Bruno sorriu de volta e estava prestes a oferecer-lhe mais um pouco de comida, quando 
o tenente Kotler reapareceu na cozinha e se deteve ao ver os dois meninos conversando. Bruno 
olhou para ele, sentindo a atmosfera fica tensa, vendo os ombros de Shmuel se abaixarem 
enquanto o menino procurava outra taa e comeava a lustr-la.
Ignorando Bruno, o tenente Kotler marchou at Shmuel e ficou olhando 
ameaadoramente para ele.
"O que est fazendo?", gritou ele. "Eu no mandei lustrar as taas?"
Shmuel acenou com a cabea rapidamente e comeou a tremer enquanto pegava outro 
guardanapo e o mergulhava na gua.
"Quem disse que voc podia falar nesta casa?", prosseguiu Kotler. "Ousa me 
desobedecer?"
"No, senhor", disse Shmuel em voz baixa. "Desculpe-me, senhor."
Ele ergueu os olhos para o tenente Kotler, que franziu o cenho, projetando-se 
levemente para a frente e inclinando a cabea ao examinar o rosto do garoto. "Voc andou 
comendo?", perguntou numa voz baixssima, como se nem pudesse acreditar naquilo.
Shmuel balanou a cabea.
"Andou comendo, sim", insistiu o tenente Kotler. "Roubou alguma coisa daquela 
geladeira?"
Shmuel abriu a boca e a fechou. Abriu-a novamente, procurando as palavras, mas no 
as encontrou. Ele olhou para Bruno, seus olhos implorando por ajuda.
"Responda!", gritou o tenente Kotler. "Roubou alguma coisa daquela geladeira?"
"No, senhor. Foi ele quem me deu", disse Shmuel, as lgrimas se juntando em seus 
olhos enquanto lanava um olhar de soslaio para Bruno. "Ele  meu amigo", acrescentou.
"Seu...?", comeou o tenente Kotler, olhando confuso para Bruno do outro lado da 
cozinha. Ele hesitou. "Como assim, ele  seu amigo?", perguntou. "Conhece este menino, 
Bruno?"
Bruno abriu a boca e tentou se lembrar de como eram os movimentos quando se quer 
dizer a palavra "sim". Ele jamais vira algum to aterrorizado quanto Shmuel naquele instante 
e queria dizer a coisa certa para melhorar a situao, mas ento percebeu que no conseguia, 
pois estava to aterrorizado quanto o amigo.
"Conhece este menino?", repetiu Kotler numa voz mais alta. "Esteve conversando com 
os prisioneiros?"
"Eu... ele estava aqui quando entrei", disse Bruno. "Estava limpando as taas."
"No foi o que eu perguntei", disse Kotler. "J o viu antes? Conversou com ele? Por que 
ele diz que vocs so amigos?"
Bruno queria poder fugir. Ele odiava o tenente Kotler, que agora avanava sobre ele, e 
tudo o que Bruno conseguiu se lembrar foi da tarde em que vira o tenente atirar no cachorro e 
da noite em que ele ficara to bravo com Pavel que...
"Diga, Bruno!", gritou Kotler com o rosto vermelho. "No perguntarei pela terceira 
vez."
"Nunca falei com ele", disse Bruno imediatamente. "Nunca o vi antes em minha vida. 
No o conheo."
O tenente Kotler balanou a cabea e pareceu ficar satisfeito com a resposta. 
Lentamente ele voltou a cabea para olhar para Shmuel, que no estava mais chorando; o 
menino apenas olhava para o cho, dando a impresso de que tentava convencer sua alma a 
no mais habitar o pequeno corpo e a fugir pela janela e voar bem alto at o cu, indo o mais 
longe possvel.
"Termine de lustrar estas taas", disse o tenente numa voz muito baixa, to baixa que 
Bruno quase no pde ouvi-lo. Foi como se toda a sua raiva tivesse se transformado em outra 
coisa. No o oposto, mas em algo inesperado e assustador. "E depois eu virei busc-lo e o levarei 
de volta ao campo, onde teremos uma conversa sobre o que acontece com meninos que 
roubam. Entendido?"
Shmuel fez que sim com a cabea, pegou outro guardanapo e comeou a lustrar outra 
taa; Bruno observou como seus dedos tremiam e soube quanto medo ele tinha de acabar 
quebrando uma delas. Parecia que seu corao ia afundar, mas, por mais que quisesse, no 
conseguia desviar os olhos.
"Venha, homenzinho", disse o tenente Kotler, indo na direo de Bruno e colocando 
um brao pouco amigvel ao redor do ombro do garoto. "V at a sala de estar ler o seu livro e 
deixe o pequeno... terminar seu trabalho." Ele usou a mesma palavra que usara para se referir a 
Pavel quando o mandou  procura do pneu.
Bruno assentiu, deu meia-volta e saiu da cozinha sem olhar para trs. Seu estmago 
estava revirado por dentro, e ele pensou por um instante que fosse vomitar. Jamais se sentira 
to envergonhado em toda sua vida; nunca imaginou que seria capaz de se comportar com 
tamanha crueldade. Perguntou-se como poderia um menino que pensava ser uma boa pessoa 
agir de maneira to covarde em relao a um amigo. Ele se sentou na sala de estar durante 
muitas horas, mas no conseguiu se concentrar no livro nem ousou voltar  cozinha at bem 
mais tarde, quando o tenente Kotler j havia voltado e levado Shmuel de novo ao campo.
Nas tardes seguintes, Bruno retornou ao ponto da cerca onde os dois costumavam se 
encontrar, mas Shmuel nunca mais apareceu. Depois de quase uma semana ele se convenceu 
de que o que havia feito fora to terrvel que jamais seria perdoado, porm no stimo dia ficou 
extasiado ao ver Shmuel esperando por ele, sentado de pernas cruzadas no cho, como sempre, 
e olhando para a poeira debaixo de si.
"Shmuel', disse ele, correndo na direo do amigo e sentando -se, quase chorando de 
alvio e arrependimento. "Eu sinto tanto, Shmuel. No sei por que fiz aquilo. Diga que me 
perdoa."
"Tudo bem", disse Shmuel, olhando para ele. Seu rosto estava todo machucado e 
Bruno fez uma careta, por um instante se esquecendo das desculpas que estava pedindo.
"O que aconteceu com voc?", ele perguntou, mas no esperou pela resposta. "Foi a 
bicicleta?" Porque uma vez isso aconteceu comigo l em Berlim h uns dois anos. Eu ca da 
bicicleta quando estava indo rpido demais e fiquei todo roxo durante semanas. Est doendo?"
"Nem sino mais", disse Shmuel.
"Parece que di."
"J no sinto mais nada", disse Shmuel.
"Bem, sinto muito pela semana passada", disse Bruno. "Eu odeio aquele tenente Kotler. 
Ele pensa que  o manda-chuva, mas no ." Bruno hesitou por um instante, sem querer perder 
o fio da meada. Sentiu que deveria dizer mais uma vez e com muita sinceridade. "Eu sinto 
muitssimo, Shmuel", disse numa voz bem clara. "No posso acreditar que no contei a ele a 
verdade. Nunca desapontei um amigo dessa maneira antes. Shmuel, estou envergonhado de 
mim mesmo."
Quando Bruno disse isso, Shmuel sorriu e balanou a cabea e Bruno soube que estava 
perdoado. Ento Shmuel fez algo que nunca havia feito antes: ele ergueu a parte de baixo da 
cerca como sempre fazia quando o amigo lhe trazia comida, mas desta vez ele estendeu a mo 
por baixo e a manteve l, esperando at que Bruno fizesse o mesmo. Os dois meninos 
apertaram as mos e sorriram um para o outro.
Foi a primeira vez que eles se tocaram.
O CORTE DE CABELO
J fazia quase um ano desde o dia em que Bruno chegara em casa e encontrara Maria 
empacotando suas coisas, e as suas memrias da vida em Berlim haviam se desvanecidos quase 
completamente. Quando tentava se lembrar, sabia que Karl e Martin eram dois de seus trs 
melhores amigos, mas no conseguia mais se lembrar do nome do terceiro. E ento aconteceu 
uma coisa que fez com que ele passasse dois dias longe de Haja-Vista e retornasse  casa 
antiga: a av tinha morrido e a famlia fez a viagem de volta para o funeral.
Enquanto esteve l, Bruno se deu conta de que no era mais to pequeno, pois agora 
conseguia ver por cima das coisas de um modo que no conseguia antes e, quando 
pernoitaram na antiga casa, ele pde olhar atravs da janela, no ltimo andar, e ver Berlim sem 
ter que ficar na ponta dos ps.
Bruno no vira mais a av desde que deixaram Berlim, mas pensava nela quase todos 
os dias. As coisas de que mais se lembrava eram os esquetes que ela, ele e Gretel encenavam 
durante o Natal e os aniversrios, e como ela sempre tinha o figurino certo para qualquer papel 
que se fosse representar. Quando pensava que eles nunca mais poderiam fazer aquilo de novo, 
Bruno ficara realmente muito triste.
Os dois dias que passaram em Berlim tambm foram muito tristes. Houve o funeral, e 
Bruno e Gretel e o pai e a me e o av sentaram-se na primeira fila, o pai vestindo seu mais 
importante uniforme, aquele engomado e passado cheio de condecoraes. O pai estava 
especialmente triste, a me contou a Bruno, porque havia brigado com a av e eles no fizeram 
as pazes antes de ela morrer.
Muitas coroas funerrias foram entregues na igreja, e o pai ficou muito orgulhoso em 
saber que uma delas fora mandada pelo prprio Fria; no entanto, quando a me ficou 
sabendo, disse que a av se reviraria no tmulo se soubesse daquilo.
Bruno ficou quase feliz de voltar a Haja-Vista. A casa ali j se tornara o seu lar e ele 
havia parado de se preocupar se ela tinha cinco andares ou apenas trs, e no se importava 
tanto com os soldados indo e vindo como se fossem os donos do lugar. Ele lentamente se deu 
conta de que as coisas no eram to ms assim por ali, principalmente depois de ter conhecido 
Shmuel. Bruno sabia que havia muitas coisas com as quais se alegrar, como, por exemplo, o 
fato de que o pai e a me pareciam mais felizes, e a me no precisava de tantas sonecas pela 
tarde nem de tantos tragos do xerez medicinal. E Gretel estava passando por uma nova fase - 
nas palavras da me - e sua tendncia era ficar fora do caminho dele.


Havia tambm o fato de o tenente Kotler ter sido transferido para longe de Haja-Vista, 
portanto ele no estava mais por perto para atormentar Bruno e irrit-lo o tempo todo. (A sua 
partida ocorrera subitamente e causara grande gritaria entre a me e o pai durante a noite, mas 
ele se foi, disso no havia dvida, e no ia voltar mais; Gretel ficou inconsolvel.) Este era outro 
motivo de felicidade: ningum mais o chamava de "homenzinho".
Mas o melhor de tudo  que ele tinha um amigo chamado Shmuel.
Ele adorava caminhar ao longo da cerca todas as tardes e ficou satisfeito em ver que o 
amigo parecia muito mais feliz ultimamente, e os seus olhos no estavam mais to fundos, 
embora o corpo ainda fosse ridculo de to magro, e o rosto de uma desagradvel tonalidade 
cinza.
Certo dia, enquanto estavam sentados no lugar de sempre, um de frente para o outro, 
Bruno comentou: "Esta  a amizade mais estranha que j
tive."
"Por qu?", perguntou Shmuel.
"Porque com todos os outros meninos com os quais eu fiz amizade eu podia brincar", 
respondeu ele. "E ns nunca podemos brincar juntos. Tudo o que podemos fazer  ficar aqui 
sentados conversando."
"Eu gosto de ficar aqui sentado conversando", disse Shmuel.
"Bom, eu tambm gosto,  claro", disse Bruno. "Mas  uma pena que no possamos 
fazer algo mais divertido de vez em quando. Talvez explorar um pouco. Ou jogar futebol. 
Nunca sequer nos vimos sem esta cerca de arame no caminho."
Bruno freqentemente fazia comentrios desse tipo porque preferia fingir que o 
incidente de alguns meses antes, quando ele negou ser amigo de Shmuel, jamais tivesse 
acontecido. Aquilo ainda o assombrava e o fazia sentir-se mal a respeito de si mesmo, embora 
Shmuel, para seu crdito, parecesse ter esquecido de tudo completamente.
"Quem sabe um dia ns possamos", disse Shmuel. "Se  que vo nos deixar sair."
Bruno comeou a pensar mais e mais sobre os dois lados da cerca e o motivo de sua 
existncia. Ele pensou em perguntar  me e ao pai a respeito dela, mas suspeitava que eles ou 
ficariam bravos por mencion-la ou lhe diriam algo desagradvel sobre Shmuel e sua famlia, e 
ento ele decidiu fazer algo bastante incomum. Decidiu conversar com o Caso Perdido.
O quarto de Gretel havia mudado consideravelmente desde a ltima vez em que ele 
estivera l. No havia uma nica boneca  vista. Certa tarde, mais ou menos um ms antes, 
perto da poca em que o tenente Kotler se foi de Haja-Vista, Gretel decidira que no gostava 
mais de bonecas e as colocou todas dentro de quatro grandes sacolas e as jogou fora. Em seu 
lugar havia pendurado mapas da Europa que o pai lhe dera, e todo dia ela espetava pequenos 
pinos sobre eles, os quais se movia constantemente depois de consultar o jornal do dia. Bruno 
pensou que talvez a irm estivesse enlouquecendo. Ainda assim, ela no o provocava nem 
incomodava tanto quanto antes, o que o fez pensar que talvez no fosse m idia conversar 
com ela.
"Ol", disse ele, batendo educadamente na porta, pois sabia como ela ficava brava 
quando ele simplesmente ia entrando.
"O que voc quer?", perguntou Gretel, que estava sentada  cmoda, experimentando 
novos penteados.
"Nada", disse Bruno.
"Ento v embora."
Bruno balanou a cabea, mas entrou do mesmo jeito e sentou-se na lateral da cama. 
Gretel observou-o com o canto dos olhos, mas no disse nada.
"Gretel", disse ele afinal, "posso perguntar uma coisa?" "Se for rpido, 
pode", disse ela.
"Tudo aqui em Haja-Vista", comeou ele, mas ela o interrompeu imediatamente.
"No  Haja-Vista, Bruno", disse Gretel com raiva, como se fosse o pior erro jamais 
cometido na histria da humanidade. "Por que voc no consegue pronunciar direito?"
"O nome  Haja-Vista", protestou ele. "No ", disse ela, pronunciando corretamente o 
nome do campo para ele.
Bruno franziu o semblante e deu de ombros ao mesmo tempo. "Pois foi o que eu disse", 
disse ele.
"No foi, no. Seja como for, no vou discutir com voc", disse Gretel, j perdendo a 
pacincia, coisa que ela nunca teve muita. "O que , afinal? O que quer saber?"
"Quero saber sobre a cerca", disse ele com firmeza, decidindo que essa era a coisa mais 
importante para comeo de conversa. "Quero saber por que est l."
Gretel voltou-se na cadeira e olhou-o com curiosidade. "Quer dizer que no sabe?", 
perguntou ela.
"No", disse Bruno. "No entendo por que no podemos ir ao outro lado. O que h de 
errado conosco a ponto de no podermos ir at o outro lado da cerca e brincar?"
Gretel encarou-o e ento comeou a rir, parando apenas quando percebeu que Bruno 
estava falando absolutamente srio.
"Bruno", disse ela numa voz infantil, como se aquilo fosse a coisa mais bvia do 
mundo, "a cerca no est l para nos impedir de ir ao outro lado.  para impedi-los de virem 
at aqui."
Bruno avaliou a resposta, entretanto ela no melhorou seu entendimento. "Mas por 
qu?", perguntou ele.
"Porque eles tm que ser mantidos juntos", explicou Gretel. "Com suas 
famlias, voc quer dizer?"
"Bem, sim, com suas famlias. Mas principalmente com a sua prpria
laia."
"Como assim, sua prpria laia?"
Gretel suspirou e balanou a cabea. "Com os outros judeus, Bruno. No sabia disso?  
por isso que precisam ficar juntos. Eles no podem se misturar com a gente."
"Judeus", disse Bruno, testando a nova palavra. Ele bem que gostou do som. "Judeus", 
repetiu ele. "Aquelas pessoas todas do outro lado da cerca... so judeus."
"Sim,  isso mesmo", disse Gretel.
"E ns, somos judeus?"
Gretel abriu a boca espantada, como se tivesse recebido um tapa no rosto. "No, 
Bruno", disse ela. "Ns absolutamente no somos judeus. E voc no devia sequer dizer uma 
coisa dessas."
"Mas por que no? O que ns somos, ento?"
"Ns somos...", comeou Gretel, mas ento teve que, parar e pensar a respeito. 
"Somos...", repetiu, ainda sem saber qual era a resposta para essa pergunta. "Bem, no somos 
judeus", disse ela afinal.
"J sei que no somos", disse Bruno, frustrado. "Estou perguntando: j que no somos 
judeus, o que ns somos ento?"
"Somos o contrrio", disse Gretel, respondendo rapidamente e parecendo mais 
satisfeita com esta resposta. "Sim,  isso. Ns somos o contrrio."
"Certo", disse Bruno, feliz porque finalmente esclareceu o problema. "E o contrrio 
mora deste lado da cerca, e os judeus, daquele lado."
"E isso mesmo, Bruno."
"Os judeus no gostam do contrrio, ento?"
"No, estpido, somos ns que no gostamos deles."
Bruno enrugou a testa. Gretel j fora repreendida incontveis vezes por chamar o 
irmo de estpido, e mesmo assim insistia.
"Ento, por que no gostamos deles?", perguntou ele.
"Porque so judeus", disse Gretel.
"Entendi. E o contrrio e os judeus no se do bem."
"No, Bruno", disse Gretel, mas disse-o lentamente porque acabara de descobrir algo 
esquisito no cabelo e estava examinando aquilo com toda ateno.
"Bem, ser que no d para algum cham-los para conversar e... "
Bruno foi interrompido pelo som de Gretel soltando um grito agudo, que acordou a 
me de sua soneca vespertina e a trouxe correndo at o quarto querendo descobrir qual de seus 
filhos assassinara o outro.
Enquanto experimentava diferentes penteados, Gretel encontrou um minsculo ovo, 
do tamanho da cabea de um alfinete. Ela o mostrou para a me, que vasculhou o cabelo dela, 
separando rapidamente algumas mechas, antes de marchar at Bruno e fazer o mesmo com 
ele.
"Oh, eu no posso acreditar", disse ela, brava. "Eu sabia que aconteceria uma coisa 
dessas num lugar como este."
Ela descobriu que tanto Gretel como Bruno tinham piolhos nos cabelos. A menina 
precisou de um tratamento com um xampu especial que tinha cheiro muito ruim e depois ficou 
horas em seu quarto, chorando e chorando.
Bruno tambm precisou do xampu, mas ento o pai decidiu que seria melhor para ele 
comear do zero e pegou uma navalha e raspou todo o cabelo do menino, o que o fez chorar. 
No demorou muito, e ele detestou ver o cabelo flutuando da cabea e aterrissando no cho aos 
seus ps, mas o pai disse que aquilo tinha de ser feito.
Mais tarde Bruno foi olhar no espelho do banheiro e se sentiu mal. Sua cabea toda 
parecia deformada agora que estava careca, e os olhos davam a impresso de ser grandes 
demais para o rosto. Ele quase teve medo do prprio reflexo.
"No se preocupe", encorajou o pai. "Vai crescer de novo. Basta esperar algumas 
semanas."
"Foi toda essa sujeira daqui que provocou isto", disse a me. "Se certas pessoas ao 
menos percebessem o efeito que este lugar est tendo sobre todos
ns."
Quando se viu no espelho, Bruno no pde evitar de pensar em como estava parecido 
com Shmuel, e ele se perguntou se as pessoas do outro lado da cerca teriam piolhos tambm e 
se era por isso que todas tinham as cabeas raspadas.
Ao ver o amigo no dia seguinte, Shmuel comeou a rir da aparncia de Bruno, o que 
no ajudou muito a restaurar-lhe a autoconfiana abalada.
"Agora fiquei parecido com voc", disse Bruno, triste, como se aquela fosse uma coisa 
terrvel de se admitir.
"S que mais gordo", acrescentou Shmuel.
A ME CONSEGUE O QUE QUERIA
No decorrer das semanas seguintes a me parecia cada vez mais descontente com a 
vida em Haja-Vista, e Bruno entendia perfeitamente quais eram os seus motivos. Afinal, 
quando eles chegaram, o menino havia detestado o lugar porque era muito diferente da antiga 
casa e no tinha coisas como os trs melhores amigos da vida toda. Mas tudo aquilo mudara ao 
longo do tempo, principalmente por causa de Shmuel, que era mais importante para ele do que 
Karl ou Daniel ou Martin jamais haviam sido. Porm a me no tinha o seu Shmuel. No havia 
ningum com quem pudesse conversar, e o nico com quem ela travara uma amizade ainda 
que passageira - o jovem tenente Kotler - fora transferido para outro lugar.
Embora ele se esforasse para no ser um daqueles meninos que gastavam o tempo 
olhando pelo buraco das fechaduras e escutando conversas pelas chamins, certa tarde Bruno 
passou pelo escritrio do pai, num momento em que a me e o pai estavam l dentro, tendo 
uma das suas conversas. Ele no queria ser enxerido, mas os dois estavam falando em voz alta 
e o menino no pde deixar de ouvir o que diziam.
" horrvel", dizia a me. "Simplesmente horrvel. Eu no posso mais agentar."
"No temos escolha", disse o pai. "Esta  a tarefa que nos foi designada e... "
"No, esta  a tarefa que lhe foi designada", disse a me. "Designada a voc, no a ns. 
Fique aqui se quiser."
"E o que as pessoas vo pensar", perguntou o pai, "se eu permitir que voc e as crianas 
voltem a Berlim sem mim? Faro perguntas quanto ao meu comprometimento com o trabalho 
feito aqui."
"Trabalho?", gritou a me. "Chama isto de trabalho?"
Bruno no ouviu muito mais porque as vozes estavam se aproximando da porta e 
sempre havia a chance de que a me sasse do escritrio de uma vez em busca de um trago do 
xerez medicinal, e ento ele correu escada acima. Ainda assim, ouviu o bastante para saber que 
havia a chance de eles voltarem a Berlim e, para sua surpresa, no soube como se sentir a 
respeito da idia.
Havia uma parte dele que se lembrava do quanto ele gostava da sua antiga vida l, 
mas tantas coisas estariam mudadas agora. Karl e os outros dois amigos cujos nomes no 
conseguia mais lembrar provavelmente j o teriam esquecido quela altura. A av estava morta 
e eles quase nunca tinham notcias do av, que, segundo o pai havia ficado senil.


Por outro lado, ele havia se acostumado com a vida em Haja-Vista: no se incomodava 
com herr Liszt, tinha ficado muito mais prximo de Maria do que jamais fora em Berlim, 
Gretel ainda estava passando por uma fase e ficava fora do caminho dele (e tambm no 
parecia mais um Caso to Perdido assim) e suas conversas com Shmuel s tardes o enchiam de 
alegria.
Bruno no sabia como se sentir e decidiu que, acontecesse o que acontecesse, aceitaria a 
deciso sem se queixar.
Nada mudou durante algumas semanas; a vida prosseguiu normalmente. O pai 
passava a maior parte do tempo no escritrio ou do outro lado da cerca. A me passava os dias 
em silncio e tirava cada vez mais sonecas vespertinas, algumas nem mesmo  tarde, mas antes 
do almoo, e Bruno estava preocupado com a sua sade porque nunca tinha visto algum 
precisar de tantos tragos de xerez medicinal quanto ela. Gretel ficava em seu quarto, 
concentrada nos muitos mapas que havia colado pelas paredes e consultando os jornais durante 
horas antes de mover um pouco os seus pinos. (Herr Liszt ficava muito satisfeito em v-la 
fazendo isso.)
E Bruno fazia exatamente o que lhe pediam e no criava confuso e se divertia com o 
fato de ele ter um amigo secreto sobre o qual ningum sabia.
Ento um dia o pai convocou Bruno e Gretel a seu escritrio e informou-os sobre as 
mudanas que estavam por vir.
"Sentem-se, crianas", disse ele , indicando duas grandes poltronas de couro nas quais 
eles habitualmente eram proibidos de se sentar quando visitaram o escritrio do pai, por causa 
de suas mos sujas. O pai sentou-se do outro lado da escrivaninha. "Decidimos fazer algumas 
mudanas", prosseguiu ele, parecendo triste enquanto falava. "Digam-me uma coisa: vocs so 
felizes aqui?"
"Sim, pai,  claro", disse Gretel.
"Certamente, pai", disse Bruno.
"E no sentem falta nenhuma de Berlim?"
As crianas fizeram uma pausa e se entreolharam, perguntando-se qual dos dois iria se 
comprometer com uma primeira resposta. "Bem, eu sinto muita falta", disse Gretel afinal. "No 
me importaria de ter algumas amigas novamente."
Bruno sorriu, pensando no seu segredo.
"Amigas", disse o pai, acenando com a cabea. "Sim, muitas vezes pensei nisso. Aqui 
deve ter sido solitrio para voc em alguns momentos."
"Muito solitrio", disse Gretel numa voz determinada.
"E voc, Bruno?", perguntou o pai, agora olhando para ele. "Sente falta de seus 
amigos?"
"Bem, sim", respondeu ele, pensando cuidadosamente na resposta. "Mas acho que 
sentiria falta das pessoas aonde quer que eu fosse." Era uma referncia indireta que ele fazia a 
Shmuel, mas no queria ter de ser mais explcito.
"Mas voc gostaria de voltar a Berlim?", perguntou o pai. "Se houvesse a 
oportunidade?"
"Todos ns?", perguntou Bruno.
O pai deu um suspiro profundo e balanou a cabea. "Mame, Gretel e voc. De volta 
a nossa antiga casa em Berlim. Gostaria de voltar para l?"
Bruno pensou a respeito. "Bom, eu no gostaria se voc no estivesse l", disse ele, pois 
era a verdade.
"Prefere ficar aqui comigo?"
"Prefiro que ns quatro fiquemos juntos", disse ele, relutantemente incluindo Gretel no 
"ns". "Seja em Berlim ou em Haja-Vista.
"Oh, Bruno!", disse Gretel, exasperada, o que ele no soube dizer se era porque ele 
estaria estragando os planos dela de voltar  cidade ou se era porque (de acordo com ela) 
continuava pronunciando errado o nome da casa atual.
"Bem, no momento temo que isso seja impossvel", disse o pai. "Infelizmente o Fria 
no vai me dispensar da tarefa no momento. Sua me, por outro lado, acha que seria uma boa 
hora para vocs trs voltarem a Berlim e reabrirem a casa, e quando eu penso a respeito... " Ele 
parou por um instante e olhou para a janela  sua esquerda - a janela que tinha vista para o 
campo do outro lado da cerca. "Quando penso a respeito, talvez ela esteja certa. Talvez este no 
seja um lugar para crianas."
"H centenas de crianas aqui", disse Bruno, sem pensar realmente nas palavras antes 
de diz-las. "S que elas ficam do outro lado da cerca."
Um silncio se seguiu a esse comentrio, mas no foi um silncio normal, quando por 
acaso no h ningum falando. Era como se fosse um silncio muito barulhento. O pai e Gretel 
ficaram olhando para ele, que piscou os olhos, surpreso.
"Como assim, h centenas de crianas do outro lado?", perguntou o pai. "O que voc 
sabe sobre o que acontece daquele lado?"
Bruno abriu a boca para falar, porm teve medo de se meter em encrenca se revelasse 
demais. "Eu as vejo da janela do meu quarto", disse afinal. "Esto muito longe,  claro, mas 
parecem centenas. Todas vestindo os mesmos pijamas listrados."
"Os pijamas listrados, sim", disse o pai, acenando afirmativamente. "E voc as esteve 
observando, no ?"
"Bem, eu as vi", disse Bruno. "No sei se  a mesma coisa."
O pai sorriu. "Muito bem, Bruno", disse ele. "E voc est certo, no  bem a mesma 
coisa." Ele hesitou novamente e ento acenou com a cabea, como se tivesse tomado uma 
deciso final.
"No, ela est certa", disse ele, falando em voz alta, mas sem olhar para Gretel ou 
Bruno. "Ela tem toda a razo. Vocs j passaram tempo demais aqui.  hora de irem todos 
para casa."
E ento a deciso foi tomada. Mandaram avisar que a casa precisava ser limpa, as 
janelas lavadas, o corrimo encerado, as roupas de cama e mesa passadas, as camas feitas, e o 
pai anunciou que a me, Gretel e Bruno voltariam a Berlim dentro de uma semana.
Bruno descobriu que no estava esperando por aquele momento tanto quanto havia 
previsto e temia ter que dar a notcia a Shmuel.
PLANEJANDO A LTIMA AVENTURA
No dia seguinte quele em que o pai contara a Bruno que ele logo voltaria a Berlim, 
Shmuel no apareceu na cerca como de costume. Nem veio no dia seguinte. No terceiro dia, 
quando Bruno chegou l no havia ningum sentado de pernas cruzadas no cho, e ele esperou 
por dez minutos e estava prestes a dar meia-volta e ir para casa, extremamente preocupado por 
ter que deixar Haja-Vista sem ver o amigo uma ltima vez, quando um ponto na distncia se 
transformou numa mancha que virou um vulto que virou uma pessoa que virou um menino de 
pijama listrado.
Bruno abriu um grande sorriso ao ver o vulto caminhando na sua direo e sentou-se 
no cho, pegando em seu bolso o pedao de po e a maa que contrabandeara consigo para 
dar a Shmuel. Contudo, mesmo  distncia ele podia perceber que o amigo parecia ainda mais 
triste do que o habitual, e quando chegou  cerca ele no aceitou a comida com a ansiedade de 
sempre.
"Achei que voc no vinha mais", disse Bruno. "Eu vim ontem e anteontem tambm, 
mas voc no estava aqui."
"Desculpe", disse Shmuel. "Aconteceu uma coisa."
Bruno olhou para ele e estreitou os olhos, tentando adivinhar o que poderia ter 
ocorrido. Imaginou se Shmuel tambm fora notificado de que iria para casa; afinal, 
coincidncias como essas aconteciam, como, por exemplo, o fato de os dois fazerem aniversrio 
no mesmo dia.
"E ento?", perguntou Bruno. "O que houve?"
"Meu pai", disse Shmuel. "No conseguimos encontr-lo."
"No conseguem encontr-lo? Que estranho. Quer dizer que ele se perdeu?"
"Suponho que sim", disse Shmuel. "Ele estava aqui na segunda e ento foi mandado 
para o trabalho com mais alguns homens e nenhum deles
voltou."
"E ele no mandou uma carta?", perguntou Bruno. "Ou ser que deixou um bilhete, avisando 
quando estaria de volta?" "No", disse Shmuel.
"Que estranho", disse Bruno. "Voc tentou procurar por ele?", perguntou aps um 
instante.
"Claro que sim", disse Shmuel num suspiro. "Fiz aquilo de que voc sempre fala. Fui 
explorar."
"E no encontro nenhuma pista?"
"Nada."
"Bem, isso  muito esquisito", disse Bruno. "Mas acho que deve haver uma explicao 
simples."


"E qual ?", disse Shmuel.
"Imagino que os homens tenham sido levados para trabalhar em outra cidade e tm de 
ficar l por alguns dias, at o servio estar terminado. E o correio por aqui no  l essas coisas. 
Acho que ele estar de volta dentro dos prximos dias."
"Espero que sim", disse Shmuel, que dava a impresso de que ia chorar. "No sei o que 
devemos fazer sem ele."
"Eu posso perguntar ao meu pai, se quiser", disse Bruno cuidadosamente, torcendo 
para que Shmuel no dissesse sim.
"No acho que seria uma boa idia", disse Shmuel, o que, para desapontamento de 
Bruno, no era uma negativa explcita.
"Por que no?", perguntou ele. "Meu pai sabe muito sobre a vida do seu lado da cerca."
"Acho que os soldados no gostam de ns", disse Shmuel. "Bom", acrescentou ele 
juntamente com o mais prximo de uma risada de que foi capaz, "eu sei que eles no gostam 
de ns. Eles nos odeiam."
Bruno recostou-se, surpreso. "Tenho certeza de que no odeiam vocs", disse ele.
"Odeiam sim", disse Shmuel, inclinando-se para a frente, os olhos mais estreitos e os 
lbios levemente retorcidos pela raiva. "Mas tudo bem, porque eu odeio eles tambm. Eu odeio 
todos eles", repetiu ele, convicto.
"No odeia o meu pai, no ?", perguntou Bruno.
Shmuel mordeu os lbios e no disse nada. Ele j vira o pai de Bruno em diversas 
ocasies e no compreendia como era possvel tal homem ter um filho to amvel e gentil.
"Enfim", disse Bruno aps uma pausa devida, no querendo mais discutir o assunto, 
"eu tambm tenho algo a lhe contar."
"Tem, ?", perguntou Shmuel, olhando para ele cheio de esperana.
"Sim. Vou voltar a Berlim."
O queixo de Shmuel caiu, tamanha foi sua surpresa. "Quando?", ele perguntou, a voz 
presa na garganta enquanto falava.
"Bom, hoje  quinta-feira", disse Bruno. "E ns vamos no sbado. Depois do almoo."
"Mas por quanto tempo?", perguntou Shmuel.
"Acho que  para sempre", disse Bruno. "Minha me no gosta daqui de Haja-Vista - 
ela disse que aqui no  lugar para se criar duas crianas -, e ento meu pai vai ficar aqui para 
trabalhar porque o Fria tem grandes planos para ele, mas o resto de ns vai para casa."
Ele usou a palavra "casa", apesar de no saber mais onde era sua verdadeira "casa".
"Ento eu no vou mais ver voc?", perguntou Shmuel.
"Bem, algum dia sim", disse Bruno. "Voc pode ir a Berlim passar as frias. No  
possvel que voc tenha que ficar aqui para sempre, no ?"
Shmuel balanou a cabea. "Acho que no", disse, triste. "No terei com quem 
conversar depois que voc se for", ele acrescentou.
"No", disse Bruno. Ele quis acrescentar as palavras "Eu tambm vou sentir sua falta, 
Shmuel"  sua frase, mas percebeu que estava um pouco envergonhado para diz-las. "Ento 
amanh ser a ltima vez em que nos veremos", prosseguiu ele. "Teremos que nos despedir 
ento. Vou tentar lhe trazer um lanche especial."
Shmuel acenou afirmativamente, mas no encontrou palavras para expressar sua 
tristeza.
"Queria que a gente pudesse brincar juntos", disse Bruno, aps uma longa pausa. "S 
uma vez. S para ter a lembrana."
"Eu tambm queria", disse Shmuel.
"J faz mais de um ano que conversamos e nunca tivemos a chance de brincar. E sabe 
o que mais?", acrescentou ele. "Todo este tempo eu fiquei olhando da minha janela o lugar onde 
voc mora, mas nunca vi com meus prprios olhos como  de fato o outro lado."
"Voc no iria gostar", disse Shmuel. "Sua casa  muito mais confortvel", ele 
acrescentou.
"Mesmo assim eu gostaria de conhecer", disse Bruno.
Shmuel pensou por alguns instantes e ento se abaixou e meteu a mo na cerca, 
erguendo-a um pouco, apenas o suficiente para passar um menino pequeno, talvez do 
tamanho de Bruno.
"E ento?", disse Shmuel. "Por que no vem olhar?"
Bruno piscou e pensou a respeito. "Acho que no me deixariam", ele disse, cheio de 
dvidas.
"Bom, provavelmente tambm no deixam voc vir at aqui e conversar comigo todos 
os dias", disse Shmuel. "E mesmo assim voc vem, no vem?"
"Mas se me pegassem, eu estaria encrencado", disse Bruno, certo de que a me e o pai 
no aprovariam suas escapadas.
" verdade", disse Shmuel, abaixando a cerca novamente e olhando para o cho com 
lgrimas nos olhos. "Ento acho que amanh nos veremos para dizer adeus."
Nenhum dos meninos disse nada por um momento. Subitamente Bruno teve um 
lampejo.
"A no ser que...", ele comeou, pensando por um instante e deixando seu plano crescer 
em sua mente. Ele levou a mo  cabea e apalpou onde costumava haver cabelo e onde agora 
s restava uma penugem que ainda no crescera inteiramente. "Lembra-se de que voc disse 
que eu estava parecido com voc?", perguntou a Shmuel. "Quando rasparam minha cabea?" 
"S que mais gordo", concordou Shmuel.
"Bem, se  assim", disse Bruno, "e se eu tambm tivesse um par de pijamas listrados, a 
eu poderia passar para o seu lado e fazer uma visita, sem que ningum percebesse."
O rosto de Shmuel se iluminou, e ele abriu um grande sorriso. "Acha mesmo?", ele 
perguntou. "Faria isso?"
" claro", disse Bruno. "Seria uma grande aventura. Nossa ltima aventura. 
Finalmente eu poderei explorar um pouco."
"E voc poderia me ajudar a procurar meu pai", disse Shmuel.
"Por que no?", disse Bruno. "Vamos dar uma volta e procurar alguma pista.  o que 
se deve fazer quando se est explorando. O nico problema  conseguir um par sobressalente 
de pijamas listrados."
Shmuel balanou a cabea. "No tem problema", ele disse. "Sei de uma cabana onde 
eles ficam guardados. Posso pegar um do meu tamanho e traz-lo para voc. A voc se troca e 
ns poderemos procurar meu pai."
"Maravilha", disse Bruno, levando pelo entusiasmo do momento. "Ento esse  o nosso 
plano."
"Vamos nos encontrar amanh no mesmo horrio", disse Shmuel.
"No v se atrasar desta vez", disse Bruno, levantando-se e batendo o p de si. "E no 
se esquea do pijama listrado."
Os dois meninos foram animados para casa naquela tarde. Bruno imaginou uma 
grande aventura diante de si; finalmente ele teria a oportunidade de ver o que havia do outro 
lado da cerca antes de voltar a Berlim - sem falar na chance de fazer alguma explorao de 
verdade. Shmuel viu a oportunidade de conseguir algum para ajud-lo a procurar seu pai. 
Tudo considerado, o plano parecia muito inteligente e era uma boa maneira de se despedir.
O QUE ACONTECEU NO DIA SEGUINTE
O dia seguinte - sexta-feira - foi mais um dia molhado. Quando Bruno acordou pela 
manh, olhou pela janela e ficou desapontado ao ver a chuva caindo. Se no fosse pelo fato de 
que aquela seria a ltima chance de ele e Shmuel passarem algum tempo juntos - sem falar que 
a aventura prometia ser muito emocionante, especialmente porque envolvia fantasias e roupas, 
-ele teria desistido de sair e teria esperado por outra tarde na semana seguinte, quando no 
tivesse planejado nada de especial.
Entretanto, o tempo estava passando e no havia nada que ele pudesse fazer o respeito. 
E, afinal, era apenas de manh, muita coisa poderia acontecer at a tarde, no horrio em que os 
meninos costumavam se encontrar. Certamente a chuva j teria parado quela altura.
Ele ficou olhando pela janela durante as aulas matinais de herr Liszt, mas a chuva no 
deu sinais de enfraquecimento e at golpeava com maior fora as janelas. Bruno observou a 
janela durante o almoo na cozinha, quando estava chorando definitivamente menos, e at viu 
um raio de sol saindo de trs de uma nuvem escura. Ele olhou a chuva durante as aulas de 
geografia e histria ao longo da tarde, quando o vento atingiu sua fora mxima e a chuva at 
ameaou derrubar as janelas.
Felizmente a chuva parou quase na hora de herr Liszt ir embora, e ento Bruno vestiu 
um par de botas e o pesado casaco de chuva, esperou at que ningum estivesse olhando e saiu 
de casa.
As botas chafurdavam na lama e ele passou a apreciar a caminhada mais do que em 
qualquer outra ocasio anterior. A cada passo Bruno parecia enfrentar o perigo de tropear e 
cair, o que no chegou a acontecer, pois ele conseguiu manter o equilbrio, at mesmo num 
trecho especialmente ruim onde, ao erguer a perna esquerda, a bota ficou presa na lama 
enquanto seu p escorregou direto para fora do calado.
Ele olhou para o cu e, embora ainda estivesse bastante escuro, pensou que j havia 
chovido o suficiente por um dia e que estaria a salvo durante a tarde.  claro que depois haveria 
o desafio de explicar por que estaria to sujo ao voltar para casa mais tarde, mas Bruno pensou 
que poderia usar como argumento o fato de ser um menino tpico, o que a me sempre dizia 
que ele era, e assim provavelmente no se meteria em muita encrenca. (A me estivera 
especialmente feliz durante os dias anteriores,  medida que cada um dos pertences da famlia 
era empacotado e mandado para Berlim.)
Shmuel estava esperando por Bruno quando este chegou, e pela primeira vez ele no 
estava sentado de pernas cruzadas no cho, olhando para a poeira sob seus ps; ao contrrio, 
estava de p, apoiado contra a cerca.


"Ol, Bruno", disse ele quando viu o amigo se aproximando. "Ol, Shmuel", 
disse Bruno.
"No sabia se nos veramos novamente - com a chuva e tudo o mais, quero dizer", 
disse Shmuel. "Achei que talvez voc tivesse que ficar dentro de casa."
"Foi arriscado no comeo", disse Bruno. "Com a chuva to forte."
Shmuel confirmou com a cabea e estendeu as mos para Bruno, que abriu a boca, 
encantado. Ele trazia um par de calas listradas, o palet listrado e o bon listrado de pano que 
compunham um pijama exatamente igual ao que estava vestindo. No estava muito limpo, 
mas servia como disfarce, e Bruno sabia que os melhores exploradores sempre usam as roupas 
certas.
"Ainda quer me ajudar a encontrar meu pai?", perguntou Shmuel, ao que Bruno 
acenou rapidamente com a cabea.
" claro", ele disse, embora na sua cabea procurar o pai de Shmuel no fosse to 
importante quanto a possibilidade de explorar o mundo do outro lado da cerca. "No iria 
desapont-lo."
Shmuel ergueu do cho a parte de baixo da cerca e passou por baixo dela as roupas 
para Bruno, tomando muito cuidado para no deix-las tocar o cho enlameado.
"Obrigado", disse Bruno, coando a cabea rala e se perguntando por que no 
lembrara de trazer uma sacola na qual deixar as prprias roupas. O cho naquele ponto era to 
sujo que elas ficariam arruinadas se fossem deixadas ali. No havia escolha, na verdade. Ele 
poderia deix-las ali at mais tarde e aceitar o fato de que estariam completamente tomadas 
pela lama; ou podia desistir da coisa toda, e isso, como qualquer explorador sabia, estava 
absolutamente fora de questo.
"Bem, vire para l", disse Bruno, apontando para o amigo que estava ali sem jeito, "no 
quero que fique me observando."
Shmuel deu meia-volta e Bruno tirou o casaco e depositou-o o mais delicadamente que 
pde no cho. Depois tirou a camisa e tremeu no ar frio por um instante antes de vestir o palet 
do pijama. Enquanto o passava pela cabea, teve a infeliz idia de respirar pelo nariz; o odor 
no era bom.
"Quando foi a ltima vez que foi lavado?", perguntou ele, e Shmuel voltou-se 
novamente.
"No sei se j foi lavado", disse Shmuel.
"Vire para l!", gritou Bruno, e Shmuel obedeceu. Bruno olhou para a esquerda e para 
a direita oura vez; como no havia ningum  vista, ele comeou o difcil processo de tirar as 
calas enquanto descalava uma bota, e depois a outra, passando as pernas alternadamente. 
Parecia muito estranho tirar as calas ao ar livre e ele no era capaz de imaginar o que pensaria 
uma pessoa que o visse naquele momento, mas finalmente, e aps grande esforo, conseguiu 
completar a tarefa.
"Pronto", disse ele. "Pode virar de novo."
Shmuel voltou-se bem quando Bruno aplicava o toque final ao disfarce, colocando o 
bon de pano na cabea. Shmuel piscou e balanou a cabea. Estava realmente muito bom. Se 
no fosse pelo fato de que Bruno no era nem de longe to magro quanto os meninos daquele 
lado da cerca, nem to plido, seria difcil distinguir entre eles. Era quase (pensou Shmuel) 
como se fossem mesmo exatamente iguais.
"Sabe o que isso tudo me lembra?", perguntou Bruno, e Shmuel balanou a cabea.
"O qu?", perguntou ele.
"Isso me lembra da minha av", disse ele. "Lembra-se de quando eu lhe falei dela? 
Aquela que morreu?"
Shmuel acenou com a cabea; ele se lembrava porque Bruno falara muito dela ao 
longo do ano e lhe contara o quanto gostava da av e como gostaria de ter aproveitado melhor 
o tempo para poder escrever-lhe mais cartas antes que ela morresse.
"Lembra-me das peas que ela costumava encenar comigo e com Gretel", disse Bruno, 
tirando os olhos de Shmuel, enquanto recordava aqueles dias distantes, ainda em Berlim, parte 
das muito poucas memrias que se recusavam a se desvanecer. "Lembra-me de como ela 
sempre tinha a roupa certa para mim. Usando a roupa certa, voc se sente como a pessoa que est 
fingindo ser, ela sempre me dizia. Creio que  isso o que estou fazendo, no? Fingindo ser uma 
pessoa do outro lado da cerca."
"Um judeu, voc quer dizer", disse Shmuel.
"Sim", disse Bruno, equilibrando-se nos ps em sinal de desconforto. "Isso mesmo."
Shmuel apontou para os ps de Bruno e para as botas pesadas que ele trouxera de 
casa. "Vai ter que deix-las para trs tambm", disse ele.
Bruno fez cara de desgosto. "Mas e a lama?", disse ele. "Voc no espera que eu v 
descalo."
"Se no for, ser reconhecido", disse Shmuel. "No tem escolha."
Bruno suspirou, mas sabia que o amigo tinha razo; ento tirou as botas e as meias e 
as deixou ao lado da pilha de roupas no cho. De incio pareceu horrvel colocar os ps 
descalos dentro de tanta lama; eles afundavam at os tornozelos e, cada vez que ele erguia o 
p, a coisa parecia ficar pior. Depois porm ele at que comeou a gostar da sensao.
Shmuel abaixou-se e ergueu a base da cerca, que s cedia at certa altura, e Bruno foi 
obrigado a rolar por baixo dela, cobrindo de lama completamente o pijama listrado. Ele 
gargalhou quando olhou para si mesmo. Jamais estivera to sujo em toda a vida, e a sensao 
era maravilhosa.
Shmuel tambm sorriu e os dois meninos ficaram juntos, sem jeito por um instante, 
desacostumados que estavam a ficar do mesmo lado da cerca.
Bruno sentiu um impulso de abraar Shmuel, apenas para mostrar-lhe o quanto 
gostava dele e como fora bom conversar com ele durante o ano que passara ali.
Shmuel tambm sentiu um impulso de abraar Bruno, apenas para agradecer-lhe 
pelas incontveis gentilezas, e pela comida que trazia de presente, e pelo fato de que iria ajud-
lo a procurar pelo pai.
No entanto, nenhum deles abraou o outro; em vez disso, comearam a caminhada 
desde a cerca at o campo, uma caminhada que Shmuel fizera quase todos os dias j h quase 
um ano, quando escapava dos olhares dos soldados e conseguia chegar at a nica parte de 
Haja-Vista que parecia no estar sob vigilncia constante, um lugar no qual ele tivera a sorte de 
encontrar um amigo como Bruno.
No demorou para que alcanassem o campo. Bruno abriu os olhos, assombrado com 
as coisas que via. Na sua imaginao ele pensara que todas as cabanas estavam cheias de 
famlias felizes, algumas das quais se sentavam do lado de fora em suas cadeiras de balano 
durante o anoitecer e contavam histrias sobre como as coisas eram melhores quando eram 
crianas e tinham respeito pelos mais velhos, ao contrrio das crianas de hoje. Pensou que 
todos os meninos e meninas que moravam ali estariam em grupos diferentes, jogando tnis ou 
futebol, pulando corda e desenhando no cho quadrados para jogar amarelinha.
Imaginou que haveria uma loja no centro, e quem sabe um pequeno caf como aqueles 
que ele vira em Berlim; perguntava-se se haveria uma banca de frutas e legumes.
Como ele pde ver, todas as coisas que ele imaginou estarem l - no estavam.
No havia adultos sentados em cadeiras de balano nas varandas. E as crianas no 
estavam brincando em grupos.
E no s faltava uma banca de frutas e legumes, como tampouco havia algum caf 
parecido com os de Berlim.
Em vez disso, o que havia eram multides de pessoas sentadas juntas em grupos, 
olhando para o cho, com uma aparncia terrivelmente triste; todos tinham uma coisa em 
comum: eram absurdamente magros, e os olhos eram fundos, e as cabeas, raspadas, o que 
Bruno imaginou indicar que l tambm houvera uma epidemia de piolhos.
Num canto Bruno viu trs soldados que pareciam encarregados de um grupo de cerca 
de vinte homens. Estavam gritando com eles, e alguns dos homens haviam cados de joelhos e 
l estavam com as cabeas entre as mos.
Noutro canto ele viu mais alguns soldados montando guarda e rindo e olhando pelas 
miras das armas, apontando-as em vrias direes, mas sem dispar-las.
Na verdade, para onde quer que ele olhasse, s via dois tipos de gente: se no eram os 
soldados felizes, sorridentes e gritalhes nos seus uniformes, ento eram as pessoas infelizes e 
choronas de pijama listrado, a maioria das quais parecia estar olhando para o nada, como se 
estivessem de fato adormecidas.
"Acho que no gosto daqui", disse Bruno depois de um tempo. "Eu tambm no 
gosto", disse Shmuel. "Acho que  melhor ir para casa", disse Bruno.
Shmuel parou de andar e olhou para ele. "Mas e o meu pai?", disse ele. "Voc falou que 
ia me ajudar a encontr-lo."
Bruno pensou um pouco. Havia feito uma promessa ao amigo e ele no era do tipo que 
no cumpria uma promessa, especialmente considerando que era a ltima vez que me veriam. 
"Tudo bem", ele disse, embora estivesse bem menos seguro do que antes. "Mas onde devemos 
procurar?"
"Voc disse que precisvamos encontrar pistas", disse Shmuel, que estava chateado 
porque pensava que, se Bruno no o ajudasse, ento quem ajudaria?
"Pistas, claro", disse Bruno, concordando com a cabea. "Voc tem razo. Vamos 
comear a procur-las."
Bruno manteve sua palavra e os dois meninos passaram uma hora e meia procurando 
pistas pelo campo. No sabiam ao certo o que estavam procurando, mas Bruno seguiu dizendo 
que um bom explorador saberia reconhecer o que procurava quando encontrasse. No entanto, 
eles no encontraram nada que lhes desse alguma idia do que teria acontecido como pai de 
Shmuel, e estava comeando a ficar escuro.
Bruno olhou para o cu e parecia que ia chover novamente. "Sinto muito, Shmuel", 
disse afinal. "E uma pena que no tenhamos encontrado nenhuma pista."
Shmuel consentiu com a cabea, triste. Ele no estava realmente surpreso. J no 
esperava encontrar nada. Mas mesmo assim tinha sido legal trazer o amigo para ver como era 
o lugar onde ele morava.
"Acho que agora  hora de ir para casa", disse Bruno. "Podemos ir juntos at a cerca?"
Shmuel abriu a boca para responder, mas bem naquele instante ouviu-se um apito alto 
e dez soldados - o maior nmero deles que Bruno vira reunidos num s lugar - cercaram um 
setor do campo, o setor em que estavam Bruno e Shmuel.
"O que est havendo?", sussurrou Bruno. "O que vai acontecer?"
"Isso acontece de vez em quando", disse Shmuel. "Fazem as pessoas sarem para 
marchar."
"Marchar!", disse Bruno, desgostoso. "No posso sair para marchar. Tenho que estar 
em casa a tempo do jantar. Hoje tem rosbife."
Ssh", disse Shmuel, pondo um dedo sobre seus lbios. "No diga nada, seno eles 
ficam bravos."
Bruno franziu a testa, mas ficou aliviado ao ver que todas as pessoas de pijama listrado 
daquela parte do campo estavam se reunindo, a maioria sendo empurradas pelos soldados, de 
maneira que ele e Shmuel ficaram escondidos no meio deles e no podiam ser vistos. Ele no 
sabia por que estavam todos to assustados - afinal, marchar no era l to terrvel - e queria 
sussurrar para eles que tudo ia ficar bem, que o pai dele era o comandante, e se esse era o tipo 
de coisa que ele queria das pessoas, ento no poderia ser nada de ruim.
Os apitos soaram novamente, e desta vez o grupo, que devia ser de cerca de cem 
pessoas, comeou a marchar lentamente, todo mundo junto, com Bruno e Shmuel ainda presos 
no centro. Houve algum tipo de tumulto na parte de trs, onde alguns homens pareciam se 
recusar a marchar, mas Bruno era pequeno demais para ver o que estava acontecendo e tudo o 
que ouviu foi um barulho muito alto, como o de tiros, porm no foi capaz de precisar o que 
era.
"Ser que a marcha demora muito?", sussurrou ele, pois estava comeando a sentir 
fome.
"Acho que no", disse Shmuel. "Quando as pessoas saem para marchar, eu nunca mais 
as vejo. Mas imagino que no demore."
Bruno franziu o cenho novamente e olhou para o cu, e enquanto fazia isso ouviu 
outro barulho alto, desta vez o som de um trovo, e nesse mesmo instante o cu pareceu ficar 
mais escuro, quase negro, e a chuva caiu com fora ainda maior do que pela manh. Bruno 
fechou os olhos por um instante e sentiu os pingos lavando-lhe o corpo. Quando tornou a abri-
los, no estava de fato marchando, mas sim sendo arrastado junto com o grupo de pessoas, e 
tudo o que podia sentir era a lama que cobria seu corpo e o pijama grudado  pele por causa da 
intensidade da chuva e ele quis muito estar de volta em casa, observando tudo aquilo  
distncia, sem tomar parte dos acontecimentos.
"J chega", disse ele a Shmuel. "Desse jeito eu vou pegar um resfriado aqui. Tenho que 
ir para casa."
Mas, enquanto ele dizia essas palavras, seus ps o levaram a um lance de degraus, e, ao 
prosseguir marchando, percebeu que no estava mais chovendo, porque estavam todos se 
amontoando num longo cmodo que era surpreendentemente quente e devia ter sido 
construdo de maneira bastante segura, pois a chuva no entrava por parte alguma. Na 
verdade o cmodo dava a impresso de ser absolutamente hermtico.
"Bem, melhor agora", ele disse, contente por estar fora da tempestade, nem que fosse 
por alguns minutos. "Acho que teremos que esperar aqui at a chuva passar e ento iremos 
para casa."
Shmuel se aproximou bastante de Bruno e olhou para ele assustado.
"Sinto muito por no termos encontrado seu pai", disse Bruno.
"Tudo bem", disse Shmuel.
"E sinto muito que no tenhamos podido brincar, mas, quando voc for a Berlim,  s 
o que faremos, e eu o apresentarei a... Puxa, como era mesmo que eles se chamavam?", Bruno 
se perguntou, frustrado, pois eles deveriam ser os seus trs melhores amigos para toda a vida, 
mas tinham desaparecido de sua memria quela altura. Ele no se lembrava de seus nomes 
nem de seus rostos.
"Pensando bem", ele disse, olhando para Shmuel, "no importa se eu lembro ou no. 
Eles no so mais meus melhores amigos mesmo." Ele olhou para baixo e fez algo bastante 
incomum para a sua personalidade: tomou a pequena mo de Shmuel e apertou-a com fora 
entre as suas.
"Voc  o meu melhor amigo, Shmuel", disse ele. "Meu melhor amigo para a vida 
toda."
Shmuel poderia ter aberto a boca para responder alguma coisa, mas Bruno no teria 
escutado porque neste instante ouviu-se o alto rudo de todos os que haviam marchado para 
dentro engolindo em seco, enquanto a porta da frente foi subitamente trancada e um forte 
barulho metlico ecoou vindo de fora.
Bruno ergueu uma sobrancelha, incapaz de compreender o sentido daquilo tudo, mas 
presumiu que tivesse algo a ver com a necessidade de manter a chuva longe e impedir que as 
pessoas ficassem resfriadas.
E ento o cmodo ficou escuro e de alguma maneira, apesar do caos que se seguiu, 
Bruno percebeu que ainda estava segurando a mo de Shmuel entre as suas e nada no mundo 
o teria convencido a solt-la.
O LTIMO CAPTULO
Nada mais se soube de Bruno depois disso.
Muitos dias mais tarde, depois que os soldados haviam revistado cada canto da casa e 
ido a todas as cidades e vilas com fotos do garoto, um deles descobriu a pilha de roupas e as 
botas que Bruno acomodara perto da cerca. O soldado deixou tudo l, intocado, e foi buscar o 
comandante, que examinou a rea e olhou para a esquerda e para a direita assim como Bruno 
fizera, sem ser capaz de compreender o que acontecera ao filho. Era como se ele tivesse 
simplesmente desaparecido da face da Terra e largado as roupas para trs.
A me no voltou a Berlim to rpido quanto esperava. Ficou em Haja-Vista por 
muitos meses  espera de notcias de Bruno, at que um dia, muito subitamente, pensou que ele 
tivesse ido sozinho para casa, e ento de imediato retornou  casa antiga, de certo modo 
acreditando encontr-lo sentado na soleira da porta, esperando por ela.
 claro que ele no estava l.
Gretel voltou a Berlim com a me e passava boa parte do tempo chorando sozinha em 
seu quarto, no porque havia jogado fora todas as suas bonecas, nem porque havia deixado os 
mapas para trs em Haja-Vista, e sim porque sentia muito a falta de Bruno.
O pai ficou em Haja-Vista por mais um ano depois daquilo e acabou sendo hostilizado 
pelos outros soldados, nos quais mandava e desmandava sem escrpulos. Todas as noites ele 
dormia pensando em Bruno e quando acordava estava pensando nele tambm. Um dia ele 
formulou uma teoria sobre o que poderia ter ocorrido e foi novamente at o ponto na cerca 
onde as roupas haviam sido encontradas um ano antes.
No havia nada de especial naquele lugar, nada de diferente, mas ento ele explorou 
um pouco e descobriu que naquele ponto a parte de baixo da cerca no estava to bem fixada 
ao cho quanto nas demais, e que, quando erguida, a cerca deixava um vo grande o bastante 
para uma pessoa pequena (como um menino) conseguir passar por baixo rastejando. Ele olhou 
para a distncia e seguiu alguns passos lgicos e, ao faz-lo, percebeu que as pernas no 
estavam funcionando direito - como se no pudessem mais manter seu corpo ereto - e acabou 
sentado no cho, quase na mesma posio em que Bruno passara as suas tardes durante um 
ano, embora sem cruzar as pernas sob si.
Alguns meses mais tarde alguns soldados vieram a Haja-Vista, e o pai recebeu ordens 
de acompanh-los, e foi sem reclamar, contente de ir com eles, pois no se importava com o 
que lhe fizessem agora.


E assim termina a histria de Bruno e sua famlia. Claro que tudo isso aconteceu h muito 
tempo e nada parecido poderia acontecer de novo. No na nossa poca.

FIM

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